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Seção : Teatro - 04/09/2009 07:00
Grupo Corpo estreia em BH a nova montagem Ímã
Jogo entre corpos que se atraem e se repelem é a base do espetáculo
Marcello Castilho Avellar - EM Cultura
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Quando Rodrigo Pederneiras começou a coreografar para o Grupo Corpo, quase três décadas atrás, tinha o furor da maior parte dos jovens artistas: criava um balé atrás do outro, frequentemente mais de um por ano. A maioria das obras era menor que as atuais – mas a metragem da criação impressionava, principalmente se pensarmos que as obras já eram complexas, não apenas em termos de coreografia, mas também na integração desta a um conjunto maior, o espetáculo. Como ocorre com a maior parte das pessoas, a produção de Rodrigo Pederneiras diminuiu com o passar do tempo. Felizmente, só em termos de quantidade (ou infelizmente, porque qualquer apaixonado pela dança adorava a certeza de que veria novo balé do Corpo a cada temporada). É que, como ocorre com os grandes artistas, a queda na produtividade quantitativa veio acompanhada de aumento na qualidade, como se o fato de não ter a obrigação de criar o tempo todo permitisse ao Corpo a oportunidade de pensar, mais e melhor, sobre cada criação. Ímã, que será visto pelo público de Belo Horizonte a partir desta sexta-feira, é a quintessência dessa lógica, uma obra em que pequenos detalhes, pequenos preciosismos, podem ser encontrados a cada momento. Bach, seu companheiro de programa, mostra que, em 1996, quando estreou, a melhor companhia de dança do Brasil já caminhava nessa direção. Veja mais fotos de Ímã• Reparem, por exemplo, na maneira como as duas coreografias parecem combinar. Bach radicaliza a verticalidade, com seus bailarinos que vêm das alturas e vão para as alturas. Ímã faz o mesmo, só que sem o aparato para subir e descer, como se os próprios bailarinos se tornassem mais altos e verticais por causa do que dançam. • A palavra “ímã” nos remete, primeiro, à ideia de atração. Ao ver a coreografia, contudo, nos lembramos também que os pólos semelhantes dos ímãs se repelem. Ímã é um grande jogo entre esses dois vetores – corpos que se atraem, corpos que se repelem, blocos de corpos que se atraem e repelem. Poderia ser repetitivo – mas Rodrigo Pederneiras sempre teve um talento particular em compor variações sobre um tema sem que a gente perceba. • A maneira como os bailarinos volta e meia se grudam uns nos outros em Ímã vai remeter muita gente a uma técnica/estética que se espalha cada vez mais pelo Brasil, a contato-improvisação, que se baseia exatamente no uso, pelos bailarinos, do corpo de seus parceiros como fonte tanto de apoio físico quanto de expressão. Rodrigo Pederneiras, que costuma saber muito mais do que sua timidez deixa aparentar, deve conhecer o suficiente do assunto. Mas não copia nada de ninguém: é como se inventasse sua própria escola de contato-improvisação, só para este balé. • Bach é cheio de elementos que funcionam como alegorias da cultura brasileira e, principalmente, mineira. Estão espalhados por toda a coreografia, em pequenas posturas que nos remetem a imagens que já vimos, espalhadas pelas igrejas do interior, ou nos museus. A mais nítida, claro, é o conjunto de bambus que se projeta do urdimento do teatro, como se fosse um daqueles órgãos antigos que ajudaram a fazer a glória da música colonial. E, ligada a ele, está a figura das imagens douradas que se dependuram nos bambus, como aqueles anjos que parecem flutuar em muitas das igrejas mencionadas. • Ímã não é um balé narrativo. Mas como vem ocorrendo com algumas das últimas coreografias de Rodrigo Pederneiras, é quase impossível não associar o que vemos a gestos e situações que conhecemos no mundo – e, no processo, construir micro-histórias ao longo de diversos momentos da obra. Há um parentesco entre Ímã e Lecuona, que o Corpo estreou há poucos anos: os corpos que se agarram e desagarram têm frequentemente o mesmo jeito brejeiro – o que nos faz saber que aquelas histórias são cômicas, mesmo se não conhecemos seu enredo completo. • Bach e Imã também se aproximam na maneira como percebem luz e cor. No primeiro, o brilho quente do dourado vai surpreender e fascinar nossos olhos que a própria coreografia acostumou aos tons frios. No segundo, o surgimento de cada cor vai surpreender e fascinar por sua imprevisibilidade, assim como serão também inesperadas as nuances internas de cada tonalidade. Domenico, Moreno e Kassim contribuem para tirar o Grupo Corpo do chão TRIUNFO DA COR A estreia de Ímã em São Paulo, há cerca de um mês, foi um momento de particular ansiedade para alguns dos integrantes da equipe técnica do Grupo Corpo. O motivo era a novidade tecnólogica, o novo equipamento de iluminação que a companhia incorporou a seu acervo. A impressão geral é que nunca um desenho de luz criado para espetáculo do grupo dependeu tanto da utilização de determinada tecnologia. E sua operação se fundamentava na suavidade, na presença de nuances, na possibilidade de o espaço ser transformado pela luz sem que o espectador sequer perceba que alguma transformação ocorreu. É possível que a chance de que algo desse errado estivesse acima dos estritos padrões que o Corpo se impõe. Mas valeu a pena assumir o risco: Ímã é uma das obras de visual mais deslumbrante que a dança brasileira já criou. É hora de alguém começar a tomar notas para um estudo mais sistemático da maneira como o Grupo Corpo vem trabalhando a luz e a cor. Na maioria dos espetáculos de dança, as duas coisas são meros detalhes. Espetáculos devem ser iluminados, em primeiro lugar, para que as pessoas possam vê-los dentro dos teatros – os iluminadores (ou designers de luz, como virou moda chamá-los) morrem de vergonha deste arroz-com-feijão, mas ele é um fato anterior a qualquer intenção expressiva. Se a luz é sofisticada, em geral é porque o iluminador achou que precisava sublinhar alguma coisa – um foco que concentra naquela figura a atenção do espectador, um efeito que simula o anoitecer, e por aí vai. Raros são os que pensam a luz como arte autônoma. Pensar a luz como arte autônoma e, ao mesmo tempo, integrá-la ao espetáculo, só mesmo Paulo Pederneiras. Ou melhor, Paulo e o resto do Corpo – porque uma luz como a de Ímã só é possível se não soubermos onde termina a ação de Paulo e começa a de Rodrigo Pederneiras, onde termina Rodrigo e começam os bailarinos, onde terminam os bailarinos e começa o figurino de Freusa Zechmeister. Há uma ironia em torno da ansiedade dos integrantes do Corpo na estreia. É que a ousadia do grupo em relação à luz não é coisa nova. Eles já deveriam saber perfeitamente o que é o estranhamento frente a novas tecnologias, porque sua paixão por elas é algo antigo. Da mesma maneira, o desconforto antes da estreia de um novo conceito de luz pode ser visto praticamente como uma história paralela à do próprio grupo. É aqui que voltamos à ideia de que é hora de começar a sistematizar notas. Porque o Corpo está reescrevendo a história da cor nos palcos brasileiros. Se Ímã é um experimento novo no gênero, o fato de realizar experimento novo no gênero é história antiga para o Corpo. Os tons gélidos de Prelúdios deram novo sentido aos azuis que se tornaram moeda corrente na dança, o Agnus Dei de Missa do orfanato parecia prestes a mergulhar no abismo de trevas ao fundo, A criação e Benguelê investiram em nuances do que é o pesadelo da maioria dos iluminadores, a penumbra. 21 foi atrás do caleidoscópio, enquanto Sete ou oito peças para um ballet poderia ser lido como um quebra-cabeça cromático, em que, ao final, veremos a coisa mais próxima de um arco-íris que o palco pode apresentar. Lecuona, com suas luzes que pareciam criar seu próprio palco, fundar o espaço, jogava com insuperável bom gosto com o tom sobre tom, cada peça de figurino combinando com a luz que seria jogada sobre ela. Ímã parece partir daí, mas investiga a possibilidade de que cada cena, cada gesto tenha sua particularidade cromática. Pode parecer inédito. Mas a ideia de que a luz, em si, deve ser sempre algo inédito, vem acompanhando o Corpo desde sempre. GRUPO CORPO |
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