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Seção : ragga - Noticia - 04/03/2010 06:10
On The Road na Faculdade de Meio Ambiente em Curitiba
Mata nativa, beduínos e patos perigosos. E nada de diploma.
Bernardo Biagioni - Ragga
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“Próxima parada, Universidade Livre do Meio Ambiente”. Aquela mesma voz fanha que tinha anunciado o Jardim Botânico de Curitiba e também o Bosque do Papa, que eu não consegui ver de jeito nenhum, estava saindo mais uma vez pelos alto-falantes laterais do ônibus Linha e Turismo, uma dessas embarcações de dois andares que garantem aos turistas “uma volta pela cidade em duas horas”. Sacolejavam comigo viajantes de todos os quatro cantos do mundo; suecas enraivecidas com o sol babilônico, peruanos tocando quatro ou cinco modelos de flauta diferentes e, é claro, japoneses com suas pomposas máquinas fotográficas espaciais - aquelas que nós, pessoas normais, só usaremos no próximo século. Ninguém mostrou muito entusiasmo diante do anúncio de que aportaríamos em uma escola de estudantes naturebas bichos-grilos, “viva oxum, viva a natureza” e coisa e tal. Estendi o roteiro que ganhei no embarque no colo para ver do que se tratava e encontrei a imagem de um prédio todo construído com materiais reciclados, troncos de árvore e outros presentes de Gaia, a mãe da terra. Parecia um bom lugar para esfriar a cabeça, dar comida para uns patinhos e tentar fazer ligações de energia com a raiz do Universo.
Então levantei o braço direito e quase me dependurei na cordinha para dar o sinal de parada – Fiquei com medo do motorista não perceber que, finalmente, alguém tinha se interessado pela Unilivre. Levantei com cautela e percebi que todo mundo estava me encarando em expressões que iam do espanto até a compaixão. Antes que eu começasse a descer as escadas do ônibus, um sujeito com uma camisa do Che Guevara bateu no meu ombro e disse: “Boa sorte, cara. Vamos torcer por você”. Desbravando a mata nativa A entrada principal da universidade está instalada no meio de ciprestes, trepadeiras, araucárias e, se não me engano, manguezais. Trata-se de uma pequena ponte de um metro e pouco de largura cheia de curvas, desvios, armadilhas, esquilos e tartarugas ferozes. Ela leva os estudantes, professores e visitantes até uma lagoa margeada por uma enorme parede de pedra. Por ali passeiam os mais diversos tipos de peixes, patos, cavalos marinhos, estrelas-do-mar e lagostas suculentas.
Fiquei tão emocionado em fazer parte daquele quase último pedaço verde do mundo que mal notei que o tão aclamado prédio da universidade estava bem à minha esquerda. Olhando de baixo, vê-se apenas um emaranhado de troncos e pontes estreitas de madeira. Muito pouco, perto do que a escola pode oferecer sem precisar queimar, manipular e sacanear com a mãe natureza. Fundada no dia nacional do meio ambiente de 1991, a Universidade Livre do Meio Ambiente surgiu com a ousada missão de colocar em discussão as mais diversas questões ambientais que pairavam no Brasil. Em um tempo em que se discutia mais se o Fernando Collor era um carioca/alagoano solteiro ou não, a iniciativa parecia despertar o sonho de uma sociedade sustentável. Por aqueles primeiros meses, a universidade funcionou como um braço da Prefeitura Municipal de Curitiba, no Bosque Gutierrez. Um ano depois, a instituição ganhou não só o nome “Livre”, como também foi transferida para o Bosque Zanielli, uma área de 36mil m2 de mata nativa no meio da capital paranaense.
Porém, apesar de carregar no nome a palavra “Universidade”, a Unilivre nunca ofereceu formação superior para nenhum de seus alunos. E, ao contrário do que você pode estar imaginado aí, esta escola curitibana não é um lugar onde os estudantes se encontraram para discutir as melodias do Gilberto Gil e enrolar uma palhinha – Como nos corredores de algumas faculdades de comunicação deste nosso Brasil abundantemente verde. A Universidade Livre do Meio Ambiente ganhou esse nome por duas razões bem simples. Primeiro por ser um centro de pesquisas, estudos e capacitação de projetos sustentáveis. E é “livre” porque qualquer um pode freqüentar as instalações, as salas de aula, a área verde e, sei lá, nadar pelado na lagoa. Basta se inscrever em alguns dos cursos – a maioria é de graça - e se mostrar interessado. E pronto. A partir daí, aprende-se sobre consumo sustentável e se desenvolve discussões sobre como tornar a relação do homem com a natureza uma situação mais amigável. Tudo pelo conhecimento e pelo ativismo. E nada de diploma. Alguns dos estudos da Unilivre são financiados por empresas parceiras que, querendo melhorar a sua imagem ou colaborar com o meio-ambiente, acabam destinando parte da verba para a conscientização ambiental. O Homem nu Consegui um lugar para sentar no mirante da universidade e descansei a câmera e as minhas pernas. Tinha passado os últimos minutos tentando escapar de um beduíno que me seguia soltando grunhidos ameaçadores e aquela sombra que as nuvens tinham formado no topo do prédio me fazia tão bem quanto uma música do Gabriel Pensador.
Essas palavras que você lê agora foram desenhadas enquanto eu escutava nada mais do que a cantoria dos pássaros que cortavam o céu e o barulho que vinha lá de baixo, da lagoa, onde os patos brincavam com os outros patos e alguns poucos visitantes apareciam pela pequena ponte da entrada principal. Pensei nas faculdades de meio-ambiente de Belo Horizonte, que ficam no meio do caos urbano, e sorri. Pensei no movimento das ondas, no cheiro de chuva e em todas as manhãs de sol que ainda hão de vir, e sorri. Pensei nos bichos que estavam perdidos no meio do mato, no voo dos pássaros, nos cachorros de rua, e sorri. E então respirei fundo, bem fundo. Meu último trago em um tempo que nunca mais vai existir.
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