Divirta-se Notícia - Omara Portuondo e Maria Bethânia unindo Cuba e Brasil com a música

Divirta-se

Seção : Música - 22/10/2008 11:01

Omara Portuondo e Maria Bethânia unindo Cuba e Brasil com a música


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Stephan Solo/Divulgação
Omara e Bethânia ambientaram o show, com repertório cubano e brasileiro, em belo cenário de Gringo Cardia
Maria Bethânia e Omara Portuondo têm muitas coisas em comum. Consideradas no Brasil e em Cuba intérpretes da alma de seus países, elas conseguiram ir além do fato de serem grandes cantoras para protagonizar um dos mais belos encontros musicais dos últimos anos. Depois de gravarem um disco com repertório cubano e brasileiro, elas percorreram o Brasil (com esticadas em Buenos Aires e Santiago do Chile) com o espetáculo que agora dá origem ao DVD Omara Portuondo e Maria Bethânia – Ao vivo, do selo Biscoito Fino. A base foram as apresentações feitas em Belo Horizonte, no Palácio das Artes, em 4 e 5 de abril.

Com direção de Mário Aratanha, o DVD recupera a emoção do espetáculo, captando o sutil jogo de interpenetração das culturas e de potente e impressionante diálogo. Os dois diretores musicais, Jaime Alem e Swami Jr., ambos brasileiros, parecem tecer com os arranjos e instrumentação uma conversa fácil entre Cuba e Brasil. Com artistas dos dois países, mais que duas bandas, os grupos se tornam parte de uma mesma orquestra, que mostra como os ritmos e timbres das duas tradições populares têm origem comum na matriz africana.

O repertório escolhido por Maria Bethânia e Omara Portuondo é capaz de flagrar outros parentescos. Há temas que mostram a semelhança entre o samba-canção e o bolero; outras canções evidenciam a marca da música de origem rural nos dois países (Caipira de fato e El amor de me bohío); e ainda a presença da tradição dos musicais, com ritmos que lembram o teatro de revista e os cassinos. A canção de origem religiosa está presente na mais bela interpretação do espetáculo, Lacho, de Facundo Rivera e Pablo Miranda, que leva Omara a uma performance emocionante.

O show tem como tema de abertura a canção Cio da terra, de Milton Nascimento e Chico Buarque, cantada em português e espanhol, seguida de Cálix bento, de Tavinho Moura, e Gente humilde, de Garoto, Chico e Vinicius, mais uma vez com direito a versão em espanhol. A seção seguinte tem a marca dos sambas lentos, que aproximam Bethânia do contexto latino abolerado, com canções como Arrependimento (Fernando César e Dolores Duran) e Negue (Adelino Moreira e Enzo de Almeida). A baiana mostra domínio do estilo cabaré/cassino com a divertida Escandalosa (Djalma Esteves e Moacyr Silva).

Omara Portuondo, demonstrando por que se tornou a grande dama que emergiu da onda do Buena Vista Social Club, em momento solo, emenda clássicos da canção de seu país, como Talvez (Juan Formell) e Veinte años (Maria Teresa Veras), para levantar a platéia com Dos gardenias (Isolina Carrilo), maior clássico do repertório dos buena vistas, com o qual encantou o mundo ao lado do grande Ibrahim Ferrer. Bethânia e Omara voltam a cantar juntas vários temas cubanos e brasileiros, com destaque para o samba Só vendo que beleza(Marambaia), de Rubens Campos e Henricão, apresentado com nítida alegria pelas duas.

A parte final do show traz merecida homenagem a Gonzaguinha, com Começaria tudo outra vez e Palavras. Um dos compositores mais identificados com Bethânia, para quem criou grandes sucessos, Gonzaguinha parece trazer um pouco do clima latino-americano, em seu derramamento e falta de vergonha em demonstrar a emoção, que já foi considerado brega e hoje ganha reavaliação. Bethânia, como sempre, sabia das coisas havia muito tempo. Ao final, Guantanamera. Tudo termina bem.

O cenário de Gringo Cardia é bonito e funcional, explorado com sensibilidade pelas imagens. Para um DVD que não deixa de ser promessa de perenizar a emoção de um show, fica faltando material extra (resumido à discografia das duas cantoras). Depoimentos e, principalmente, entrevistas com Omara e Bethânia permitiriam ir além do registro para incorporar um novo patamar de informação e ligação entre as artistas e a música dos dois países.

SENTIMENTO DE FRATERNIDADE

Jô Name/Divulgação; Tatiana Altberg/Divulgação
Flagrantes de Cuba e da baiana Santo Amaro da Purificação: América Latina Social Club
Juntamente com o DVD está sendo lançado pela Editora Nova Fronteira o livro Omara & Bethânia: Cuba & Bahia. O volume de luxo é uma coletânea de ensaios e fotografias que remarcam a semelhança entre os dois países. O curioso é que a inspiração mais forte, as próprias cantoras, não é traduzida em fotos. Omara e Bethânia não aparecem, a não ser como provocação para uma viagem de sentidos, que atravessa os textos e as imagens. O objetivo é flagrar, com palavras e fotografias, o momento em que as almas das duas nações se tocam.

O sentimento de irmandade é estudado nos textos de Frank Padrón e Mônica Waldvogel (os mais longos e informativos do livro) e destacado nos depoimentos mais afetivos de Lya Luft, Nélida Piñon e Arnaldo Antunes. O texto de Bethânia, muito singelo, e o de Omara, mais reflexivo, abrem o livro com delicadeza e humildade. Elas nunca se colocam acima das canções que interpretam.

Frank Padrón percorre os laços que unem os dois países, da música à religião, da alegria à tenacidade dos dois povos, desmontando mitos como o de que os cubanos não gostam de MPB, destacando a boa recepção dos artistas brasileiros e das trilhas de telenovelas. Recorda o trabalho em torno do cinema dos dois países, e o papel de vários artistas e intelectuais interessados no intercâmbio cultural, com atenção especial para Chico Buarque e sua relação com o movimento da Nova Trova. Seu texto, ao final, busca decifrar a impressão causada por Maria Bethânia, “uma atriz que canta”, conhecida em seu país desde os anos 1980. “Maria Bethânia é sem dúvida alguma a quintessência do Brasil, que inspira e encanta”, afirma o jornalista e escritor cubano.

As fotos propõem curioso jogo de adivinhação (Cuba ou Bahia?) e misturam cenários e pessoas dos dois países, que tornam ainda mais indistintas as duas realidades. As cenas de rua em Havana e Santo Amaro da Purificação (na Bahia, terra natal de Maria Bethânia) evidenciam a semelhança no físico dos dois povos, na arquitetura com traços coloniais e em alguns aspectos culturais, como as religiões de origem africana. Tudo que não é cubano é baiano demais.

Veja uma entrevista com Maria Bethânia e Omara Portuondo