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Seção : ragga - Noticia - 17/03/2009 15:00

Confira entrevista com vocalista da banda Dead Fish

Por Lucas Oliveira

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Maurício Santana
Ele já cantou “anarquia corporation” e relembrou os tempos do regime militar em Modificar. Hoje, alguns anos mais experiente fazendo hardcore, Rodrigo Lima, vocalista da banda Dead Fish, reconhece as várias facetas do seu trabalho em 18 anos no meio musical e alerta para uma difícil realidade: “isso é uma guerra”; “somos nós contra todos”. O ano de 2009 mal começou e provavelmente o grande trabalho do hardcore nacional já estourou: Contra Todos. Pra quem pensava que os capixabas não teriam forças para um novo álbum, 14 explosivas canções colocam o dedo na ferida e apontam os erros provando justamente o contrário.

Nem a saída de integrantes e as polêmicas envolvendo a transação para a DeckDisc conseguiram calar Rodrigo, que hoje lidera um quarteto um pouco diferente. O sexto disco de estúdio do Dead Fish soa agressivo e rápido, deixando transparecer com clareza o novo momento da banda. O tom irônico e urgente permanece vivo e as novas A dialética, Subproduto e Armadilhas verbais alertam com convicção para um mundo decadente.

Apesar de proclamar sob um tom aparentemente ideológico, o vocalista alinha o futuro e reconhece, no trecho de Autonomia, a liberdade que sempre teve para se expressar: “disse que daqui pra frente seguiria só, não se prenderia a nada buscando algo melhor”. Renovado em musicalidade e certo de seus propósitos, Rodrigo Lima fala sobre o Dead Fish, os anos na cena independente e o futuro do rock nacional.

O Dead Fish é a maior força do hardcore nacional e uma das pouquíssimas bandas que ainda lutam por expressar em suas músicas os anseios da humanidade, seja por meio de críticas sociais ou mensagens subjetivas. Como é fazer parte de uma banda que carrega uma bagagem de 18 anos de estrada e ainda ter forças para prosseguir no trabalho, mesmo depois de tantas críticas marcadas pelo envolvimento com a DeckDisk?


Pra gente é normal, sempre estivemos centrados em fazer o que gostamos independente do que digam ou façam, isso vem de nosso começo ainda em Vitória. Sempre soubemos que nada seria fácil se escolhêssemos a música e está sendo assim desde então, mas somos sujeitos melhores se formos olhar pra trás. É isso que nos instiga a ainda estar aqui; conhecer lugares, pessoas e realidades que não conseguiríamos sem estarmos envolvidos com a música.

Maurício Santana


Apesar de ainda bastante recente, até que ponto a saída do Nô (um dos fundadores do Dead Fish) pode afetar o futuro da banda? Outros músicos já deixaram o grupo, mas como foi tomar essa decisão?

Foi a decisão mais difícil da banda em 18 anos. Foi como terminar um casamento de 22 anos pra mim, ainda sinto um certo incômodo em não tê-lo na banda. Ele era um filtro e tanto pra um monte de coisas. Mas como diz o Alyand, uma vez na vida tomamos uma decisão que não pela banda e sim por nós indivíduos. A relação estava muito desgastada e isso já afetava tudo internamente, fizemos a opção de mantermos um mínimo de carinho e respeito um pelo outro.

O novo álbum Contra Todos é explosivo, direto e rápido. Faz jus às composições de Sonho Médio e relembra a brutalidade de Zero e Um. Como você define o novo trabalho dentro dos parâmetros que a banda vive hoje? É um pouco de tudo o que o Dead Fish já passou e serve como recado para algumas pessoas?

Basicamente isso, nossa história cotidiana aqui em São Paulo e tudo o que vivemos em 18 anos. Procuramos ser o mais espontâneos possível e sinceramente acho que conseguimos chegar a 90% do que queríamos.

Suas atitudes são coerentes com o seu trabalho e a sua música. Que tipo de problemas isso já te trouxe, já que foram 13 anos no independente, muitas propostas recusadas e várias acusações por conta do contrato com a gravadora?

Não me lembro de ter sido tão acusado assim de estar numa gravadora, o que rolou foi o de sempre: o zé povinho frustrado falando pelos cotovelos; só isso. Isso acontece muito aqui e se qualquer pessoa se incomodar é pior pra ela mesma. Portanto seguimos do jeito que nos foi posto. 2003 Era um tempo de fim de banda, mas aconteceu outra oportunidade de fazer "diferente" e fomos, sem ficar esperando elogios do entorno.

Em 13 anos de independente aprendemos muito na estrada, muito mais do que no colégio, dentro de casa ou num trabalho. Esta foi uma base boa pra fazermos outras coisas que queríamos como o selo e depois assinar com a Deck. No fim das contas o ser humano é bem parecido onde quer que ele se encontre.

Maurício Santana


Você é um cara que fala o que pensa e suas letras refletem muitos de seus pensamentos. O Dead Fish já teve a ousadia de relembrar o regime militar, criticar a opressão às mulheres negras e abordar polêmicas que envolvem o meio ambiente e as guerras (principalmente de interesses) do mundo contemporâneo. Qual a importância de uma figura pública usar o seu espaço para promover questionamentos e alertar para questões que envolvem o bem coletivo?

Eu falo o que me ocorre, não forço nada pra escrever apenas escrevo. Não costumo me levar muito a sério, mesmo tendo escrito o que escrevi em 18 anos, isso me ajuda a ter liberdade pra escrever o que quiser, quando quiser, eu gosto disso, acho que poucas pessoas se permitem.

Cara, estamos num mundo de merda que nego come lixo e arrota perfume, então eu acho necessário sempre ter gente dizendo o que se passa mesmo as pessoas individualmente sentindo todo dia a merda se aproximando. Sinceramente gostaria que o mundo tivesse mais bandas engajadas e os movimentos sociais fossem muito mais massificados do que são hoje, temos pouco tempo pra desperdiçar sendo escravos ou ricos dissimulados.

Maurício Santana


O rock nacional está em crise e a cena independente parece também não ser mais a mesma. O que você pensa sobre o underground e o futuro dos jovens que crescem ouvindo música de simples entretenimento, sem mensagens que os levem a pensar sobre o nosso futuro?


Não costumo julgar os garotos, acho que devemos primeiro achar o que aconteceu num cenário que levou vinte ou vinte cinco ano pra conseguir qualquer coisa de palpável.

Claro que consumir é muito mais fácil do que pensar em algo ou fazer algo diferente, mas não se pode jogar a culpa em cima dos garotos, nem sempre é inteligente, é jogar uma geração inteira em cima de uma elite que só vende produto. Acredito que boa parte desta geração esta interessada em música e isso é bom, acredito que o tempo vá passar e provavelmente as coisas não vão acontecer como os velhos querem, é o caminho deles e não existem caminhos certos.

Assista a vídeo da banda