Divirta-se Notícia - À memória de um pioneiro

Divirta-se

Seção : Teatro - 20/11/2008 09:50

À memória de um pioneiro

A redenção do sonho, ópera de Tim Rescala em homenagem ao escritor Monteiro Lobato, chega à cidade 10 anos depois de ter estreado em São Paulo. Em cartaz no Palácio das Artes

Eduardo Tristão Girão - EM Cultura
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Juarez Rodrigues/EM/D.A Press
O espetáculo A redenção do sonho se passa no dia da morte de Monteiro Lobato, em 4 de julho de 1948
Dez anos depois de sua estréia, em São Paulo, a ópera A redenção pelo sonho, do pianista e compositor carioca Tim Rescala, ganha nova montagem no Grande Teatro do Palácio das Artes, em Belo Horizonte. De amanhã a domingo, ele regerá grupo de músicos e cantores solistas para mostrar, por meio de bonecos do grupo Giramundo, vida e obra do escritor Monteiro Lobato. A direção cênica, originalmente a cargo de Álvaro Apocalypse (fundador do Giramundo), agora está sob o comando do ator e diretor mineiro Chico Pelúcio – cenários são assinados por Raul Belém Machado. O espetáculo encerra a programação da Temporada de Óperas do Palácio das Artes deste ano.

“Apesar de ter os personagens que constituem o universo do Sítio do pica-pau amarelo, esse não é exatamente um espetáculo infantil. É para toda a família, todas as idades. Existem várias gerações de brasileiros que foram formadas no universo do Monteiro Lobato, pelos livros ou televisão. Ele foi muito mais que um simples escritor. Não se sabe sobre o seu pioneirismo em introduzir o regionalismo na literatura, o que escreveu antes, que foi crítico de arte, diplomata, pioneiro na prospecção do petróleo, fundou editoras e jornais. Sendo esse o assunto, não poderia ser estritamente infantil”, avalia Tim Rescala. Além da boneca Emília, Dona Benta, Tia Anastácia, Visconde de Sabugosa, Saci, Rabicó e Quindim, marcam presença os personagens Jeca Tatu e Zé Brasil.

A ópera se passa no dia da morte de Monteiro Lobato, 4 de julho de 1948. O escritor está em sua mesa de trabalho, respondendo a uma carta do amigo Godofredo Rangel, com quem se correspondeu durante quatro décadas. Ele havia sugerido que Lobato escrevesse suas memórias, mas o escritor alega não ver motivos para tal, pois teria vivenciado muitos fracassos ao longo da vida. “À medida que os fatos voltam à memória dele e são encenados, realidade e ficção se misturam. Os personagens se misturam aos fatos. Ao longo da narrativa ele se convence de que Godofredo estava certo e que tinha legado a deixar”, diz. O “patriotismo crítico, nem xenófobo nem ufanista”, acredita Tim, é a sua maior herança.

A redenção pelo sonho foi escrita por encomenda do Sesc Ipiranga à ocasião das comemorações dos 50 anos da morte de Monteiro Lobato. Tim chegou a tentar remontá-la no Rio de Janeiro, mas sem sucesso. “Na época, tudo foi feito pelo Álvaro Apocalypse, entre direção cênica, figurino, cenário e bonecos. Isso foi determinante em termos de conceito para o espetáculo, era uma coisa mais visual. A montagem atual o homenageia, mantendo os bonecos, que são o cerne do trabalho, mas numa outra encenação. A direção do Chico Pelúcio deu outra cara ao espetáculo. A concepção dele é mais teatral”, afirma. Depois de Belo Horizonte, a ópera seguirá para estréia na capital fluminense.

DINÂMICA DOS CANTORES

O grupo de músicos é formado por flauta, clarinete, trombone , baixo, violino, violoncelo, piano e percussão. Cinco cantores integram a seção vocal, numa dinâmica peculiar: “O tenor Lenine Santos, que é o solista, só faz o Monteiro Lobato durante toda a ópera. Os demais cantores – soprano, tenor, contralto e barítono – se revezam entre os outros personagens. Na partitura, peço que tenham dois tipos de atuação: ora assumem o personagem, ora emprestam a voz ao personagem, que é um boneco. O soprano, por exemplo, encarna a Dona Benta, mas empresta a voz para a Emília. É como se houvesse sempre um manipulador a mais. É algo complexo, principalmente para um cantor lírico”.

Frescor Para Chico Pelúcio, a responsabilidade como diretor cênico é grande. Afinal, ocupa cargo que antes era de Álvaro Apocalypse e a ópera também homenageia o criador do Giramundo. “Estou tendo o cuidado de preservar a idealização dos bonecos do Álvaro. Como não vi a outra montagem nem achei registro visual dela, tive a liberdade de fazer uma outra criação. O frescor está em trazer para a interpretação o jogo teatral que muitas vezes a rigidez das marcações da ópera e do canto impede um pouco”, afirma.

A REDENÇÃO PELO SONHO
Ópera de Tim Rescala, com direção cênica de Chico Pelúcio. Sexta-feira (21/11), às 19h30; sábado, às 11h e às 17h; e domingo, às 17h, no Grande Teatro do Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro). Ingresso: R$ 10 (platéias 1 e 2) e R$ 5 (platéia superior). Informações: (31) 3236-7400 e www.palaciodasartes.com.br. De amanhã a domingo, a Fundação Clóvis Salgado receberá doações de brinquedos para instituições de caridade.