teste teste teste teste teste teste teste teste teste teste teste teste teste teste teste teste teste
Seção : ragga - Noticia - 19/01/2010 06:10
História sem fim: a dor e a luta das famílias na busca por informações dos desaparecidos políticos mortos pela ditadura
Bruno Mateus - Ragga
|
Foram 21 anos sob o autoritarismo do regime militar. De 1° de abril de 1964 ao processo de abertura política e redemocratização, em 1985, centenas de pessoas foram torturadas e assassinadas. Segundo o livro-relatório ‘Direito à memória e à verdade’, da Comissão Especial sobre mortos e desaparecidos políticos da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, foram pelo menos 475 mortos pela ditadura. Desse número, cerca de 140 continuam desaparecidos. Casos como os de Stuart Edgar Angel Jones, filho da estilista mineira Zuzu Angel, que também foi morta pela ação da repressão; do ex-deputado Rubens Paiva, pai do escritor Marcelo Rubens Paiva, e Vladimir Herzog, jornalista e ex-diretor da TV Cultura de São Paulo, ganharam notoriedade. Em 1995, a União reconheceu sua responsabilidade no assassinato dos opositores da ditadura militar. Famílias ficaram marcadas para sempre por um regime que manchou com sangue a história do Brasil. Há mais de 27 anos, quando entraram com ações civis na justiça brasileira, parentes esperam a sentença que os faça conhecer os fatos e localizar os restos mortais das vítimas. Não só as famílias, mas a sociedade tem o direito de conhecer a real história daquele período. Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça. Como disse Dom Paulo Evaristo Arns, os povos que não podem ou não querem confrontar-se com seu passado histórico estão condenados a repeti-lo. A morte de um sonho Em uma noite de intenso calor, sentada no sofá da sala onde, há quase 40 anos, agentes do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) entraram para prender seu filho, Maria Leonor Pereira Marques segura uma medalha em homenagem a Paulo Roberto Pereira Marques, Paulinho para a família e Amauri para os companheiros, desaparecido desde 1973, quando foi morto no Araguaia, aos 22 anos. O jovem saiu de casa em 1969. A irmã Maria de Fátima Marques Macedo o encontrou no Rio, em janeiro de 1970. “Foi uma despedida que parecia curta”, lembra. O último contato com a família foi por uma carta, em 1972, na qual ele falava sobre saudades e esperanças, mas não revelava onde estava. Com a Lei da Anistia, em 1979, José Genoíno, deputado federal do PT(SP), que também lutou no Araguaia, passou a falar sobre a guerrilha. Em Belo Horizonte, conversou com os familiares de Paulinho. “Ele foi o primeiro que falou sobre o Araguaia, ninguém sabia. O Genoíno não disse que ele estava morto, mas que era muito difícil ele estar vivo”, diz Maria Leonor. O capítulo mais triste da história aconteceu em 1997, quando noticiaram equivocadamente o reconhecimento dos restos mortais do filho. “No fundo eu tinha esperança. Quando estava fazendo 68 anos, fui comemorar em Divinópolis. No jornal, deu a notícia de que haviam encontrado o corpo dele. Mas era tudo mentira, cada coisa dessa é um sofrimento. Ninguém tinha coragem de me contar. Julinho [filho] me ligou e disse: ‘Olha, acharam o Paulinho.’ Eu falei: Nossa, ele está aí? Vou para Belo Horizonte agora, vou pegar um táxi, nem vou esperar o ônibus. ‘Não, mãe, acharam ele morto.’ Aquilo foi um raio dentro de mim. O que eu controlei durante 20 anos e tanto desabou. Chorei dois dias e duas noites. Foi um choque, a morte de um sonho”.
Com os olhos carregados de carinho e saudade, Maria Leonor lembra-se do filho: “Eu falo como se ele estivesse vivo. Tem hora que acho que estou sonhando. Coisa esquisita, será que vivi isso mesmo? Fico vendo os retratos dele e falando: ‘Ê, capetinha, você pintava e bordava, hein?’. Converso com ele por retrato. Nunca sonhei em enterrá-lo. A pessoa que deixa lembrança não morre nunca. Nós vamos nos encontrar um dia e dar muita risada”. O mito da guerrilha Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, foi um dos primeiros guerrilheiros a chegar na região do Araguaia, sul do Pará , entre 1966 e 1967. Devido à sua força física, carisma e aos quase dois metros de altura, o guerrilheiro alcançou status de mito, sendo conhecido pela bondade, força e coragem. Várias lendas a seu respeito surgiram. O Relatório do Ministério do Exército, de 1993, aponta o dia 7 de fevereiro de 1974 como a data da morte de Osvaldo. No entanto, moradores do Araguaia afirmam que ele foi morto em abril de 1974, prestes a completar 36 anos. Desde então, é considerado desaparecido. Maria Rita, sobrinha do guerrilheiro, conta que os familiares não sabiam que ele estava no Araguaia: “Na família não se comentava, não tínhamos conhecimento”. Uma reportagem do início da década de 1990 foi a maneira como receberam a notícia da morte do tio. “Nos pegou de surpresa. Todo mundo ficou estarrecido com aquela situação. Foi terrível, a família era muito unida. Minha tia [irmã de Osvaldo] levou um tempo para acreditar.” Maria Rita mora na casa onde o mais famoso comunista do Araguaia nasceu, em Passa Quatro (MG). Ela diz que os sobrinhos ainda têm esperança de recuperar o corpo. A mãe de Osvaldão morreu quando ele era pequeno; o pai, em 1972. “Ele foi atrás do que acreditava por um país mais livre. Sinto orgulho, por um lado, e tristeza pela perda do convívio. Ele era uma pessoa boa, alegre, muito brincalhão. A gente o chamava de ‘tio gigante’. Dá muita saudade”, lembra Maria Rita.
Petit da Silva: família dizimada “A minha família foi dizimada.” É com essa frase que Laura Petit da Silva fala o que a ditadura militar foi capaz de fazer aos seus três irmãos. Lúcio, Jaime e Maria Lúcia foram mortos no Araguaia. Os restos mortais de Maria Lúcia foram encontrados no cemitério de Xambioá, no interior do Tocantins. A família, assim, pôde enterrá-la, em Bauru (SP), em 1996. Ela estava desaparecida desde 1972. Em 1973, Jaime Petit da Silva foi assassinado pelo regime militar. Um ano depois, Lúcio, o mais velho, teve o mesmo destino. Laura afirma que a família tinha conhecimento do envolvimento político dos irmãos, mas não sabia que eles estavam no Araguaia. À época da morte, Laura lembra qual foi a reação da mãe, já falecida. “Meu pai era falecido. Minha mãe tinha a esperança de que eles voltassem. Até hoje buscamos saber como eles morreram, onde e quem os matou. Essa espera é um luto eterno, uma tortura constante.” Laura espera que o Brasil seja julgado, em 2010, pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos por detenção arbitrária, tortura e desaparecimento forçado de 70 pessoas no Araguaia. “É muito difícil, são muitas lembranças. Eles são verdadeiros heróis. Lutaram, resistiram, deram a vida para que houvesse igualdade neste país. Eles deram a vida pela instituição da democracia.” Casamento e morte no Araguaia Última a ser capturada na guerrilha, Walquíria Afonso Costa foi morta em 1974 aos 27 anos. Ela e o namorado, Idalísio Soares Aranha Filho, morto em 1972 aos 25, se casaram no Araguaia. Os dois mineiros e estudantes da UFMG continuam desaparecidos. Valéria Costa Couto, única irmã de Walquíria, diz não ter esperanças de encontrar a ossada, mas quer esclarecer aquele triste período do país. “Queremos ver os arquivos oficiais. A família e a nação têm esse direito. A história tem que ter começo, meio e fim. Ninguém tem o direito de ocultar nada”, afirma. Segundo Valéria, sua mãe faleceu acreditando na sobrevivência da filha.
Antônia Vitória Soares Aranha viu o irmão Idalísio pela última vez em janeiro de 1971. “Ele disse que ia fazer trabalhos populares, mas não sabia onde. Minha mãe ficou desesperada, mas entendemos que era a opção dele.” Em 1976, Idalísio começou a constar na lista de mortos e desaparecidos. Quando José Genoíno saiu da prisão, disse que o militante do PCdoB havia sido assassinado. “Foi uma coisa dura, indescritível. A gente tem sempre a esperança. A primeira reação é de não enfrentar a realidade.” A notícia, do início de 1978, só foi contada para a mãe no final do mesmo ano. “A reação dela foi uma das mais tristes que já vi. Ela tinha muita expectativa da volta dele.” Hoje, a mãe de Idalísio, Aminthas Rodrigues Pereira, tem 97 anos. Antônia viu o irmão pela última vez quando tinha 15 anos. “A última imagem que tenho é de alguém dizendo pra mim: ‘Não fica triste porque a gente ainda vai se encontrar.’” Para ela, a perda do irmão “é uma chaga que não fecha nunca. Aprende-se a viver com a dor, mas ela nunca passa. Queria ele aqui tocando violão, não como um herói”. |






Aguarde.....