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Seção : Teatro - 16/04/2009 19:25

Corpos no ar

Cia. Suspensa apresenta De peixes e pássaros no espaço cultural 104

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Guto Muniz/Divulgação

O universo surrealista de Marc Chagall, artista plástico russo que viveu entre 1887 e 1985, parece perfeito para se juntar à inspiração ligada às próprias memórias afetivas e ao trabalho baseado em movimentos aéreos dos bailarinos da Cia. Suspensa, que estreia neste fim de semana em BH o espetáculo De peixes e pássaros, em tom onírico, mágico e simbólico.

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Sem uma narrativa linear, o espetáculo é dividido em sete partes organizadas como pequenos contos que mesclam o circo, o teatro e a dança. Em cena, estão algumas referências às paisagens chagallianas: personagens que habitam mundos etéreos, inversão do céu e da terra, corpos horizontais que sobrevoam o chão, aldeias e circos, seres em metamorfose, que se transformam em pássaros, peixes e touros.

Bailarinas, músicos, artistas de circo, noivos apaixonados, homens e mulheres em festa ou luto, em comunhão ou a sós, um casal que dança tango em meio à desarmonia do ambiente, ou ainda uma garota que admira a dança, mas não sabe dançar (personagem construída a partir do texto A coisa me escapa por entre os dedos, de Rodrigo Naves), são algumas das figuras mágicas que o público vai conhecer, transportado para um universo de humor e melancolia, de fuga e leveza.

A ideia de chão é subvertida e os bailarinos “flutuam” em cena enquanto dançam. Três trapézios, três bancos, um colchão e uma cabeça de touro formam o conjunto dos materiais que são usados como suporte para as suspensões e, por vezes, são também transmutados pelas imagens poéticas. Um trapézio se transforma ora numa porta, ora num balanço, ora no ombro do pai, ora no próprio trapézio.

“O espetáculo surgiu de um desejo da companhia em trabalhar em um terreno perigoso, fora do chão, quando se está em um equilíbrio de luxo, tirando a noção de espaço como algo concreto. A dança surge como um diferencial para os bailarinos que estavam muito ligados ao circo. Quando eles me procuraram, lembrei de uma referência de Manoel de Barros à obra de Marc Chagall, quando ele fala que Deus dá a forma e o artista desforma. Pensei na história do voo, e fui beber na fonte chagalliana”, conta o diretor, Tarcísio Homem.

“Não há uma narrativa linear, são cenas intercaladas, tendo o surrealismo como pano de fundo. São figuras fora do chão, o corpo horizontalizado, personagens se transmutando, em metamorfose, o peixe com asas, um lugar onde o corpo não está. De peixes e pássaros foge do cotidiano, habita outras texturas do viver. E acredito que a arte esteja aí: em um outro lugar que também dialoga com você, que dá acesso ao delírio imagético. É o fulgor, a recriação, o lúdico, a loucura, a memória, aquilo que cintila mesmo”, completa.

Para o bailarino Lourenço Marques, o espetáculo completa o trabalho da companhia, que vinha pesquisando o voo, os movimentos aéreos, vindos mais do circo e que, com a dança trabalhada em parceria com Tarcísio, começou também a entender o corpo em seu apoio pleno, o chão. “Nossa proposta é dançar improvisando o ar. Como se comporta o corpo fora do chão, e totalmente apoiado? Comecei a entender o corpo como potência comunicativa, menos as palavras. Chagall nos pareceu a inspiração ideal. A gravidade e as pessoas subvertidas, o flutuar, superfícies exíguas, outras perspectivas. O plano incomun de Chagall, o corpo que ele propunha e seu surrealismo são o mote para mostrar nossos próprios desejos e ansiedades, que muitas vezes habitam outros locais que não são o real”.

O elenco é formado, além de Lourenço, pelas artistas Patrícia Manata e Tana Guimarães, e tem a trilha sonora, em sutis tons surreais, assinada pelo músico Lênis Rino.

Corpos suspensos
Guto Muniz/Divulgação

Estar fora do chão e os efeitos disso no corpo é uma investigação que a Cia. Suspensa vem realizando ao longo do tempo. Com De peixes e pássaros, os bailarinos prosseguem a pesquisa, mas, agora, a suspensão é mais sutil, de forma que também o chão se transforma em agente interativo. Com trapézios a uma pequena distância do solo, os dançarinos ficam suspensos por cordas e roldanas, em outra hora apoiados em objetos como um banco, um colchão ou o corpo de algum companheiro de cena.

A queda de Ícaro, O Violinista, Dedicado à minha noiva, Eu e a aldeia, Paris através da janela, Sobre Vitebisk, Sobre a cidade, O aniversário, Bela com Gola, O Passeio, Retrato duplo com copo de vinho e O Tempo é um rio sem margens são algumas das obras de Chagall utilizadas como base da montagem.

Com o núcleo de pesquisa Sem os Pés no Chão, em 1999, a Cia. Suspensa começou a explorar as possibilidades de movimentação aérea circense. Pouco Acima (2004), a oficina Sem os Pés no Chão (realizada desde 2002), e a publicação do livro-DVD homônimo, de 2007, são alguns dos trabalhos do grupo. Enriquecendo o simples truque circense, De peixes e pássaros é também resultado de uma incursão mais profunda no mundo da dança.

Movimento, sensação, música, palavra e silêncio, pulsação, corpo, imagem, cenas que abrem diversas perspectivas são alguns dos caminhos alcançados, com o entendimento da arte como campo aberto, capaz de chegar nas profundezas sutis dos seres humanos.

De Peixes e Pássaros: 18 e 19 e 25 e 26 de abril, sábado e domingo, às 20 horas, no espaço cultural 104 (Praça Rui Barbosa, em frente à Praça da Estação, Centro). Capacidade: 300 lugares. Ingressos: R$ 12 e R$ 6. Mais informações: (31) 3226.4698 / (31) 8634.6046