Seção : ragga - Noticia - 05/01/2010 08:45
On The Road: Estrada para o Inferno
Um longo caminho para o topo para assistir a um concerto de rock and roll
Bernardo Biagioni - Ragga
|
Olhei para o fotógrafo deitado na cama de cima e lembro-me de ter pensado: “Esse cara não vai acordar nem se eu gritar no seu ouvido que dois gorilas vermelhos estão invadindo o quarto”. Então tomei um banho com calma, escolhi uma camisa na mala como se não soubesse qual iria colocar, e fiquei cantando Highway to hell baixinho, porque sabia que a gente estava mesmo a caminho do inferno. 4:20 am Você já deve ter visto – ou lido – que o trânsito de São Paulo transforma trajetos curtos em viagens intermináveis. A sensação que dá é que toda a população da Índia resolveu invadir o condado do José Serra, dirigindo, no mesmo instante. Se antes eu estava preocupado em chegar antes das cinco, agora começava a considerar a ideia de largar o carro em uma ruela qualquer e ir correndo até o Morumbi. Mesmo que isso me custasse perder o show do ex-Ira. Mas antes da escuridão, encontramos um sujeito chamado Jacó. Ele apareceu no vigésimo segundo sinal de trânsito que respeitamos em um único quarteirão e trouxe a luz. Era um CD prata e trazia as seguintes letras rabiscadas com um lápis de escrever preto: Bonjah. Coloquei no som e olhei para o fotógrafo, que indicava com a cabeça um sinal positivo do tipo: “Isso aí, cara. Deixa rolar”. Bom, o senhor Angus Young não ficaria desapontado comigo, não é mesmo?
6:20 pm Não dava nem para acreditar que o Morumbi estava logo no final da esquina e que, com um pouco de sorte, em alguns minutos eu estaria trocando cotoveladas com outros fanáticos que já se enfrentavam nas proximidades do palco montado no estádio. Perto da entrada 14, avistei João Batista, organizador do Woodstock mineiro, o Camping Rock, proprietário da Purple Records, na Galeria do Rock belo-horizontina, e figura respeitável na cena do metal universal. Fiz uma entrevista com ele no começo de 2008, durante a 11ª edição do festival, e outra um ano mais tarde, no show do Iron Maiden em Belo Horizonte, no Mineirinho. Um mês antes, encontrei o sujeito na saída de uma gruta em São Thomé das Letras. Parece mentira, mas tenho fotos que provam isso. Em todo caso, em nenhuma das ocasiões João se lembrou de mim, inclusive agora, sob a entrada 14. Mesmo assim, sempre que o vejo, grito seu nome e dou um abraço. E ele responde com sorrisos sinceros.
Além de João, mais de 70mil pessoas estavam rodeando o Morumbi. Eram, em grande maioria, motoqueiros selvagens que tinham passado a noite na fila, catadoras de latinha, pipoqueiros doidos de pipoca e vendedores de penduricalhos da banda australiana, que sabiam de rock ‘n’ roll como sabem das razões epistemológicas que levaram à superação da Era de Aquários. O clima era de festa e de loucura. E, pelos meus cálculos, mais da metade das pessoas que entravam no estádio não iria se lembrar de nenhum momento do show e de tudo que viesse a acontecer nas horas seguintes. 7:20pm Começou a chover assustadoramente e a capa de chuva pulou de R$ 5 para R$ 20. E por mais estranho que possa parecer, o temporal só acabou quando o Nazi apareceu na ponta do palco brandindo os punhos e rosnando algumas palavras que não entendi direito. Lá de cima ele deve ter percebido que a multidão não estava muito satisfeita com a sua presença - Afinal, ele é o responsável por versos incríveis da música popular brasileira, como “Feliz aniversário, envelheço na cidade” – e então emendou as duas cartadas que tinha na manga: ‘Mosca na sopa’ e ‘Sociedade alternativa’. As sábias palavras de Raul Seixas e do mago Paulo Coelho tranquilizaram os malucos que já estavam planejando uma maneira de sabotar o som. Além do mais, faltava pouco para a banda da noite aparecer. Não fazia sentido jogar uma bomba caseira no palco a essa altura do campeonato.
9:20pm Apagam as luzes. Primeiro o silêncio e dois ou três milésimos de segundos depois o estádio inteiro está mais uma vez gritando, fervilhando, esperando para explodir. Não há ninguém no palco, mas todo mundo sabe que em alguns segundos os australianos estarão exatamente ali, a vinte e três metros de distância. Nas arquibancadas cintilam os chifres vermelhos de dez mil pessoas que estão entoando três letras do alfabeto em uníssono. Olho para trás e tem uma menina segurando as lágrimas nos olhos, um barbudo sem camisa sorrindo com os braços levantados e um moleque de onze anos sentado nas costas do irmão mais velho olhando tudo muito assustado – Eternamente ele irá se lembrar de todas as sensações que vai experimentar nas próximas duas horas. Na minha frente está o fotógrafo sem câmera alguma, uma loirinha incrível que sorriu para mim mais cedo, e o Morumbi está devidamente preparado para tudo que vier a acontecer. O ACDC está pronto para começar.
|
- Notícias
-
Confira sessão On The Road em São Tomé das Letras
- Confira sessão On The Road em Machu Pichu
- Confira sessão On The Road na Rua Guaicurus, em BH
-
Confira sessão On The Road em Trindade, a terra do reggae
- Confira seção On The Road em Santo Antônio do Leite
- Zombie walk: mortos vivos marcham nas ruas de BH
-
Confira reportagem da Ragga #19 sobre o Camping & Rock
-
Confira vídeo sobre o Camping & Rock
- On The Road na Faculdade de Meio Ambiente em Curitiba
- On The Road na Faculdade de Meio Ambiente em Curitiba
- On The Road no Parque da Mônica
-
On The Road na Itália
-
Confira matéria no Burning Man
-
Confira matéria no Burning Man
- On The Road em Barbacena: elogio à loucura
- On The Road em Barbacena: elogio à loucura







Aguarde.....