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Seção : ragga - Noticia - 22/07/2009 09:13
Confira sessão On The Road na Rua Guaicurus, em BH
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Agora são algo em torno de 3h da madrugada. O silêncio é reconfortante, todas as entranhas da cidade estão, enfim, estiradas para o descanso. Dormem os velhos, os novos, os músicos e dormem os taxistas, essa legião selvagem que perambula pelas veias asfaltadas dos centros imundos e mal iluminados. Escrevo do 21º andar de um prédio de azulejos brancos e pequenos, estão todos descascando e perdendo o brilho. Pela janela correm os últimos carros do fim de semana. Aceleram, correm e vão. Vão para onde devem ir. Puxo na prateleira uma caixinha de CD, rodo o disco entre os dedos e preparo a televisão. Calculo o volume, apago as luzes sem parcimônia e deito na cama. Estou pronto para um pornô. A recomendação foi de um amigo: "Chegando em casa, assista a um filme bem sacana, cara!" Ele estava visivelmente preocupado com o deadline desta minha reportagem. Na verdade, sempre me interessei muito pela ”história” dos filmes pornôs. Grandes loiras nuas vestidas de salva-vidas em lojas de departamento abandonadas depois de uma terceira Guerra Mundial. Elas socorrem um sargento no vestiário, começam com uma respiração boca-a-boca e aí não param mais. Muito "eletrizante", digamos. Eu precisava de inspiração e talvez essas aventuras pudessem ajudar. Hoje acordei às duas horas da tarde e liguei para o fotógrafo Bruno Senna ainda na cama. "Vamos lá na Guaicurus?" Minha pauta era sobre os "corredores do sexo" clandestinos de Belo Horizonte, velhos prédios apagados e criminalmente preocupantes que avançam sobre o céu do shopping Oiapoque, no Centro da cidade. Não vou falar se ele se entusiasmou ou não, porque isso pode ferir sua dignidade. (Animou na hora.) Nos encontramos na Savassi e partimos para o coração do sexo. Qualquer mineiro que tenha passado pelo submundo da capital sabe muito bem que ali o pau quebra. Literalmente. Jesus teria dito: é a Babilônia.
Mas quem nos atendeu em um dos estabelecimentos não foi Jesus. Rogério Santiago, cujo sobrenome inventei agora, contava notas de cinquenta reais com as duas mãos trabalhando em perfeita sincronia. "Estamos passando por algumas reformas no prédio e as luzes ainda não foram acesas. Aqui já dá problema iluminado. Sem luz então...", soltou, como um filósofo imaculado por uma sabedoria grega, nômade e tropical. Disse que poderíamos fazer as fotos, "desde que as meninas aceitem", e apertou algumas de nossas mãos com firmeza. Rogério é gerente da Pensão, uma das construções mais visitadas da Guaicurus, e ganha a vida alugando pequenos quartos para "moças de família". Cada garota organiza o seu próprio quadrado. Uma cama, uma prateleira, um rolo de papel higiênico e um som tímido e dissonante. Escutam funk, "mexem a cadeira", arriscam caretas de cachorra e se lambem carinhosamente. "Quero gozar", gritam as mais afoitas e indelicadas. O fotógrafo Bruno Senna tenta negociar uma foto e, enquanto está armando o tripé, a morena pergunta: "Tá armando a barraca, gostoso?" Ele nega, tem as bochechas coradas, e ganha um aperto na bunda. "Gostoso!", provoca de novo a desonesta.
Toda a atmosfera carrega um cheiro denso e pesado. Misturado ao desinfetante vencido, o resultado é entorpecente, enjoativo e pouco estimulante. Apesar disso, mais de mil pessoas entram e saem pelo prédio diariamente. São pedreiros, advogados, vendedores de pipoca, economistas e peruanos tocadores de flauta. Eles sobem as escadas, correm os olhos pelos corredores em busca da “presa” e são catapultados pelas investidas extasiantes das dançarinas do amor. Poucos resistem. O programa varia entre R$15 e R$45, tudo depende do tempo em que o serviço será prestado – como uma lan-house. Elas cobram adiantado, não escondem o sorriso pecaminoso depois de garantir um cliente e gritam escandalosamente. "Quanto mais alto o grito, melhor a trepada", aconselha um sujeito. E todo mundo desce o cacete. A eguinha pocotó não se cansa de afogar o ganso. Tudo isso no Centro, a quinze minutinhos da sua casa. Enquanto você folheia essa revista e cria cenas perversas na cabeça, algum outro corpo agoniza seus valores sacros nos "corredores da cidade". É a dança libertina, inescrupulosa e lucrativa do sexo. Sempre o sexo.
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