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Seção : ragga - Noticia - 27/01/2010 06:10
Confira matéria no Burning Man
Arte, escambo e a desconstrução do Homem no deserto americano
Bernardo Biagioni - Ragga
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“Acho que é para a esquerda”, constatou Adriano ao olhar para o GPS suspenso no painel do Chevrolet Chevy Trailblazer, alugado há algumas horas no aeroporto de Reno, nos Estados Unidos. Ao seu lado estava Carolyn, uma americana comunal que vinha se rendendo aos sacolejos do veículo guinado sem tanta velocidade. Eles se conheceram há menos de 24h no avião que partira de Los Angeles com destino ao estado de Nevada. Partilhavam a mesma fileira de poltronas e também uma ansiedade inquietante. Era agosto de 2007 e essa seria a primeira experiência dos dois em um dos eventos mais estranhos da superfície terrestre, o Burning Man. Confira galeria de fotosO Chevrolet corria trôpego pela planície desértica devastada pelo clima árido norte-americano. O último vestígio de estrada fora largado para trás há 6 milhas e a última cidade que atravessaram já distava uma hora daquele ponto. “Me passa a água”, pediu Adriano, em um inglês perfeito e pausado. Carolyn esticou o braço direito para trás e tentou alcançar a garrafa perdida entre um amontoado de especiarias – o banco traseiro do veículo abrigava roupas, biscoitos e alimentos enlatados. Quando a estudante voltou seu rosto para frente, sentiu algo ofuscar suas pupilas já dilatadas pela escuridão profunda. Apertou os olhos e julgou que aquilo que enxergava não poderia passar de uma miragem. Eram as primeiras luzes de Black Rock City. Sem fogo em São Francisco Mas há exatos 17 anos antes da experiência de Adriano, aquelas mesmas luzes não puderam ser acesas com tanta facilidade. Era 1990 e algumas dezenas de pessoas tentavam colocar de pé uma estátua de um homem gigante, esculpida em madeira. Os amigos de longa data Larry Harvey e Jerry James comandavam a trupe que se movimentava pelas imediações da Baker Beach, em São Francisco, cada presente deveria emprestar sua força à corda que levantaria a imensa escultura. Imersos na paisagem urbana e transitando sobre um solo estritamente pavimentado, Larry e Jerry queriam colocar em prática, pela quarta vez, a idealização de seus sonhos. Desde 1986 eles vinham desenvolvendo suas aspirações artísticas em território californiano, aquela seria mais “uma espontânea ação de livre expressão”, segundo definição de Larry Harvey. E a livre expressão humana era apenas um dos diversos objetivos traçados pelos organizadores. O Burning Man vinha engatinhando despretensiosamente na ambiciosa missão de conseguir desconstruir as frivolidades impostas ao homem moderno. Entre os princípios do evento, figura-se ainda a responsabilidade civil, a participação dos visitantes e o não-uso de dinheiro. (Ver Box). A estátua era levantada aos poucos em um estacionamento enquanto alguém bloqueava o tráfego de carros da rua. Os olhares curiosos corriam pelo objeto gigante que era empinado como uma pipa pelo céu claro de São Francisco. Depois de uma última força conjunta aplicada na corda, o homem gigante finalmente tomou seu lugar. Seguindo o cronograma do ritual, este seria o momento em que os organizadores ateariam fogo na estrutura. Assim tinha sido nos últimos anos, quando todos os poucos espectadores do “festival” encaravam, em silêncio, as chamas alaranjadas do fogo engolirem os braços do sujeito inanimado. Porém, a expectativa dos transeuntes foi logo suspensa pela cavalaria da policia que despontava na esquina. Sem o fogo, Larry declarou que a sua idealização estaria fadada a se tornar “uma mera atração de calçada”. Eles precisavam, agora, de outro lugar para deixar o fogo queimar.
Um caminhão avança pelo deserto Quem manteve a calma de todo mundo foi John Law e Kevin Evans, dois integrantes da Cacophony Society, uma entidade que trabalhava as mais estranhas bizarrices do universo artístico. A dupla chegou até Larry com a proposta de “pegar tudo e levar para o meio de Black Rock”, um deserto no estado de Nevada. O idealizador do Burning Man não aceitou a ideia sem antes procurar por alguma outra “locação” em toda costa da Califórnia. Sem sucesso, Larry pensou que o Dia do Trabalhador americano, em setembro de 1990, seria uma boa data para mergulhar “na natureza selvagem”. Louis M. Brill era um dos tripulantes. Segundo seu diário de bordo, no dia da partida apareceram cerca de 100 pessoas. “Todo mundo foi chegando com mochilas, gelos, barracas de camping e casacos”, conta. O espaço vazio do caminhão fora logo preenchido pelas malas que não cabiam nos carros que iriam atrás. Em algumas horas, a trupe já estava no meio do nada, pisando em um solo que nunca havia visto pegadas, respirando um ar livre dos poluentes recorrentes mesmo no menor dos municípios norte-americanos. Louis escreveu: “A gente sabia o que estava fazendo? Provavelmente, não. A gente se importava? Sim. Sabíamos que aquilo que estávamos fazendo era algo completamente diferente de tudo.” Batizaram o terreno onde desfaziam as malas de Black Rock City e descarregaram o caminhão. No domingo seguinte, cem pessoas viram a escultura do Homem regozijar às crepitações do fogo. Foi essa luz que Carolyn viu, quando entregou a garrafa de água para Adriano, em 2007.
Como um virgem Adriano é brasileiro e vive em Washington desde 2007, quando completou 30 anos. Foi convencido a cruzar os Estados Unidos por um amigo que já tinha participado do Burning Man. Iria sozinho para o evento, não fosse o voo para Reno, em que conheceu Carolyn. Não levou muito a sério quando disseram que os dias no deserto mudariam a sua vida. Seu pensamento começou a se transformar assim que reduziu a marcha do carro para entrar na área de acampamento onde ficaria hospedado. “Isso é incrível! Impressionante”, disse, baixinho, enquanto deixava seus olhos correrem pela multiplicidade de coisas que aconteciam diante de si. Adriano era só mais um “virgem”, como são carinhosamente chamadas as pessoas que vão ao Burning Man pela primeira vez. Em 2008, a cidade temporária construída unicamente para o Burning Man chegou a abrigar cerca de 48 mil participantes, a décima maior população de todo o estado de Nevada. Apesar de oferecer longas noites regadas a música eletrônica, os organizadores do evento não gostam da definição “festival”. O Burning Man é uma experiência coletiva que exige a participação de todos. São os presentes que criam as diversas atrações, oficinas, atividades e apresentações artísticas. Os acampamentos são constituídos conforme as aspirações de cada grupo. Existem aqueles destinados aos viajantes de todo o mundo, como o Couch Surfing Camp, e ainda os que promovem a busca pela alma gêmea de cada integrante. Todos os anos, a organização cria um tema para orientar as produções culturais. Em 2007, o nome foi “O Homem Verde” e em 2008, “American Dream”. As poucas leis que existem foram estabelecidas para manter a civilidade entre os pagantes. Os únicos carros permitidos a transitar por Black Rock City são os da equipe médica ou aqueles que carregam algum valor artístico. Participação é uma palavra de ordem – ir ao Burning Man sem participar é como fazer compras no supermercado e não levar nada para casa. De resto, quase tudo é permitido. Por isso seria impossível traduzir o Burning Man em uma única palavra.
Homem queimando Paul Addis tem uma paixão interessante por explosivos. Seu derradeiro amor pelo fogo lhe valeu o apelido de “incendiário” pelos participantes do Burning Man de 2007. Seu nome ficou famoso nos arredores de Black Rock City na tarde de terça-feira do dia 28 de agosto, a terceira etapa do evento. Aquela seria só mais uma tarde do Burning Man, não fosse por dois acontecimentos. Primeiro, porque acontecia ali, no deserto, um raro eclipse lunar. Segundo, porque a estrutura do Homem, o grande símbolo do evento, estava imersa em chamas. Na programação, aquelas luzes só deveriam ser acesas no sábado, o penúltimo dia da semana. Paul Addis não aguentou esperar e colocou sua tocha para interagir com a estrutura sem avisar a ninguém. Um ano depois, o mesmo sujeito seria preso por tentar entrar na Grace Cathedral de São Francisco com algumas dúzias de explosivos. Encontrado o culpado, a organização do Burning Man de 2007 teve que se desdobrar para restabelecer a estrutura condenada (o Departamento de Emergência de Black Rock City conseguiu salvar alguma coisa e anunciou que manteria a agenda do evento). Em tempo recorde, uma equipe especializada conseguiu remodelar o Homem em menos de 72 horas. Tudo iria correr conforme o planejado. Na noite de sábado, a menos de 24h para o fim do evento, não se ouvia muita coisa. Assim também havia sido 21 anos antes, quando o primeiro Homem fora queimado em Baker Beach, na Califórnia. Aquele seria o momento de consagração de todo o ritual, o prenúncio de uma nova fase na vida de cada presente. Em 1986, a estrutura não tinha mais do que dois metros e meio. Duas décadas depois, o Homem crescia imponente em 14 metros de altura, sem contar seu brilhante revestimento de neon. Mantinha-se, porém, o objetivo inicial: a desconstrução humana. Faltando pouco mais de dez minutos para a primeira brasa atingir a base que sustenta o Homem, o espetáculo começa. O silêncio é logo atravessado por uma gritaria desenfreada que explode pelo peito de cada participante. A escuridão do deserto é invadida por centenas de pontos amarelos, cada presente levanta o seu próprio fogo em uma nítida expressão de consentimento. Milhões de almas se misturam sobre o chão desgraçado pela falta de água e se entregam a um estado de êxtase intocável. O grande Homem é, então, atingido por uma onda de explosivos que emergem do solo, e a multidão vai à loucura. A estrutura se desfaz lentamente e, aos poucos, vão se esvaindo os membros do sujeito metálico. O silêncio de antes logo se restabelece e os únicos barulhos que cortam o ar são provenientes da crepitação do fogo. Todos os olhos do deserto estão encarando os seus anseios se esfarelarem na imensidão da noite. A fiação que mantinha o neon aceso é a primeira a se romper. Caem as pernas, os braços e o tronco escurecido pelas cinzas. Por último vem a cabeça, também em chamas. Ela desce lá de cima e rola até os pés de alguém. Algum outro sujeito sorri e dá o primeiro grito. A calmaria volta logo a ser rompida pelos gritos roucos que correm por Black Rock City. Estão todos imensamente felizes e realizados. O Homem está, finalmente, queimado.
BOX 1 O que é o Burning Man “Explicar o Burning Man para alguém que nunca foi é como explicar uma cor para alguém que é cego”, sugerem os organizadores. Mas, para quem olha de fora, o Burning Man é um projeto de múltiplas expressões artísticas, todas elas criadas pelos próprios participantes. Tem como objetivo a experimentação da vida em comunidade, a livre expressão e a radical redenção humana. O evento é sustentado por dez princípios: Participação Participar é a palavra de ordem. Todos os presentes são encorajados a agregar valores ao evento. Desacomodação Para existir um mínimo de bem-estar, existe uma lista de coisas que são comercializadas nas imediações do Burning. Entre elas estão o café, gelo e passagens para uma volta de avião pelo deserto. Radical auto-confiança Cada pessoa deve levar ao evento o que julgar necessário. A única coisa que a organização oferece, tirando os itens da “Desacomodação”, são os banheiros químicos. Agrados Não existe nenhum tipo de transação monetária entre os participantes. Os organizadores prezam pelos “agrados”, ou seja, as pessoas devem oferecer presentes às outras sem pensar em retribuições. Radical expressão humana Cada pessoa pode se expressar da forma como entender. Seja através de uma pintura, de um carro customizado ou de uma roupa fluorescente. O nudismo é permitido. Responsabilidade civil Todos os participantes estão submetidos a algumas poucas leis que visam garantir a integridade do evento. E, em todo caso, o Burning Man não deixa de fazer parte da jurisdição do estado de Nevada. Portanto, matar alguém continua sendo um crime. Inclusão radical Qualquer pessoa do mundo pode participar do Burning Man. Não existe nenhuma restrição de raças, costumes e etnias. Torna-se participante aquele que compra o ingresso e assume as responsabilidades de passar alguns dias no deserto. Esforço coletivo O Burning Man só é possível com a colaboração e participação de todos os envolvidos. Dessa forma, todo mundo é encorajado a fazer a sua parte. Mediação Todos devem participar das atividades propostas pelo Burning Man. Só assim cada um poderá experimentar uma sociedade que vive às margens de uma civilização tradicional. Não deixe nenhum lixo A cidade temporária Black Rock City deve permanecer exatamente como estava no começo do evento.
BOX 2 Preparação para o Burning Man O ingresso deixa bem claro: “Você está assumindo voluntariamente o risco de morte ou danos graves ao comparecer a este evento”. Portanto, é muito importante que haja um mínimo de planejamento antes de cair na estrada. O Burning Man começa, anualmente, no último domingo de agosto e vai até o domingo seguinte, que é o Dia do Trabalhador nos Estados Unidos. Quem ajuda nas dicas é o veterano brasileiro Adriano Mitchell, de 32 anos. Em 2009, ele participará do festival pela terceira vez. 1- Leia bastante sobre o Burning Man antes de ir. 2- Para quem vai do Brasil, a melhor opção é ir direto para São Francisco ou Reno, Nevada. São os aeroportos mais próximos de Black Rock City, a cidade temporária que abriga o festival. 3- Compre o ingresso com antecedência no site burningman.com. Assim, pagará bem mais barato. Hoje, a entrada está saindo por U$ 260. 4- Reserve seu lugar em um acampamento. Acampar fora do camping não é nem um pouco aconselhável. Acesse: couchsurfingcamp.com. Você também pode ficar no seu motorhome, caso tenha um. 5- Leve muita água, protetor solar e mantenha uma alimentação saudável. Durante o dia, a temperatura chega a 45º e não existe uma única árvore para fugir do sol. 6- Não se comercializa comida no Burning Man, nem água para tomar banho. Leve de casa tudo que julgar necessário para sobreviver oito dias no deserto. 7- Esteja preparado para tudo. |
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