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Divirta-se

Seção : Música - 05/09/2008 11:14

Marcelo Camelo lança seu primeiro disco solo

Álbum sai após um ano e três meses da separação do Los Hermanos. Bem acompanhado, ele não convidou nenhum hermano para tocar

Mariana Peixoto - EM Cultura
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Cia. de Foto/Divulgação
"Dominguinhos foi ao estúdio sem conhecer a música. Na verdade, não me conhecia%u2026 Foi lindo, pois ele foi muito carinhoso comigo"
Marcelo Camelo
O título do álbum é Sou, mas um acento agudo teima em fazer com que a leitura esbarre em Nós. Um ano e três meses depois do último show do Los Hermanos, que marcou a separação, por tempo indeterminado, da banda brasileira mais importante da primeira metade desta década, Marcelo Camelo lança seu primeiro disco solo. As duas leituras que a capa do CD permite são um preparativo para o que vem ao longo dos 55 minutos (em 14 faixas) do álbum. “Ao final, o que se tem é o resultado do processo de gravação de seis, sete meses”, afirma Camelo. Essa afirmativa, óbvia a respeito de qualquer processo criativo, ganha outro sentido depois da primeira audição.

Autor de todas as canções e único produtor do trabalho, Camelo criou um disco sem buscar qualquer linearidade. Sou, no entanto, é coerente em sua (aparente) incoerência: nos silêncios; nos versos (“posso estar só mas sou de todo mundo”, de Doce solidão, primeiro single; “acho normal ver a vida feito faz o mar num grão de areia”, de Mais tarde); na inclusão dos bastidores das gravações em algumas faixas (Janta só termina quando Mallu Magalhães solta um voilà, bem depois de a música ter efetivamente acabado); nos barulhos de mar e gente na praia; nas duas canções de Camelo interpretadas somente ao piano por Clara Sverner, que foram também gravadas por ele somente em voz e violão.

O disco começou a ser feito em novembro. “Tinha algumas gravações de Téo e a gaivota (que abre o disco) e mandei para o Maurício (Takara, baterista do Hurtmold). Ele gravou a música e começamos a ensaiar. Ao longo do processo, deu vontade de tocar com eles”, conta Camelo. Dessa forma, o grupo paulistano de pós-rock tornou-se a banda de Camelo. Além de gravar quatro faixas, ensaia há um mês e meio com ele para acompanhá-lo na turnê, que tem início dia 19, no Recife. Com algumas exceções, voz e instrumentos foram feitos juntos. Por causa do Hurtmold, Camelo se dividiu entre Rio e São Paulo para registrar as canções.

O Hurtmold é apenas uma parte desse álbum. Há ainda a “turma do Rio” (como Domenico Lancellotti, da Orquestra Imperial e da banda 2, com Kassin e Moreno Veloso); formações de cordas e de metais. “Não teve nada disso de assumir tudo. Ainda que todo o crivo estético tenha sempre passado por mim, sinto que estou me dividindo nas pessoas que estão ali. Meu coração está batendo por causa dela”, acrescenta. Nessas horas, o Nós fala mais alto do que o Sou.

O QUE VEM

A turnê de Sou terá início dia 19, no Festival No Ar Coquetel Molotov, no Recife. Belo Horizonte não aparece nas datas do MySpace (www.myspace.com/marcelocamelo), mas a previsão é de que o show seja apresentado em 5 de novembro, uma quarta-feira, no Palácio das Artes. Depois de Salvador, ainda este mês, Camelo toca em 4 de outubro no Cine-Theatro Central, em Juiz de Fora. Ontem, também foram anunciadas sua participação no TIM Festival, em 23 de outubro, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, e no dia 25, na Marina da Glória, no Rio. Em ambas as noites ele vai abrir para Paul Weller. Previsto para chegar às lojas na próxima segunda-feira, o álbum teve atraso e começa a ser vendido somente no dia 15. Mas 10 das 14 faixas já podem ser baixadas no Sonora, do portal Terra.

O QUE FOI

Outro atraso de fábrica foi do CD/DVD Los Hermanos na Fundição Progresso – 9 de junho de 2007, que abre a série Multishow registro. A gravação do último show da banda, exibida na semana passada no canal pago, só chegará às lojas na próxima semana. No dia da exibição, Marcelo Camelo não assistiu ao programa, que durou duas horas e apresentou o especial na íntegra. Sua televisão estava estragada e restou a ele, que acompanhou todo o processo de feitura do DVD, conferir o resultado na tela de um computador.

DUETOS
Reprodução/Sony BMG


E há ainda as duas participações. Mallu Magalhães e Dominguinhos brilham em duetos com Camelo. Voz e violão, Janta foi pensada desde o início para ser dividida com a garota que vem sendo incensada no meio pop. “Como tinha começado a fazê-la, a idéia é de que a Mallu a terminasse. Como ela não pôde, acabei eu mesmo e pedi que ela cantasse.” Na primeira parte, ele canta em português e ela em inglês. No final, os papéis se invertem. Dominguinhos só gravou Liberdade depois de muita insistência de Camelo. “Ele foi ao estúdio sem conhecer a música. Na verdade, não me conhecia, pois não faço parte do universo de interesse dele. Chegando lá, foi lindo, pois ele foi muito carinhoso comigo.”

Estranho em sua diversidade, Sou tem guitarrada (Menina bordada), mas também marchinha (Copacabana, com letra amorosa que fala do Bairro Peixoto, onde Camelo chegou a morar com a família, um lugar em que “os velhinhos são bons de papo”). Los Hermanos? O mais próximo do quarteto que o disco chega é em Mais tarde, gravada com o Hurtmold. Santa chuva, que Maria Rita canta em seu álbum de estréia (2003), ganhou arranjo de cordas (com assinatura de Gilson Peranzzetta) e uma interpretação mais tristonha. Em Doce ilusão, aberta com um delicioso assobio, Camelo canta de forma quase preguiçosa, por vezes quase sussurrando.

Pianista erudita especializada na música brasileira de Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha e Villa-Lobos, Clara Sverner gravou os temas instrumentais porque, de acordo com Camelo, as duas músicas (Saudade e Passeando) foram compostas sob influência dela e de Guiomar Novais. “Sempre fui muito seduzido pelas duas. Tive coragem para convidá-la a participar e, depois, resolvi gravar minhas versões”, conta.

A pergunta é obrigatória, ainda mais pela não participação de nenhum hermano no trabalho. O Los Hermanos volta? “Não dá para afirmar com certeza, mas o que sinto é que nossa parada foi num momento em que dá para preservar a possibilidade de retorno”, sai pela tangente. Camelo não descarta a possibilidade de levar canções da banda para a turnê. Ainda não deu para ensaiar, mas se alguma entrar, com certeza vai ser ao violão. “Não sei direito, estou preocupado com o repertório do disco. A verdade é que vou levando um dia depois do outro. Acordo. E depois decido”, conclui.

Escute a música Doce Solidão do álbum de Marcelo Camelo