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Divirta-se

Seção : ragga - Noticia - 05/01/2009 14:14

Confira reportagem da Ragga #19 sobre o Camping & Rock


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Meu maior medo era que lambessem meus ouvidos. É que eu tinha escutado histórias de metaleiros que curtiam lamber uns ouvidos no Camping. Não existe nada mais doente e depravado do que acordar com um cara tentando encaixar uma língua no seu tímpano. Pro resto eu estava suficientemente preparado: ácido, mulheres correndo nuas, motoqueiros selvagens e cabeludos curtindo a onda de um chá de cogumelo
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Bernardo Biagioni
A galera se jogando. Literalmente.

Passava das 10h da manhã quando o telefone começou a gritar freneticamente. “A essa hora, ou é meu amigo Raul ou é a operadora de telefonia me fritando”, me lembro de ter pensado. “Porra, Bernardo! Você não vai à porra do Camping & Rock, não?” Não era a operadora.

Três galões de vinho Canção, duas vodkas, cinco camisas pretas (duas do ACDC), uma barraca azul e amarela, chapéus e botas. Tudo que cairia bem para quatro dias de festival no meio do mato, em Itabirito, Minas Gerais.

Confira galeria de fotos do Camping & Rock 2008

Chegamos por volta das 14h à Fazenda Chaparral, a cinco quilômetros do Centro da cidade. Centenas de barracas se erguiam no horizonte e descansavam suas sombras no gramado que outrora servira de pasto para vacas. Jovens loucos cruzavam o cenário carregando o álcool que os derrubaria horas mais tarde. A produção do evento arriscava um diálogo com o gerador emperrado e o som ficava por conta de um Uno 1.0 estacionado sob uma árvore envelhecida.

Armamos a barraca e saímos para um reconhecimento de terreno. Na volta, fomos surpreendidos por uma movimentação estranha em nossas instalações. Dois ‘hippies socialistas’ tinham invadido a barraca e estiravam seus colchões sobre nossas roupas. Entrei indignado gritando e, juro, não houve reação de espanto nos olhos deles: “Pô, se vocês não estão a fim de compartilhar a parada, numa boa, companheiro!” Jogaram as mochilas de volta ao dorso e seguiram na peregrinação.

Àquela altura, eu já estava mais louco que os Power Rangers, conversando e discutindo com os morcegos que cruzavam a atmosfera freneticamente. Encontrei um dos organizadores do evento num estado não muito diferente. João Monteiro caminhava tranqüilo, mas eu via em seus olhos que ele gozava de um estado de loucura transcendente: “Vamos sentar e trocar umas figurinhas”.

Bernardo Biagioni
Bernardo e seu amigo Ventania


João, que é proprietário da Purple Records, uma loja na Galeria do Rock, no Centro de BH, organiza o palavreado com uma voz mansa e calculada: “O Camping começou em 1996, na Serra do Cipó. A idéia foi minha e de um amigo, o Marcos. Ele veio pra mim: ‘Vamos fazer um som mecânico aqui, reunir uma galera...’. Isso há doze anos, não havia nada de camping, era meia dúzia de amigos reunidos”. A parada ficou pra valer em 97, como João lembra: “A gente começou a chamar bandas. Em poucas edições, já contávamos com grandes nomes, como o Drowned e a banda Diesel [hoje Udora]”. A partir de então foram só conquistas. O Camping & Rock chegou à 11ª edição em 2008 e se consagra como o maior festival do gênero no país, um verdadeiro Woodstock brasileiro.

Dezoito bandas se revezaram no palco da Fazenda Chaparral. Todas mineiras e independentes: “A idéia é dar espaço para os novos grupos que estão surgindo no cenário musical mineiro. Falta muito isso na grande mídia”, explica o segundo organizador do Camping, Magela Medeiros.

O fechamento veio com três caras bacanas lá de São Tomé das Letras. Eu não fazia nem idéia de como era o Ventania, por isso ficava atrás de qualquer maluco com aquele chapéu esquisito, só para conseguir uma foto. Falei com o Raul: “Vamos tirar uma foto com aquele hippie doidão ali? Fraga o estilão dele!”. Quem era? O Ventania subiu no palco, descolou umas baquetas pra mim, caminhou para um lado e soltou: “Zebu morreu, ele se fudeu, cogumelo é nosso!” A resposta veio em coro: “Sou maluco magrelo, de cabelo amarelo, gosto de cogumelos!”

Bernardo Biagioni
Vista parcial da área de camping


O frio que castigava os passantes parecia não afetar a serenidade do Magela. O cara subiu no palco cambaleando, sorriu pra alguém e lançou o grito: “Aê, moçada! Quero ver muita paz. Quero ver muito amor! Já vi umas camisinhas aê! Sexo seguro, isso aí!”

Camping & Rock, música boa e pessoas normais. Tamo junto!

Confira vídeo do evento