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Seção : ragga - Noticia - 24/03/2009 16:44
Confira cobertura da Ragga do show do Radiohead em SP 
Bernardo Biagioni - Ragga
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Confira galeria de fotos do RadioheadTodos nós sabemos que uma linguiça malpassada pode provocar danos corporais ainda mais alucinantes que dosagens exacerbadas de álcool. Um amigo ainda não tinha garantido seu ingresso para o Just a Fest, o festival do Los Hermanos, Kraftwerk e Radiohead, e tentava negociar com um cambista pouco esperto. Acabou desembolsando R$170 na inteira, R$30 a menos que os fãs desesperados que compraram ha quatro meses atrás. Como eu. Los Hermanos Vencemos, por fim, o morro colossal que se erguia na entrada da Chácara do Jóquei e disparamos em direção ao som que vinha de algum lugar por dentre as folhagens. "Olha só, que cara estranho que chegou...", os primeiros versos nítidos de Marcelo Camelo me deixaram imensamente emocionado. Empurrei um gordinho com a camisa do Iron Maiden e consegui quebrar alguns elos da corrente hermânica que se estendia até 50m além do enorme palco montado sobre a grama. Os fãs xiitas e sunitas do grupo não demoraram a disparar olhares fulminantes para os 'estranhos' que penetravam pela multidão valendo-se de esforço físico. Sorrimos largamente e falamos que o dia estava lindo. Não é difícil ficar amigo de um fanático hermânico.
Confira galeria de fotos da banda Los HermanosAté que chegou um ponto que não dava mais. Dali em diante era "Babilônia". Os barbudos extremistas não mediriam esforços para torcer nosso rim e fazer cada gota de sangue jorrar pelo gramado supra-pisoteado. Ainda estávamos longe do microfone e uma equipe inteira de basquete parecia ter desembarcado por ali ao acaso. Para ver alguma coisa, "só de cavalinho", segundo uma baixinha que cantava as músicas como se não houvesse amanhã. Ainda assim, deu para ouvirmos felizes “Último romance”, “Sentimental” e “A Flor”, todas em clima de "Ei Brasil, estamos de volta". A recepção do público foi linda.
Kraftwerk O segurança em serviço Eduardo Silva, de 42 anos, não via a hora de chegar em casa. Estático em sua curvatura que pendia nos 2m e meio de altura, o vigilante não escondia o desespero que rasgava os aprendizados severamente engolidos pela cultura cristã que recebera na infância. Até aquela noite, Eduardo já imaginava ter visto de tudo, “desde cavalo sendo atropelado até uma idosa chefiando o narcotráfico”, disse, respirando em descompasso. Mas logo ali na sua frente estava algo particularmente novo. “Essas mais de 30mil pessoas estão batendo palmas para uns...robôs?!”, notificou, seriamente abalado. Eduardo cresceu ouvindo Raul Seixas em um radinho de pilha herdado da mãe. Sempre gostou das músicas que eram escritas pelo mago Paulo Coelho, “dono dos melhores livros que já li”, contou. Descobriu a música eletrônica quando trabalhou como manobrista em uma boate “estranha” da zona sul paulistana e desde então começou a pensar que o fim estava próximo. E talvez agora ele esteja satisfeito com sua previsão. Os quatro componentes do Kraftwerk subiram no palco em silêncio e fizeram uma apresentação sem muita interação com os milhares de corpos que se agitavam no gramado. Apesar disso, os grandes cientistas e revolucionários da música mundial, foram euforicamente aplaudidos pelos clássicos mixados: “Tour de France”, “Autobahn” e “Radioactivity”. As batidas vinham acompanhadas de imagens incríveis projetadas em telões espelhados pela estrutura do palco. Até então a expressão facial do segurança Eduardo permanecia impassível. Mas quando os alemães deixaram o palco para dar lugar a quatro robôs meticulosamente construídos, o vigilante pensou que já era hora de procurar outro serviço.
Radiohead O dia em que São Paulo parou A ansiedade coletiva era tamanha que a densidade do ar comprimia as cordas vocais dos tantos apaixonados que conseguiram se ajeitar perto da grade de contenção. O silêncio imposto era cortado vez ou outra pelos anúncios singelos e nada audíveis dos vendedores de água e capa de chuva. As nuvens já se desacertavam no céu e os preços das peças plásticas já despencavam de R$15 para R$3. “É a crise”, disse algum bêbado suficientemente alegre para gargalhar da própria observação. Sem atrasar meio minuto, Thom Yorke surgiu da lateral esquerda do palco sem muita pressa e sorriu para o John, que caminhava ao seu lado enquanto tentava envolver a alça da guitarra pelo pescoço. “15 Step” não demorou a explodir pelas enormes caixas de som dispostas por todos os lados da Chácara do Jóquei – Ninguém, em nenhum lugar, poderia escapar da catarse iminente que teria início logo mais. As lágrimas de uma garota se confundiram com uma gota de chuva e o vendedor das capas quase terminou o sorriso que armou timidamente.
“Obrigado”, disse o vocalista incerto de sua pronuncia. A resposta da platéia lhe deu segurança o bastante para começar a próxima música, “There There”, igualmente ovacionada. Qualquer coisa que Thom fizesse renderia suspiros enamorados dos rostinhos que balançavam ao toque de cada dedilhado britânico. Mas o sujeito merece demais o seu reconhecimento e não há quem discorde. Desde Ian Curtis que não se vê um vocalista com uma performance tão convincente e alucinante. Thom Yorke dança, corre, agoniza, sorri, vai e volta pelo palco por uma dúzia de vezes em cada verso. A iluminação do palco assustava até mesmo quem esteve no Iron Maiden na semana anterior. Luzes coloridas eram projetadas em grandes bastões brancos que desciam pelo teto do palco, uma sensação lisérgica de movimento atracava os olhares atentos que não se desviavam da atração principal do festival. A banda seguia em “All I need”, “Karma Police” e “Idioteque”. Não conseguiram ir embora até que fizessem três bis e tocassem a tão aguardada “Creep”, de 1993.
O silêncio de antes não demorou a ser substituído por manifestações de êxtase. Um sorriso único e puro corria pelos mais de 30mil rostos cansados que ainda dividiam o mesmo espaço. Era pouco mais de 1hr da madrugada, talvez a chuva viria agora e as dores corporais começavam a fazer efeito. Os últimos versos de Thom Yorke ainda ecoavam pela enorme fila que se formava na saída: “What the hell i’m doing here. I don’t belong here”. Mentira. Traduzindo para o português e com o perdão do clichê: o Radiohead estava em casa.
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