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Seção : ragga - Noticia - 01/02/2010 06:10
On The Road em Barbacena: elogio à loucura
Última chamada para o trem dos doidos. Embarque imediato pelo portão 22
Bernardo Biagioni - Ragga
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Vejo os loucos como os sujeitos que conseguiram atravessar a linha. Conseguiram abandonar em casa as velhas bobagens, um redemoinho de medos bobos, pensamentos errantes e incertezas mesquinhas. E então partiram. Partiram por aí, e simplesmente pelo prazer de sair por aí olhando, observando e sorrindo. Sorrindo como um bobo. Como eu. Como você. Comprou o bilhete, cumpra o percurso Sempre soube que tinha existido um manicômio em Barbacena no século passado. Lembro das histórias alucinantes e curiosas que ouvia enquanto passava por ali a caminho da praia no Rio de Janeiro, aquilo tudo me dava calafrios tão fortes que era quase impossível de disfarçar. Pouco depois de Conselheiro Lafaiete, vinha a “Cidade dos loucos”, “a terra onde ninguém se salvou”, “onde um homem conseguiu fazer o outro voar”, e outras lendas que não fazia nada bem para a cabeça de um moleque de 5 anos. É claro. Bom, já estava na hora de conseguir superar velhos traumas e ir ver com os meus olhos suficientemente preparados o que tinha acontecido de verdade por aquelas bandas nas últimas onze ou doze décadas. Eu tinha prometido que entregaria uma matéria sobre Budismo para esta edição da Revista, mas senti que talvez a editora fosse gostar mais de me ver voando em alguma foto ou, sei lá, estatelando minhas cordas vocais no telefone pedindo ajuda e que alguém fosse me tirar daquela cidade estranha. Então coloquei tudo no carro, chapéus de palha, dois fotógrafos que não confio muito e os textos que tinha imprimido para ler no caminho. Eram artigos sobre a lei 10216, de 2001, que previa o fechamento progressivo de todos os manicômios do país, e outros sobre o Museu da Loucura, que guarda vestígios negros do chamado Hospital Colônia de Barbacena. Nenhum dos três “tripulantes” do carro sabia se o museu existia mesmo, se ele estava funcionando, ou se estávamos entrando em alguma aventura da qual nunca sairíamos vivos. Então chegamos ao Museu da Loucura por volta das 10h da manhã de uma segunda-feira, sem antes ter se perdido e chegado a duas prisões, quatro hospitais e três igrejas. Entreguei minha carteira de identidade na portaria do estacionamento e percebi um fotógrafo comentar com o outro, baixinho: “Ele vai se foder sozinho”. Até agora não descobri o que estaria planejando. Estacionamos com dificuldade em cima do gramado e cada um saiu andando para um canto. “Reconhecimento de terreno”, diria um detetive bastante enigmático. Deixei que os fotógrafos trabalhassem a vontade e entrei no museu, em silêncio.
Uma manhã no Museu São sete quartos, divididos em dois andares de uma construção do final do século 19. Em cada um deles há fotos, linhas do tempo, máquinas de eletro-choque, camisas-de-força e bonequinhas de pano, costuradas pelos velhos habitantes do manicômio. E o silêncio seria algo bastante sombrio, não fosse a secretária atendendo ao telefone como se trabalhasse em um açougue: “Muuuuseu da Loooucura, bom diaaa!!!”. Bem antes de 2006, quando o museu foi inaugurado, aquele mesmo espaço tinha sido utilizado para abrigar portadores de deficiência mental de todo o país. O Hospital Colônia de Barbacena, desde sua fundação em 1903, vinha, progressivamente, deixando de ser uma referência no tratamento de deficientes para se tornar uma verdadeira prisão perpétua dos mais diversos “desviantes”. Muitos dos “condenados” eram apenas alcoólatras, mendigos, drogados, seres extremamente inteligentes ou, ainda, desafetos de tradicionais famílias mineiras. Todos eram colocados nos extintos “trens de doido” com destino a Barbacena. Uma viagem sem volta, porque raramente algum familiar dos internos aparecia por ali para retomar alguma velha relação de afeto. Estima-se que 60 mil pessoas tenham morrido no manicômio. Vítimas de descaso, de diarréia, de falta de atenção e até de frio e fome. Em 2001, a lei antimanicomial foi finalmente aprovada, e os “sobreviventes” do Hospital de Barbacena tiveram de ser realocados. Hoje, oito anos depois, eles continuam vivendo bem pertinho, em uma vila que fica logo atrás do Museu da Loucura. “Mas você não pode ir lá. Visitas não são permitidas”, disse a secretária escandalosa.
A Vila É claro que eu não iria respeitar a ordem daquela mulher. Meus instintos mais primitivos não deixariam. Entramos no carro como se tivéssemos indo embora e, cuidadosamente, erramos a saída para entrar em uma ruela inclinada que corria pelos fundos do museu. Em menos de dois minutos já estávamos bem no meio da vila, no meio de 20, 30 ou até 40 antigos internos do manicômio. Um deles tentava manobrar o nosso veículo com uma flanelinha imaginária. Mais uma vez o silêncio. Todos os nossos pensamentos perdidos e silêncio. Enquanto um sujeito jardinava, outro conversava sozinho e outros tantos saboreavam um filete de sombra que tinha se formado bem atrás de uma das casas. Nada de conversa, nada de espanto. Eles nos encaravam como se sempre estivessem esperando a chegada de alguém. Alguém que pudesse chegar para uma conversa, um jogo ou, quem sabe, tirá-los de lá para sair por aí para olhar, observar e sorrir pelo mundo. São várias casas espalhadas ao longo de uma montanha não muito alta, mas que dá uma bela visão panorâmica de dois ou três bairros de Barbacena. De lá aquelas mentes viajam, se perdem, vão e voltam por cada uma das curvas do horizonte.
Louco é qum me diz Mas a loucura não é muito mais do que isso. Essa capacidade que poucas pessoas têm de mergulhar fundo nas curvas do horizonte, em sensações, percepções e instintos. Os loucos são destemidos e, por isso, chegam a ser selvagens, perigosos e inspiradores. Eles inspiram porque sabem viver e falar como poucos. Mesmo em silêncio, são poetas. Mesmo sem coordenação, são artistas. Escrevem e desenham tudo aquilo que o mundo ainda não aprendeu a contemplar. E em Barbacena se vê um pouco disso. Não se trata de pessoas felizes, de almas continuamente livres ou de sorrisos puros. Os loucos não são felizes. Eles nunca estão satisfeitos o bastante, nunca arriscaram o bastante e nunca conseguiram ir longe o bastante a ponto de não voltar mais. Mas eles estão aí, estão perdidos por aí. Soltos ou presos, indo ou voltando, mas sempre construindo, silenciosamente, um caminho para a liberdade. “Olhar os erros do passado para não repeti-los no futuro”. Esse é um dos motivos que levaram à construção do Museu da Loucura e uma das razões que me fizeram deixar a matéria sobre Budismo de lado e viajar para Barbacena. No passado, os loucos eram enjaulados, tratados e, erroneamente, censurados de se expressar. Hoje não. Hoje é possível viajar, voar e ver. Hoje somos livres para viver. |
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