Se rir é o melhor remédio de todos, cada espetáculo de Os Melhores do Mundo pode desencadear uma séria overdose. Na estrada desde 1996, quando chegaram à formação atual, a companhia teatral de Brasília já arrancou gargalhadas de norte a sul do país.
Responsáveis por mais de 30 espetáculos e salas completamente lotadas em todas as apresentações, os integrantes do grupo continuam atravessando o Brasil pra difundir um humor especial – Nem bobo demais, nem muito político e nem um pouquinho cansativo. “Na verdade, só existem dois tipos de humor: o que tem graça e o que não tem”, garante Ricardo Pipo, um dos personagens da peça Hermanoteu na terra de Godah, que conversou com o Ragga Drops por telefone lá da capital federal. Confere aí.
De quem partiu a ideia de fundar a Companhia Os Melhores do Mundo?
A gente sempre trabalhou com teatro e ficamos amigos depois que nos conhecemos na cena teatral de Brasília. Os Melhores do Mundo surgiu de um grupo antigo que a gente tinha, chamado A culpa é da mãe. Ao longo do tempo, muita gente entrou e saiu do grupo e, depois de várias transições, em 1996 nós chegamos à formação atual. Temos uma visão muito parecida de humor, de mundo e de trabalho. Foi uma sorte muito grande a gente se encontrar. E, obviamente que esse nome é uma piada, uma grande ironia.
Nos últimos anos o povo brasileiro presenciou grandes espetáculos de comédia vindos de Brasília, em todos os sentidos. Qual foi a participação do Melhores do Mundo nisso?
A concorrência em Brasília chega a ser desleal. (Rs) A melhor novela do Brasil hoje é a TV Senado. Você liga no canal e encontra traição, injúria, crimes... Lá tem todo o enredo de uma novela. A única diferença é que não tem o mocinho. (Rs) Nossos espetáculos são sempre carregados de uma conotação política, apesar de não levantarmos nenhuma bandeira e não sermos panfletários. A gente faz humor pelo humor mesmo, nosso único objetivo é a gargalhada do público. Mas, pelo fato de morar em Brasília e estarmos próximos dos acontecimentos, a gente tem sempre uma carga política notável em todos os espetáculos.
Quais são as dificuldades de trabalhar em uma peça onde os personagens vão de Cleópatra a Moisés?
As nossas peças funcionam como uma desculpa pra tratarmos de temas atuais. Trabalhamos com as relações do cotidiano. O Hermanoteu na terra de Godah fala de problemas políticos, comportamentos sociais e da vida como ela é, mesmo sendo baseado no Velho Testamente, do ano zero.
A resposta do público é sempre semelhante ou costuma variar bastante de uma apresentação pra outra?
A gente até costuma dizer que existem dois tipos de humor, o que tem graça e o que não tem. (Rs) O público percebe isso, não tem jeito. Nós já apresentamos a peça em quase todo o Brasil e não encontramos muita diferença na resposta da plateia. A única coisa que mudou mesmo foi que, no início do grupo, nosso público era mais adolescente. Hoje é mais homogêneo, aparecem pessoas de todas as idades e classes sociais. Isso é bem interessante.
Já passaram por alguma situação constrangedora em cima do palco?
No mês passado a gente estava em São Paulo apresentando o Misticismo, um espetáculo que fala sobre crenças, religiões e tudo mais. Aí, no meio da peça, estourou um transformador na rua e acabou a luz bem no meio de uma cena de macumba. (Rs) Então, acendemos uma porção de velas e ficamos criando algumas situações até que a energia voltasse. Convidamos para o palco dois humoristas que estavam na plateia, o Diogo Portugal, que faz comédia de improvisação, e o Ben Ludmer, mágico que já foi até no programa do Jô Soares, e rolou tudo numa boa. Situações como essa acontecem quase cotidianamente. Isso porque nossos espetáculos são provocativos e incitam a participação do público. Vez ou outra alguém dá uma opinião na plateia e nossa resposta é imediata. Somos iguais a feirantes: o que você pensar que já ouviu, a gente já escutou o dobro. (Rs)
Já são quantos anos de Hermanoteu na terra de Godah?
O Hermanoteu é um espetáculo bem antigo. Acho que é de 1997...
E ainda existe a mesma vontade em encenar as falas? Vocês não ficam saturados?
Ocorre que esse não é o mesmo espetáculo da montagem original. Cada vez que a gente monta, buscamos dar uma atualizada pra torná-lo mais contemporâneo. Gostamos mesmo é de fazer as coisas de hoje, não daquilo que é datado demais. Isso é legal porque dá uma liberdade pra gente adaptar, também, conforme cada cidade e região que passamos. As pessoas ficam perguntando: “Pô, como vocês sabem disso? Já moraram aqui?”. A gente sempre busca informações que só a galera da cidade sabe. Tudo isso é colocado no espetáculo e fica uma coisa meio personalizada.
Como foi trabalhar em uma peça que conta com a participação de Chico Anysio, grande referência da comédia brasileira?
Foi demais. Quando ele topou essa participação, a gente não era nem conhecido ainda, éramos só um grupo de Brasília. Encontramos ele no Rio de Janeiro e falamos: “Chico, nós temos uma peça que existe a voz de Deus gravada em off. A gente gostaria que você fosse nosso Deus”. Pô, ele aceitou na hora. Esses dias assisti a uma entrevista com o Chico e ele estava falando sobre esse nosso convite: “Onde mais que eu poderia ser Deus, senão em uma peça dos Melhores do Mundo?” (Rs) O Chico Anysio é um cara iluminado, é nosso Deus do humor mesmo. A gente acha que ele não só é o maior humorista brasileiro, como também o maior ator do país. Muita gente vai ficar chateada aí, achando que é Paulo Autran, mas o maior ator brasileiro de todos os tempos é o Chico. (Rs)
Existe fórmula pra fazer uma boa comédia?
Não. É aquilo que falei mesmo, a gente considera assim: existem peças que são engraçadas e as que não são. Às vezes, o espetáculo tem uma única piada e o cara pode achar que é uma comédia. Mas não é assim. A companhia Os Melhores do Mundo preza o seguinte: a plateia não pode passar um minuto sem dar uma gargalhada. Esses são os nossos espetáculos, uma risada atrás da outra. Quando acaba a apresentação, tem gente até com dor no abdômen de tanto rir. Não temos partido, não temos religião e nada que impeça a comédia de acontecer. Nós fazemos humor pelo humor. Criamos piada com tudo e damos tiros pra todos os lados como franco-atiradores. Nós só queremos fazer graça. Somos apenas palhaços. (Rs)
Hermanoteu na terra de BH
E como nem todos os espetáculos de comédia do Brasil só acontecem em Brasília, o Hermanoteu na terra de Godah desembarca neste fim de semana na capital mineira. “Belo Horizonte é uma cidade que a gente gosta muito, principalmente por ser muito interessante culturalmente”, conta Ricardo Pipo. O comediante lembra o exemplo criado por grandes artistas mineiros: “A gente se inspira bastante na trajetória do Skank, Grupo Corpo e Grupo Galpão, três nomes que conseguiram ganhar o Brasil sem ter abandonado a própria cidade”, explica. Se você é mais um dos 4 milhões de usuários que já assistiram aos vídeos do Hermanoteu no YouTube, não vai poder ficar de fora dessa, né? Anota aí:
HERMANOTEU NA TERRA DE GODAH, DA CIA. OS MELHORES DO MUNDO
:::quando: 6 a 8 de março, às 21h
:::onde: Palácio das Artes
:::classificação: 12 anos
:::preço:
Plateia I: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia entrada)
Plateia II: R$ 90 (inteira) e R$ 45 (meia entrada)