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Seção : ragga - Noticia - 21/04/2009 06:20
Confira entrevista com Jair Rodrigues, o pai do rap
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Sabe o que Tupac Shakur, Herbert Vianna e Clara Nunes têm em comum?
A resposta é: Jair Rodrigues Se Tupac um dia cantou rap mexendo as mãos na frente do corpo, é porque alguém fez isso primeiro no mundo. Esse alguém é Jair Rodrigues, com a música ‘Deixa isso pra lá’. Quem avisou ao Jair que isso era rap foi o Herbert Vianna, a caminho do festival de música mais tradicional do mundo, o Montreux.
Ex-namorado de Clara Nunes, mas há muito tempo bem casado com Clodine, o pai de Jair de Oliveira e Luciana Mello recebeu a Ragga na varanda de sua casa em Cotia, São Paulo, para uma entrevista exclusiva. Referindo-se a si próprio sempre na primeira pessoa do plural, esse gigante da música brasileira tem muito pra contar. Ao nos receber, ele já chegou dizendo que veio da aula de computação. A Ragga quis logo saber: “Então, você já tá no Orkut?” Nada. Tô na sexta aula, fazendo digitação ainda. Aprendendo tudo desde o início. Infelizmente, tudo hoje é por computador e internet, né? Você sempre fala a sua idade para as pessoas? Claro! Eu sou aquariano, nascido em 6 de fevereiro de 1939, portanto tenho 69 anos. E ainda conto mais: sou igarapavense. Minha cidade natal é uma cidade paulista ao lado de Uberaba, em Minas Gerais. Eu sou tudo isso. É chato ficarem sempre perguntando se você é o precursor do rap no Brasil, com ‘Deixa isso pra lá’? Não. Me deixa muito lisonjeado. Em 1989, eu estava no festival de Montreux. Iam também os Paralamas do Sucesso e outros artistas brasileiros. Quando a gente saiu do avião e entrou no ônibus, o Herbert Vianna sentou-se ao meu lado e falou que o pessoal estava fazendo uma espécie de pesquisa pra saber de onde havia nascido o rap. Aí eles chegaram à conclusão de que foi minha música que deu essa inspiração. Aliás, minha música não, porque eu sou só o intérprete do ‘Deixa isso pra lá’. Então o Herbert me disse: ‘Parabéns, você é o pai do rap’. E eu falei: ‘Pai do rap? Eu sou pai do Jairzinho e da Luciana, o que é isso?’ (risos). Aí eles me explicaram. E o que é o rap? É uma mistura de tudo. E tem a forma de falar, porque, em vez de cantar em cima do ritmo, o ritmo está aí e a gente fala em cima. Então, em 1964, quando eu gravei essa música, não tinha esse estilo em nenhum lugar do mundo. Acredito que o primeiro rap aconteceu aqui no Brasil. E a parceria com o Rappin Hood? Quando eu estava gravando meu disco ‘Intérprete’, o Jairzinho foi produzir pra mim e falou: ‘Pai, o senhor gravou o ‘Deixa isso pra lá’ em 64, mas em 65 o senhor gravou esse ‘Zigue-zague’. Vamos fazer dele um segundo rap?’. Aí eu fiz. O próprio Jairzinho participou e chamou o Wilson Simoninha e o Rappin Hood. Quando o Júnior (Rappin Hood) veio gravar, ele falou: ‘Estou fazendo uma coisa meio escondida aí pra mostrar a você, se você gostar, será que pode participar desse meu novo disco?’ Quando ele me chamou pra ouvir, era o ‘Disparada’, em que ele fez um pedaço meio rap. Aí eles me ensinaram, porque eu não estou por dentro da divisão do rap ainda. Ela (a divisão) é toda folgada, dá até a impressão de que o cara está falando fora do ritmo. Foi uma coisa muito bárbara. Vendeu disco adoidado.
E o que você ouve hoje? Tem rap na lista? Eu gosto muito do Marcelo D2 e do Charlie Brown Jr. Mas eu não escuto, porque não dá tempo. Ouço uma vez ou outra, ou quando vou à casa do Jairzinho, da Luciana, aí eles tocam sempre. Quando a gente tem um tempinho pra ouvir as coisas, a gente usa pra dormir. É um trabalho extenso, dia e noite, então eu tiro aquelas horinhas pra dar um descanso... Entrar pra fazer um show ou uma gravação cansado não faz o meu feitio. Você consegue listar as cinco músicas que mais ama? Consigo! ‘Carinhoso’. Gosto muito da ‘Rosa’, também me dá, assim, uma saudade imensa, uma coisa maravilhosa acontece dentro de mim, quando eu estou ouvindo ‘Disparada’, música com a qual eu venci o Festival de 1966 (o Festival de Música Popular da TV Record). O ‘Arrastão’... Grande Elis Regina! Se eu fosse dizer todas as músicas aqui, a gente ficaria o dia inteiro... Eu acho que clássico é clássico. Como você viu a história da indústria fonográfica da rádio ao vivo até o CD? Ah, hoje eu sinto uma falta danada. A falta de execução ao vivo no rádio, falta de musicais na TV, de mais música ao vivo nas boates, nos bares, nos domingos na rua, nas livrarias... De repente você não vê mais isso, então tira espaço desse pessoal que está no começo da carreira, querendo mostrar o trabalho. Eu sinto falta de tudo isso e nem é por minha causa, é mais por causa dos outros. O pessoal diz: ‘Já não se faz música boa como antigamente’. É claro que se faz. Está cheio aí, só falta mostrar. E aí, Jair Rodrigues, já pegou a Hebe e a Elis? Ah, aquele beijo na testa é normal. Acho que a única namorada que eu tive, já faz muito tempo, quando eu era solteiro, foi a Clara Nunes. Acho que ela veio fazer um programa na TV Record e eu estava lá participando. A gente se conheceu e começou o namoro. Depois ela começou a acontecer e a gente ficou bons amigos. Eu sempre fui muito bem orientado e até o meu empresário, Venâncio, via Jair e Elis juntos na televisão e ficava desconfiado: ‘Meu filho, você está tendo alguma coisa com Elis, além da amizade? Porque já me perguntaram isso, então eu estou perguntado a você’. E eu disse: ‘Não, nós somos amigos dentro e fora do palco. É uma irmandade’. E isso com todas elas. Era uma amizade muito grande e a gente se beijava, mas com muito carinho, amor e respeito. Você está lá na Trama, que é do filho da Elis, já falou do Simoninha e até de seus próprios filhos... Você acha que filho de peixe, peixinho é? Pra você ver: meus dois filhos, o Jair de Oliveira e a Luciana Mello, são dois meninos pra quem Deus deu esse dom de estar na mesma profissão que eu. A gente agradece a tudo isso. Eu nem cheguei a pedir a Deus, porque antes ele já me deu. Quando nasce um filho e não exerce a mesma profissão, principalmente essa de músico, você às vezes nem viu nascer. Quando a esposa vai pro hospital, você está viajando, trabalhando... Você viu os seus nascerem? Vi! E, quando eles estavam na fase de começar a andar e falar papai e mamãe, eu acompanhei mais de perto, mas a faz tudo mesmo, aqui, é a Clodine, minha mulher. Mas a primeira vez que o Jairzinho gravou, ele tinha quatro anos. Eu estava no estúdio gravando uma música chamada ‘Deus Salvador’, acho que em 1982, uma coisa assim. A Luciana também tinha quatro anos e gravou também, uma música chamada ‘O filho do seu menino’. Então eu vi tudo. Estou agradecendo a Deus por ter essa família aqui. Quantas vezes fui levá-los à escola e, de repente, a gente ia a uma sorveteria ou a uma pamonharia, porque o Jairzinho adorava uma pamonha (risos) e a Luciana um sorvetinho. Aquelas coisas de criança, né?
É verdade que você cozinha? Eu aprendi muito cedo. Com uns nove anos eu já sabia cozinhar um arrozinho com feijão, fritar um ovo, uma carne... Depois aprendi a fazer umas coisas mais pesadas, tipo mocotó, rabada, dobradinha, essas coisas que eu gosto... Dobradinha? Dá muito trabalho? Não... Pega o famoso bucho, corta, pega o paio, a lingüiça, põe lá, aí pega o feijão branco, cozinha tudo separado e dá umas ferventadas no bucho. Umas cinco vezes ou mais porque, senão, fica aquele cheiro de ‘nhaca’ (risos). Mas o negócio principal que deixa você feliz é acertar no tempero. E eu gosto muito da pimenta. Mas é assim: sal, salsinha e cebolinha. Hoje é muito mais fácil, porque você pega aqueles caldos de carne, caldo de galinha e já tem o tempero feito. Você costura também? Aprendi quando tinha meus oito, nove anos de idade. Minha mãe, na preocupação de que a gente pudesse um dia vir pra cidade grande e não trabalhar eternamente na roça, resolveu que deveríamos aprender uma profissão. Me botou na alfaiataria pra aprender. Uns três meses depois, já estava eu lá costurando as calças. Depois minha mãe comprou uma máquina de costura e eu fiquei costurando em casa, porque na alfaiataria eles não queriam ter um empregado. Mas costurava calça. Já fiz várias pra mim. Não agora. Tem tempo, pra mais de 30 anos, que eu não costuro. Hoje, eu prego um botão ou, se eu compro uma calça com uma barra comprida, vou e ajeito. Tenho minhas linhas, minhas agulhas, meus dedais até hoje. Sempre levo comigo quando viajo. Você cozinha, costura, apresentou o primeiro programa famoso de música da TV, venceu vários festivais e foi o primeiro a gravar um rap. É a vanguarda em pessoa! O que mais a gente pode esperar? Eu estou lançando meu disco de número 46, com produção do Quinteto em Branco e Preto, cinco rapazes maravilhosos que tocam, cantam e produzem. Em homenagem a eles, eu coloquei o nome do disco de ‘Jair Rodrigues em Branco e Preto’. Jair Rodrigues em Branco e Preto? Que ironia, já que você inaugurou a TV em cores na Europa, né? Foi! Fiz show pra inaugurar na Alemanha, na Suíça, na Suécia, em vários países...
Você já teve vontade de sair do Brasil alguma vez? (Gargalhando) De jeito nenhum! Este país aqui ó... Nós temos muita esperança e a esperança em mim nunca vai morrer. Já viajei quase o mundo inteiro. Vai viver lá fora... Você que quer muita coisa, inclusive posse, vai viver fora deste país pra ver o que é bom pra tosse (risos). Eu fiz rap aí, mas ainda não completei, né? Lá fora, as pessoas dizem: ‘E aí, como está o Brasil?’ Eu digo que o Brasil está lindo, está maravilhoso, como sempre foi. Eu acredito muito que Deus é brasileiro. Só que ele também não pode acabar com essa roubalheira e esse caos que querem fazer do Brasil. Mas ainda tem jeito e muito. É só uma pena que é tão mal dividido. Muitos têm nada e poucos têm muito. Mas eu ainda creio que vai ter alguém pra dar uma melhorada nisso. Você pensou que o Lula era esse alguém? Não é que eu pensei, mas a gente sempre acredita. O brasileiro é bom porque tem muita fé e muita esperança. Só que o próprio povo fica nessas de chiar, mas aceitar. Agora, nem chiando está mais. Você pode ver que os artistas dos anos 60, Geraldo Vandré, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, estavam escrevendo coisas, protestando... Mas eles estavam fazendo aquilo contando com o quê? Com que o povo se unisse a eles pra irem lá e tentar resolver, né? Mas não, o povo não chiou. Deixou pra lá e esses artistas todos foram mandados pra fora do país, foram expulsos. Falemos então de ‘Disparada’, interpretada por você, vencedora do festival em 1966. Você estava lá pra cantar uma música ou uma idéia? Sinceramente, eu estava lá pra cantar uma música. Nessa época da ditadura o pessoal nunca mexeu comigo. Acho que eu fui o único artista que pôde cantar quase todas as músicas de protesto, porque eu trago de uma maneira diferente. ‘Disparada’, que é, talvez, a música de maior protesto, quando eu canto tem aquela leveza. E é uma música do sertão nordestino sofrido. Acho que eu nasci pra fazer o que eu faço. E não pra mexerem comigo (risos). Às vezes os amigos faziam a lista de participantes das reuniões na ditadura e nunca teve meu nome. Os caras nem me convidavam (risos). Acho que eles pensavam: ‘Jair Rodrigues vai lá pra fazer bagunça, nem convida esse diabo aí’ (risos). Do que você gosta mais na sua carreira: do que já foi ou do que vai ser? Eu gosto é do meu dia-a-dia. Eu ainda penso em fazer shows e registrar o trabalho lá fora. Ainda hoje, as músicas mais tocadas e valorizadas que Jair Rodrigues lançou estão lá fora. E de tantos outros artistas brasileiros também. A música brasileira mais conhecida lá fora, acho que a primeira de todas é ‘Aquarela do Brasil’, feita pelo saudoso Ary Barroso ainda no começo dos anos 30. E como é o público fora do Brasil? Ah, eles nos tratam bem, cantam ‘Garota de Ipanema’, tudo quanto é samba, todo mundo canta. Eles não aprendem a letra, mas cantam a melodia. É um público que basta você chegar e falar algumas palavras, o trivial: ‘Como vai, boa noite, cantem comigo’. Eu tenho uns vizinhos aqui que sabem árabe e outro dia eu pedi que me ensinassem um trivial pra puxar um papo lá nos Emirados Árabes, na hora de cantar. E foi isso que eu fiz: um agrado. Mas claro que eu estava lendo (risos). E você nunca falou nada errado? Ah... Se falei, só eles perceberam! (risos) Quando o Bruno, nosso fotógrafo, pediu que ele tirasse uma foto com pose de preguiça, o cara falou: ‘Eu? Depois eu vou parecer folgado... Sabe que um dia entrou um pessoal do mal aqui em casa? Eles entraram, pegaram a empregada e a puseram no banheiro, aí levaram três pares de tênis meus e uns ternos. Foram na geladeira e levaram uns camarões grandões que eu tinha comprado e beberem a Coca-cola inteira! (risos) Aí viram uma caricatura minha aqui no quadro e perguntaram pra empregada: ‘Quem é aquele negão ali?’. Ela falou: ‘Esse é o dono da casa’. E eles: ‘Pô, que negão folgado, hein?’. Os caras vêm, bebem minha Coca, roubam minha casa e o folgado sou eu? (risos). Essa foi a última das muitas histórias que Jair Rodrigues tem para contar. Para saber tudo, precisaríamos de mais do que humildes 60 minutos. Muito mais. E, se ele não tivesse outros compromissos, com certeza ficaria com a gente, feliz da vida, o quanto pudesse.
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