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Divirta-se

Seção : ragga - Noticia - 29/04/2009 06:20

Confira sessão On The Road em São Tomé das Letras


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Bernardo Biagioni


“Saí de caminhada pelas estradas, caminhando a pé. Pedindo carona, violão ‘na costa’, eu vim pra São Tomé.”

Chegamos em São Tomé das Letras às dez da noite e o circo já estava pegando fogo. O Bar do Dois disputava o volume do som com o estabelecimento ao lado. Enquanto os alto-falantes do primeiro explodiam um cover de Planet Hemp, o vizinho tentava se manter à altura com a voz rouca do interplanetário Ventania. E ainda dava para ouvir a música que vinha lá do Centro de Convenções, logo na entrada da cidade. Estava rolando um festival de reggae no ginásio. O som era tão alto que ninguém tinha dúvidas de que eles estavam tentando convocar Jah para a festa. Ou ETs. É, eles também estavam arriscando uma comunicação com seres alienígenas aterrorizantes. De qualquer maneira, se você ficasse no meio de toda aquela confusão, só iria escutar uma única coisa: FODA-SE. Foda-se a música, foda-se o frio e foda-se a polícia. Vamos ouvir reggae desenfreadamente e curtir a onda de cogumelos até a noite atravessar o dia.

  Escute música de Ventania



Bernardo Biagioni


Fomos recepcionados na pousada por uma linda hippie vestida de sereia. A menina transparecia uma certa energia cósmica que exalava amor livre por cada poro de seu corpo. Seu vestido colorido esvoaçante dançava na varanda da casa de pedras e ela sorria como se todos os problemas do mundo pudessem ser resolvidos em um toque de varinha mágica. Eu tentei convencê-la a ir ao show do Ventania logo mais tarde, mas ela se esquivava em gestos “oblíquos e dissimulados”. Não percebi, é claro, mas o pai dela – dono da pousada – estava atrás de mim, estudando meus movimentos e ponderando os versos da filha. Mas, no final das contas, ele sorriu e exclamou baixinho um Foda-se. É, que se foda, mesmo. A vingança do proprietário veio logo em seguida quando nos mostrou o quarto em que ficaríamos hospedados. O cômodo era tão úmido que tínhamos certeza de que, em alguma hora da noite, alguns cogumelos brotariam da parede. A vida é dura.

Bernardo Biagioni


Logo quando a madrugada lançou seu orvalho sobre as árvores e carros estacionados na rua, a loucura se instalou de vez. Em São Tomé das Letras, nunca se assuste com os gritos que podem vir das casas, florestas e ruelas desertas. Possivelmente, alguém acabou de ver um disco voador ou está tentando se manter longe dos morcegos que mergulham no ar loucamente. Também não é estranho ver alguns corpos agonizando nas calçadas e praças públicas. São hippies, viajantes e entusiastas dos cogumelos que atravessam todo o país para sorver dos fungos mais alucinantes de Minas Gerais. Nesse caso, não se preocupe: em algumas horas, aquele mesmo sujeito que se revirava em uma viagem errada estará de pé, vendendo seu artesanato para os turistas normais que desembarcam por ali em busca do tão proclamado misticismo mineiro.

Bernardo Biagioni


Conforme ficamos sabendo por uma hippie local, a onda de turismo em São Tomé explodiu mesmo no começo dos anos 1990. Embora a aura mística da cidade já tivesse se consagrado muitos anos antes, foi só por aqueles idos que o roteiro se popularizou por todo o Brasil O incentivo fiscal da prefeitura e a possibilidade de enriquecimento com o turismo emergente provocou um crescimento desordenado tanto da população quanto das construções. Quem caminha hoje pelo município, encontra vestígios do que era São Tomé há trinta anos: uma vila erguida toda em pedras de quartzo e circundada por abundantes montanhas inexploradas. Um verdadeiro paraíso perdido a 1.444m de altura, a quarta civilização mais Alta do país.

Bernardo Biagioni


Hoje São Tomé das Letras é isso: o Templo do Foda-se. Não importa qual música está tocando, que horas são e que dia iremos embora. Ninguém se surpreende quando um maluco sai de casa carregando uma espada no dorso – a sensação que fica é de que todo mundo já teve seu “dia de guerreiro”. Também não importa se você é rico, pobre, hippie, negro, branco ou playboy. Por aquelas bandas, todo mundo é igual perante Jah e as forças do cosmos é que tracionam o movimento do Universo. Acredite em seres extraordinários e confie em qualquer pessoa que cruzar o seu caminho – Amizade e Tranquilidade são palavras de ordem. Tenha certeza de que os seus medos e anseios serão resolvidos quando o sol se anunciar por entre as colinas. Em São Tomé das Letras ainda existe uma palavrinha que não se lê mais por aí: liberdade. Sim, liberdade, de verdade.

Bernardo Biagioni