Divirta-se Notícia - On The Road: Estrada para o Inferno

Divirta-se

Seção : ragga - Noticia - 05/01/2010 08:45

On The Road: Estrada para o Inferno

Um longo caminho para o topo para assistir a um concerto de rock and roll

Bernardo Biagioni - Ragga
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Bernardo Biagioni


2:20pm


Só acordei quando o despertador recomeçou a insistir pela sétima ou oitava vez, gritando e implorando para que eu levantasse da cama e não perdesse o concerto de cinco respeitáveis senhores australianos e, claro, o meu emprego de jornalista. Apesar de estar ali no hotel – e naquelas condições – estava sim trabalhando, cumprindo horários e a promessa de descolar um fotógrafo para viajar comigo para São Paulo sem preços adicionais.

Na noite anterior, recusei tudo que me ofereceram – inclusive as “bocetadas” da (rua) Augusta – e fui cedo para o hotel, bem antes de o sol aparecer. Na recepção, um hóspede barbudo recém chegado de alguma quebrada de Goiás recebeu as duas informações mais desagradáveis de toda sua vida: “Não temos vaga” e “Nazi vai abrir o show”. Parecia até um sinal de que ele deveria pegar o trem de volta para casa e se contentar com o DVD do Raul Seixas que tinha roubado de um amigo. Mais uma vez.

Enfim, estava bem complicado sair da cama e você vai me entender se estiver lendo isso aqui dentro de um quarto de hotel com uma temperatura cuidadosamente escolhida e submerso em edredons gigantes. Só levantei quando acabaram os objetos ao meu redor e, com isso, a chance de conseguir atingir o despertador que lamuriava lá perto do banheiro.

Marcelo Borja


Olhei para o fotógrafo deitado na cama de cima e lembro-me de ter pensado: “Esse cara não vai acordar nem se eu gritar no seu ouvido que dois gorilas vermelhos estão invadindo o quarto”. Então tomei um banho com calma, escolhi uma camisa na mala como se não soubesse qual iria colocar, e fiquei cantando Highway to hell baixinho, porque sabia que a gente estava mesmo a caminho do inferno.

4:20 am

Você já deve ter visto – ou lido – que o trânsito de São Paulo transforma trajetos curtos em viagens intermináveis. A sensação que dá é que toda a população da Índia resolveu invadir o condado do José Serra, dirigindo, no mesmo instante. Se antes eu estava preocupado em chegar antes das cinco, agora começava a considerar a ideia de largar o carro em uma ruela qualquer e ir correndo até o Morumbi. Mesmo que isso me custasse perder o show do ex-Ira.

Mas antes da escuridão, encontramos um sujeito chamado Jacó. Ele apareceu no vigésimo segundo sinal de trânsito que respeitamos em um único quarteirão e trouxe a luz. Era um CD prata e trazia as seguintes letras rabiscadas com um lápis de escrever preto: Bonjah. Coloquei no som e olhei para o fotógrafo, que indicava com a cabeça um sinal positivo do tipo: “Isso aí, cara. Deixa rolar”. Bom, o senhor Angus Young não ficaria desapontado comigo, não é mesmo?

Marcelo Borja


6:20 pm

Não dava nem para acreditar que o Morumbi estava logo no final da esquina e que, com um pouco de sorte, em alguns minutos eu estaria trocando cotoveladas com outros fanáticos que já se enfrentavam nas proximidades do palco montado no estádio.

Perto da entrada 14, avistei João Batista, organizador do Woodstock mineiro, o Camping Rock, proprietário da Purple Records, na Galeria do Rock belo-horizontina, e figura respeitável na cena do metal universal. Fiz uma entrevista com ele no começo de 2008, durante a 11ª edição do festival, e outra um ano mais tarde, no show do Iron Maiden em Belo Horizonte, no Mineirinho. Um mês antes, encontrei o sujeito na saída de uma gruta em São Thomé das Letras. Parece mentira, mas tenho fotos que provam isso. Em todo caso, em nenhuma das ocasiões João se lembrou de mim, inclusive agora, sob a entrada 14. Mesmo assim, sempre que o vejo, grito seu nome e dou um abraço. E ele responde com sorrisos sinceros.

Marcelo Borja


Além de João, mais de 70mil pessoas estavam rodeando o Morumbi. Eram, em grande maioria, motoqueiros selvagens que tinham passado a noite na fila, catadoras de latinha, pipoqueiros doidos de pipoca e vendedores de penduricalhos da banda australiana, que sabiam de rock ‘n’ roll como sabem das razões epistemológicas que levaram à superação da Era de Aquários. O clima era de festa e de loucura. E, pelos meus cálculos, mais da metade das pessoas que entravam no estádio não iria se lembrar de nenhum momento do show e de tudo que viesse a acontecer nas horas seguintes.

7:20pm

Começou a chover assustadoramente e a capa de chuva pulou de R$ 5 para R$ 20. E por mais estranho que possa parecer, o temporal só acabou quando o Nazi apareceu na ponta do palco brandindo os punhos e rosnando algumas palavras que não entendi direito.

Lá de cima ele deve ter percebido que a multidão não estava muito satisfeita com a sua presença - Afinal, ele é o responsável por versos incríveis da música popular brasileira, como “Feliz aniversário, envelheço na cidade” – e então emendou as duas cartadas que tinha na manga: ‘Mosca na sopa’ e ‘Sociedade alternativa’.

As sábias palavras de Raul Seixas e do mago Paulo Coelho tranquilizaram os malucos que já estavam planejando uma maneira de sabotar o som. Além do mais, faltava pouco para a banda da noite aparecer. Não fazia sentido jogar uma bomba caseira no palco a essa altura do campeonato.

Marcelo Borja


9:20pm

Apagam as luzes. Primeiro o silêncio e dois ou três milésimos de segundos depois o estádio inteiro está mais uma vez gritando, fervilhando, esperando para explodir. Não há ninguém no palco, mas todo mundo sabe que em alguns segundos os australianos estarão exatamente ali, a vinte e três metros de distância. Nas arquibancadas cintilam os chifres vermelhos de dez mil pessoas que estão entoando três letras do alfabeto em uníssono.

Olho para trás e tem uma menina segurando as lágrimas nos olhos, um barbudo sem camisa sorrindo com os braços levantados e um moleque de onze anos sentado nas costas do irmão mais velho olhando tudo muito assustado – Eternamente ele irá se lembrar de todas as sensações que vai experimentar nas próximas duas horas. Na minha frente está o fotógrafo sem câmera alguma, uma loirinha incrível que sorriu para mim mais cedo, e o Morumbi está devidamente preparado para tudo que vier a acontecer. O ACDC está pronto para começar.


Assista a vídeo da banda tocando em Sampa