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Seção : ragga - Noticia - 01/10/2009 11:24
Confira seção On The Road em Santo Antônio do Leite
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Rua do Cruzeiro, número 51. Olhando pela janela da lateral esquerda de seu pequeno ateliê, Patrizia consegue ver a igreja de Santo Antônio, uma construção pincelada em azul escuro, simples e pequena, e também o começo de sua rua inclinada e sem asfalto, por onde já subiu incontáveis vezes carregando latinhas de tinta, esboços de máscaras e todo o artesanato que vendia na Feira Hippie de Belo Horizonte, quando ainda acontecia na Praça da Liberdade, igualmente aos domingos. Seus olhos estão brilhando e nenhum sentimento do mundo seria capaz de descrever o que sente quando relembra os primeiros dias na cidade. Pelo reflexo do vidro armado na janela, consegue ainda enxergar contornos falhos do meu corpo, um jornalista levemente barbado e de alguns anos de estrada, nitidamente se trata de mais um entusiasta daquilo que ela mesma reconhece ter sido uma “tentativa frustrada de construir a tal da sociedade alternativa”, logo ali, no meio do mato, a 25km da boa e velha cidade de Ouro Preto. Estamos em Santo Antônio do Leite, antigo reduto de hippies malucos, sensatos, inconsequentes e artistas. Uma época em que até esses adjetivos mais controversos viviam em plena harmonia. Hoje, isso tudo pode parecer uma grande bobagem, uma armadilha do passado, uma leviana música de Raul Seixas e até mesmo uma utopia barata de mentes estupidamente escrupulosas. Mas, para quem viveu a juventude brasileira de 20 ou 30 anos atrás, tudo fez – e continua fazendo – algum sentido.
Em meados dos anos 1980, a ditadura militar estava finalmente perdendo força e a abertura política se tornara inevitável. Frente às múltiplas possibilidades do futuro, ao entusiasmo da campanha Diretas Já e ao característico clima tropical brasileiro, o nosso caloroso país parecia um lugar e tanto para viajantes do mundo inteiro aportarem os seus pensamentos mais subversivos. Patrizia RampazzoXXX na época com vinte e poucos anos, tinha largado tempos antes uma vida confortável na Itália para “cair no mundo, ver, experimentar e conhecer novos horizontes”. Esteve pelos quatros cantos da Ásia, Europa e, mais tarde, começando pelo México, desceu todo o continente americano desbravando tribos, vilas e cidadelas, sobrevivendo aos trancos e solavancos com a grana curta que recebia vendendo artesanato. Quando chegou ao Brasil, já em 1992, soube de alguns amigos que conheceu na estrada da existência de Santo Antônio do Leite. “Como eu não tinha nada a perder...” – que frase incrível! – “...resolvi ver o que estava acontecendo em Minas Gerais.” Por aqui, uma turma inteira de argentinos, colombianos, peruanos e paraguaios já estava esperando, esquentando os tambores e cantando. Sempre cantando. No meio disso tudo, estava uma jovem hippie alta e morena. Seu nome era Isabelle. Jardins da biovida Descobri a Isabelle Rochany e o Prana Lorien por acaso. Já tinha ouvido falar que Santo Antônio do Leite era um dos destinos imprescindíveis para quem estava atrás da tão proclamada Sociedade Alternativa e, depois de passar por São Thomé das Letras, Trancoso, Camping Rock, Moeda, Arambepe, Trindade e Aiuruoca, resolvi tirar um dia para conhecer o distrito, localizado em Ouro Preto. Porém, quando já estava a apenas 2km da chegada, vi na entrada de uma estrada de terra uma plaquinha com os dizeres: “Prana Lorien. Yoga, meditação e ecologia”. Nunca meditei e, até alguns anos atrás, ioga era apenas o apelido de uma velha amiga que usava tantas substâncias estranhas que nunca dizia mais que três palavras: “Pô, relaxa, bicho”. Mas, “como eu não tinha nada a perder”, resolvi parar para um chá.
Do asfalto até o Prana, que também é uma pousada, não se leva mais que dez minutos. E não existe nada em volta. Apenas o barulho dos pássaros, um céu imenso e o cheiro inconfundível da natureza. Isabelle está em frente a um templo enorme, onde ministra aulas de ioga, e o sorriso que traz no rosto não esconde a satisfação que guarda do próprio passado. “Foi um tempo mágico, uma sensação constante de que estávamos no caminho certo, fazendo os nossos trabalhos e ganhando o nosso dinheiro”, conta. Ela, assim como todos os outros companheiros que desembarcaram “no Leite” nos anos 80, escolheu a cidade por conta das possibilidades de fazer a vida com a prata que existia na região e, claro, com o objetivo de experimentar uma vida diferente e desapegada dos valores tradicionais. Era um tempo de muita maconha, festas que duravam 72 horas e uma vontade irreparável de “cair fora”. Tudo aquilo que os habitantes “normais” de Santo Antônio do Leite tinham medo.
Filhos da Primavera Mas os hippies tinham chegado para ficar e, sem que percebessem, ao longo dos anos foram se tornando os grandes responsáveis por fomentar o turismo da vizinhança. Além de construírem um espaço de arte e colocarem o Leite nas conversas de quem se aglutinava na Feira Hippie de Belo Horizonte, também desenvolveram uma série de oficinas de artesanato, pintura e desenho. De dois em dois anos, levantavam sozinhos a extinta Festa da Primavera, que promovia três dias de cultura para quem quisesse aparecer. Sem cobrar nada, grupos como Galpão, Trampolim e Berimbrau ajudaram a construir momentos que ficariam eternizados muito além das fotografias da época. Patrizia e Isabelle trocam poucas palavras hoje em dia. Enquanto a primeira escapou daqueles tempos estranhos com o ateliê Pacha, onde cria máscaras venezianas, a segunda cuida do templo, de uma horta especial e da pousada, que recebe mais paulistas do que mineiros. Em comum, além dos 46 anos de vida e estrada, está a certeza de que não fundaram e nem encontraram uma sociedade alternativa. Porém, para quem passa uma tarde em Santo Antônio do Leite, fica claro que elas conseguiram, sim, achar uma alternativa diante de todos os problemas do mundo: a doce e irreparável felicidade.
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