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Seção : ragga - Noticia - 04/06/2009 14:38
Confira sessão On The Road em Trindade, a terra do reggae
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Os negócios de Eduardo Siqueira estão indo bem. Acabou de fechar a conta de mais uma mesa, calcula que deve receber cerca de R$100, e agora se prepara para enrolar um grosso baseado. Não usa mais os dreadlocks desde 1992, quando acabou se integrando ao sistema. Tinha naquela época 32 anos e ainda acreditava que a paz e o amor resolveriam os problemas do mundo. “Eu era um hippie fodido”, conta, mas sem se arrepender de ter ouvido as palavras de Bob Marley como se fizessem parte de um sermão milagroso. O progresso da vila lhe pegou de surpresa e o obrigou a mudar de vida. Virou capitalista ouvindo Kurt Cobain estatelar as cordas vocais pelo rádio e nem percebeu. Hoje ele fuma três cigarros de erva por dia e se considera feliz. Confira galeria de fotos de TrindadeNos anos de 1970, Trindade era um cartão postal bastante interessante. Localizada a menos de 30km de Paraty, no Rio de Janeiro, a então vila de pescadores começou a ser invadida pelos mais diferentes tipos. Primeiro foram os hippies, todos atrasados no falso positivismo da década anterior. Trindade parecia um bom lugar para se caminhar pelado e vender artesanato. Em seguida, vieram os grandes empresários, encantados com a possibilidade de explorar a Mata Atlântica intocada da região. Invadiram a vila escoltados por capangas e tentaram arrastar os nativos fazendo cara feia. Ninguém se mexeu, nem os hippies, nem os pescadores. Nos anos seguintes, já em 1980, enquanto o Brasil importava a disco music para suas discotecas, Trindade viu-se ameaçada mais uma vez. A turma do reggae começava a descer a Serra do Mar. Essa noite eu sonhei com o rei... “Putaqueopariu, que música é essa”, exclamei baixinho com medo de atropelar as guitarras havaianas que corriam pelos alto-falantes estacionados na areia da Praia do Meio. Senti meu corpo responder às ondas sonoras e tentei desfazer aquela minha dança tosca me agarrando a um guarda-sol. Estava sendo dominado pelo reggae. “Controle-se”, disse, pela terceira vez, e pensei em todas as vezes que neguei o rastafári que existia em mim. Aquela era minha segunda manhã em território fluminense, centenas de biquínis desfilavam pela praia, e eu só queria saber de onde vinha aquela música. Jah estava me convocando.
Eduardo Siqueira, dono de um barzinho e das caixas de som, riu do meu desespero. “Calma, mineiro. Muita calma. Deixa eu só atender a mesa ali e já lhe mostro o CD.” Eu teria socado aquele rosto impassível, não fosse o poder do reggae regendo o movimento dos meus braços. O ex-hippie correu atrás do balcão, esticou a mão direita na estante estirada sobre a geladeira e alcançou o disco. “Davi Detrinda, meu amigo. É um moleque aqui da vila”, contou. Desembolsei os R$ 10 solicitados e abracei o CD. A música tinha acabado e eu começava a ficar com vergonha das minhas últimas reações. “Você quer ouvir reggae de verdade? Então, precisa conhecer a Praia do Sono”, indicou Eduardo, dobrando a minha nota de dez para caber no bolso. ...Fui privilegiado pelo Marley Trindade começou a definhar quando veio o progresso. (Isso parece um verso de reggae, mas faz parte da reportagem.) Até alguns anos atrás, o único acesso à vila era feito por uma estrada de terra bem precária. O asfalto trouxe consigo o turismo, a energia elétrica e a proliferação das construções. O que sobrou dos anos 1970 fica a menos de 15km dali. Naquela tarde, não se ouvia mais do que a natureza nos arredores da Praia do Sono. Eu tinha passado as últimas duas horas enfrentando uma trilha tortuosa e esperava, no mínimo, encontrar uma dúzia de rastafáris jogando um futebol de frente para o mar. Em vez disso, acabei sentando para tomar uma com o Juvenal, um comerciante de cinquenta e poucos anos que nega morar na “próxima capital do reggae”, conforme andam dizendo por aí. “Aqui na Praia do Sono não tem nem energia elétrica. Como é que poderia ser a capital de alguma coisa?”, a constatação do caiçara me fez lamentar. Eu tinha entendido o reggae, agora queria um lugar para me sentir livre.
“Fica tranquilo, meu amigo”, Juvenal parecia agora um grande xamã prestes a receitar um remédio sacro. “Vou escrever aqui neste papel o nome da próxima cidade que você deve ir.”Tomou um lápis por entre os dedos e rabiscou alguma coisa em um guardanapo. Parecia um mapa. “Chegando lá, procura o Marley”, disse, enigmático, enquanto se desfazia de sua vestimenta. Olhou pela última vez nos meus olhos, entrou correndo no mar e saiu nadando. Ele disse Marley? Assista a vídeo de Trindade |
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