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Seção : ragga - Noticia - 23/10/2008 06:00
Zombie walk: mortos vivos marcham nas ruas de BH
Todo vivo merece um dia de morto. E, claro, todo morto merece um dia de vivo.
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Eu só percebi que a brincadeira estava ficando realmente séria quando flagrei o meu fotógrafo, Carlos Hauck, arrastando seu corpo para cima do passeio e arranhando grunhidos estranhos com o canto da boca. Quando ele descobria que estava sendo observado, tentava parecer normal. Até então, eu estava animado e feliz. Mas a partir daquela visão, fiquei compulsivamente paranóico e passei a acreditar que Eles estavam de volta.
Os breves raios de sol que venciam as barreiras impostas pelas nuvens cinzentas da capital mineira, davam vida aos corpos sangrentos que se acotovelavam nas proximidades da Praça Sete. Trezentos e vinte e sete corpos e meio dividiam um espaço que outrora servira de abrigo para mendigos. As usuais manifestações políticas dominicais cediam espaço para outra organização populacional (mesmo que morta): a Zoombie Walk, uma passeata de pessoas que sempre cultivaram o íntimo desejo de ser zumbi por um dia. Sem razões sociais, morais, éticas, populacionais ou governamentais, a brincadeira era para ser só uma brincadeira. Mas em algum momento o (humor) ácido bateu e o circo começou a pegar fogo. Não que isso fosse matar alguém, claro. Mesmo porque àquela altura já estávamos em outra dimensão, tão longe dos mortos quanto dos vivos. Confira galeria de fotos do Zombie Walk BH 2008Acordei mais tarde que de costume, o que acabou favorecendo o meu visual. O fotógrafo Carlos Hauck estava suficientemente desanimado para lamuriar: “Só vou participar da concentração, lá no Centro. Não vou andar nem meio metro.” O sargento Pimenta, que fazia o patrulhamento na segunda esquina da Afonso Pena, jurou a si mesmo que não se entusiasmaria com tanta bobagem. Mas ele não estava emocionalmente preparado para encarar uma enfermeira morta correndo atrás do Bart, dos Simpsons. Não era um dia bom para promessas.
“Tanto no Canadá, como na Inglaterra, quando acaba o Zoombie Walk, todo mundo vai preso”, a observação pouco oportuna veio de um soldado soviético com as mãos amputadas. Percebendo o meu anseio, o sujeito aproveitou para anunciar: “E fiquei sabendo que tem oito viaturas da polícia esperando a gente, lá na Savassi.” A minha paranóia era alimentada vez ou outra pelo andar da caminhada. Eu estava vestido de morto, vivo, mendigo e minha cabeça ostentava leves toques de múmia. Ainda assim eu estava inseguro, com frio e trincando até os dentes. Mas nenhum sentimento pode ser comparado ao medo que o senhor Ubaldo Siqueira, de 87 anos, sentiu. Uba, como gosta de ser chamado, degustava calmamente um amargo café até perceber uma movimentação vinda da rua. Ao se dependurar no parapeito de sua luxuosa cobertura, no 10º andar, o aposentado e pensionista se viu cercado pelo que chamou de “uma tremenda algazarra. Eram mais de oitocentos indivíduos. Tinha gente viva, gente morta e uns animais estranhos. Por um segundo achei que seria a minha hora”, lembra.
Até certo ponto, eu e o fotógrafo Carlos estávamos nos divertindo com a insanidade alheia. Encarar uma multidão de alucinados escalando ônibus, assustando criancinhas e congestionando as calçadas era digno de boas risadas. Isso funciona bem quando você tem alguém para compartilhar os seus anseios. Mas e quando seu único companheiro de reportagem se rende ao lado B da vida? Zoombie Walk: vivo ou morto, já era hora de sair fora. Confira vídeo do Zombie Walk BH 2008 Confira vídeos do Zombie Walk em Sidnei, Austrália Confira vídeos do Zombie Walk em Moscou |





Confira vídeo do Zombie Walk BH 2008
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