Divirta-se Notícia - On The Road na Itália

Divirta-se

Seção : ragga - Noticia - 22/01/2010 06:10

On The Road na Itália

Desventuras de um jornalista alucinado nas vizinhanças do condado papal

Bernardo Biagioni - Ragga
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Bernardo Biagioni


Só consigo me lembrar do momento em que eu saía correndo do albergue sem camisa, os pés descalços e um som ensurdecedor de buzinas por todo lado. Meu irmão lançava um olhar alucinado na atmosfera e falava repetidamente: “Porra, Bernardo! Você está na terra do papa, esses cristãos vão botar fogo em você! Coloca a merda da camiseta e tente parecer normal!” Eu, definitivamente, não estava nada bem.


O papa é punk

Roma não é um bom lugar ´para gozar de algum estado transcendente de embriaguez. Eu tinha tomado umas três ou oito garrafas de cerveja no Trastevere, o bairro boêmio da cidade, e estava suficientemente sóbrio para aceitar o convite de uma eslovena que parecia uma boneca de cera: “Que tal um rolé pelo San Lorenzo?”. O destino era um bairro afastado do Centro de Roma, cheio de prédios ocupados por punks que se transformam em pubs durante a noite. Em um país ainda marcado pelo fascismo, San Lorenzo era um reduto de socialistas contrários aos idealismos totalitários da Segunda Guerra Mundial, em que a seleção de raças era uma ordem. Todas aquelas bandeiras vermelhas e o clima denso me levavam a uma paranóia pouco reconfortante. Eu imaginava Mussolini e Hitler entrando pela porta lateral cantando a Tarantella e descarregando suas munições sobre os latino-americanos que estivessem chapados. Bingo.

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San Lorenzo fica a cerca de cinco quilômetros da Stazione (Estação Central de Roma). O bairro abriga dezenas de Centri Sociali, ocupações de punks reconhecidas pela prefeitura local. Embora seja, em grande maioria, habitado e freqüentado por italianos, San Lorenzo é ponto de visita obrigatório para turistas que procuram festas alternativas.

Bernardo Biagioni


Um dia de rei em Florença

Eu precisava sair da cidade. Fiquei sabendo que ia rolar uma festa da Billabong num castelo de Florença, uma espécie de homenagem a algum surfista bacana. Mas a parada era só para convidados e... Você consegue imaginar a tipografia dos convidados de uma festa que rola em uma das grandes capitais da moda? Sentindo-me um mendigo, mas levantando a cabeça até tal posição que passasse a idéia de: “Ok, ele deve ter uma lambreta com ar-condicionado”, eu expliquei para o segurança (que trajava um terno Giorgio Armani bem recortado) que era jornalista. No Brasil, eu teria escutado: “Sim. Você é jornalista e eu sou o Willian Bonner”. Mas ali, meu amigo, a banana samba. O grande Giorgio solicitou que eu o acompanhasse, desvencilhou-se da fila que se erguia até o horizonte e me mostrou uma escada: “Suba e sinta-se à vontade”.

Ainda é difícil entender. Mas em algum instante daquela noite louca eu estava na parte mais alta de um castelo, escutando algum ritmo musical que induzia as pessoas aos sentidos mais apurados do sexo e tomando uma bebida cujo nome somente uma russa ruiva seria capaz de recitar. Antes que eu me perdesse em divagações interplanetárias provocadas pelo álcool, o mesmo Giorgio convidou-me para conhecer o DJ Headman, descolou um CD do cara e sorriu feito uma atendente de McDonalds: “Desfrute”.

Bernardo Biagioni


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- Florença, ou Firenze, é a capital da província da Toscana. Berço do Renascimento italiano, a cidade ficou famosa por abrigar diversas obras de Leonardo da Vinci e Michelangelo. Quem visita Florença não pode deixar de conhecer as cidadezinhas vizinhas Siena e Lucca.

- DJ Headman: Myspace.com/headmanmanhead

Uma Ferrari em cada quarteirão. E eu de Lambretta.

O dia amanheceu implorando por paz. A idéia de visitar a fábrica da Ferrari em Maranello, Modena, parecia uma boa escolha para o descanso. Nunca fui fã de carros, tenho dificuldades até em diferenciar um Palio 2004 de um Uno Mille 2008. Mas pisar numa cidade em que se vê uma Ferrari em cada quarteirão soa bem interessante. A certa altura do campeonato, encarando aquelas máquinas cruzando a pista de teste da fábrica numa velocidade superior à do Papa-léguas, meu corpo já dava indícios de uma resposta quase sexual. Pensei em comprar alguma lembrancinha na loja da esquina, mas mudei de idéia quando descobri que um chaveiro com o cavalinho me custaria 25 euros. Vai vendo.

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De Florença a Maranello são 160 quilômetros. Embora não seja permitido entrar na fábrica da Ferrari, vale um rolé pela Galleria, um museu que conta toda a história da empresa italiana. Ah! Você ainda pode se hospedar no hotel Ferrari, almoçar no Ristorante Ferrari e fazer umas comprinhas na Ferrari Store.

Bernardo Biagioni


Venezia, amore mio!

Inspirado por filmes ultra-românticos, pombinhos enamorados curtindo o vaivém das marolinhas venezianas, eu imaginava a cidade como um reduto de grandes poetas do universo cinematográfico, à la Don Juan de Marco, James Bond e Jack do Titanic. Mas, tirando a garotinha que deslizava seus dedos sobre uma sanfona enferrujada, só as gôndolas salvavam o meu imaginário apaixonado da cidade-que-não-vai-afundar. O resto eram pixações nas paredes que faziam ode à erva de Jah, uma que excomungava os amantes de All Star e Nike e outras peripécias do mundo punk. E você achando que ia encontrar o seu Harry Potter em Veneza, né?

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Não é permitida a transação de carros no Centro Histórico de Veneza. A saída pra quem vai dirigindo é estacionar o veículo na cidade Mestre e pegar um trem na estação. São menos de 10 minutos de viagem e você ainda curte o visual da Laguna Veneta.

Bernardo Biagioni


Um jornalista (quase) rock ‘n’ roll

O melhor mesmo era voltar para Florença e esperar as atrações que estariam por vir. The Teenagers, The Tunas e Radiodays dividiriam o palco de um teatro para um grande show de rock. O segundo andar da casa era exclusivo para os produtores e músicos. Encontrei outro Giorgio encostado na parede e perguntei na escada: “Lá em cima é só para produção”. Expliquei que era jornalista e ele mudou a pose em um único segundo: “Desculpe-me! Por favor, me desculpe. Pode me seguir que levo você até lá”. Já acostumado com a idéia de ser uma figura importante na sociedade fiorentina, subi alguns degraus como se fosse uma espécie de realeza.

Por um segundo fui acometido de um desejo quase infantil de: “Uau, quero ser um grande fotógrafo de rock!”. Pedi que os The Teenagers se juntassem para que eu fizesse uma foto bem ousada. Mas eu tinha comprado a câmera no dia anterior, então ainda estávamos em processo de amizade. Fato é que a foto não era batida de jeito nenhum e a banda começava a ter sérias desconfianças sobre a minha profissão. Comecei a suar frio, a adrenalina correu para cada dedo do meu pé e eu já me sentia preparado para fugir como um felino em transe. Acabou que a máquina se solidarizou comigo e disparou seu flash. Respirei fundo e dei um beijo na pequena.

Bernardo Biagioni