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Seção : Música - 13/03/2009 07:00

Lenine apresenta show com repertório inédito


Ailton Magioli - EM Cultura
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Nana Moraes/Divulgação
"O violão passou a ser projeção do meu corpo" Lenine, cantor e compositor
Bernardo, filho mais novo de Lenine, costuma dizer que o pai não tem público, mas seguidores. “Acho isso bacana, porque ele percebeu que as pessoas correm atrás para saber o que estou fazendo, além de esperarem que eu me arrisque e de contar com esse risco”, afirma o cantor, compositor e instrumentista pernambucano. Com a agenda repleta de compromissos no Brasil e exterior, ele chega a Belo Horizonte para apresentação única do show de lançamento de Labiata (o batismo vem de uma espécie de orquídea, que o artista coleciona), nono álbum solo de carreira, cujo repertório é integralmente inédito.

“Com criação nova, a gente tem sempre uma preocupação: quer ver ela andando”, diz Lenine, de 50 anos, ao justificar a apresentação integral do repertório do disco hoje à noite, no Chevrolet Hall. Na oportunidade, os fãs também poderão contar com sucessos e surpresas. Até quarta-feira – último dia da escolha – o público belo-horizontino pôde votar no site oficial do cantor (www.lenine.com.br) ou por e-mail (producaolenine@gmail.com) para a escolha da música que gostaria de ouvir no bis. A eleição, segundo Lenine, invariavelmente recai sobre algum aspecto cultural da cidade pela qual ele está passando. “Em Florianópolis, a música A ponte é um ícone, porque é símbolo da cidade, que liga a ilha ao continente. Da mesma maneira que, no Recife, Leão do Norte é um hino”, conta o pai de João, de 29 anos, e Bruno, de 20, além do caçula Bernardo, de 14, que, oportuna e sabiamente, captou a existência de seguidores do pai no mundo inteiro.

No dia 19, por exemplo, Lenine estará se apresentando pela primeira vez no L’Olympia, de Paris, França, na turnê Europa-África, que se estenderá até 4 de abril, em Cabo Verde, África. Vindo de apresentações no Sul e partes do Sudeste e do Nordeste, o cantor-compositor diz que para não sentir tanto o desgaste das longas viagens, faz turnês no exterior que duram, no máximo, de 25 dias a um mês. Cumprida a agenda lá fora, ele retoma a turnê por aqui, consciente de que o Brasil também é um continente. E há risco de os seguidores brasileiros perdê-lo para os da França, onde se apresenta constantemente, além de já ter gravado CD/DVD ao vivo? Ele reage de bom-humor: “Não há essa possibilidade. A música tem sido uma janela poderosa para que eu possa conhecer outras culturas, outros povos”, explica.

E qual é a expectativa diante da primeira apresentação no L’Olympia, de Paris, por onde já passaram Elis Regina, Milton Nascimento e outros brasileiros, é grande? “Todo palco gera uma expectativa, mas talvez no exterior a França seja um lugar muito parecido com o Brasil, onde tenho público que realmente me acompanha”, afirma, admitindo que já dá para prever que o show no mais tradicional palco da Cidade Luz será uma “festa bonita”. O sucesso entre os franceses, segundo acredita, é produto de uma questão planetária, mesmo. “Acho que tem a ver com o tipo de hibridagem que a minha música tem. Por ela ser assim, tem esse tipo de trânsito bacana em todas as culturas”, garante Lenine, cuja atual turnê prevê apresentações em Portugal (Porto e Lisboa), Espanha (Madri e Barcelona), Suíça (Cully), Itália (Milão), Alemanha (Berlim), Suécia (Estocolmo) e África (Cabo Verde), além da França (Paris).

“A gente tem uma herança romana e, em geral, a compreensão se dá de uma melhor maneira nos países latinos. É assim na Itália, na Espanha, em Portugal, no México e em toda a América do Sul, além da França. Temos a herança latina que nos aproxima”, avalia o cantor, cujo grande prazer é sair pulverizando isso pelo mundo. “É o mais bacana de tudo. Neste processo, a gente termina conhecendo realmente outras culturas, outras formas de expressão, outros povos. E é bacana você olhar o seu país com essa distância”, conclui.

MOMENTO AUTORAL

Labiata é, na opinião de Lenine, tão autoral quanto Breu, trilha sonora que ele fez para o espetáculo homônimo do grupo Corpo. “Sou eu que estou ali”, justifica, salientando que o novo álbum não difere – na atitude, na postura – de nenhum de seus outros discos. “Como venho de dois projetos ao vivo (InCité, de 2004, gravado na França, e Acústico MTV, de 2006), talvez tenha provocado certa confusão nas pessoas”, acrescenta, lembrando que InCité é um disco praticamente inédito, assim como Breu. Em meio aos dois, ainda produziu CDs de outros artistas como Maria Rita, Chico César, Pedro Luís e A Parede, além do cabo-verdiano Tcheka.

“A mecânica de feitura do disco também diferiu dos outros na medida em que incorporei a banda, que há anos está comigo transformando os meus discos em shows”, conta Lenine, salientando que o núcleo básico é formado pelos músicos Jr. Tostoi (guitarra), Guila (baixo) e Pantico Rocha (bateria). Aos que julgam o artista repetitivo no novo trabalho, ele diz: “No fundo, no fundo, sob essa ótica, todo o meu trabalho tem uma coerência, porque tem essa autoralidade. Mas a autoralidade não foi uma busca minha, foi algo que as pessoas passaram a reconhecer”, explica, acrescentando que o processo é orgânico, intuitivo. “Foi no exercício da composição que, de repente, fui aprofundando o cantar, o tocar, o arranjar e o produzir”, salienta, lembrando que o primórdio de tudo é a composição. “Talvez mais da metade do que produzo em termos de composição seja para outros artistas”.

A experiência com o grupo Corpo é destacada pelo artista, ao recordar que chegou a Labiata imbuído da sensação “muito gostosa” que teve ao fazer a trilha de Breu. Lembrando que o coreógrafo Rodrigo Pederneiras foi muito generoso (“disse que era eu quem faria a trilha”), afirma: “Tive uma liberdade muito bacana, gostei daquilo porque fui realmente para o estúdio sem nada, a não ser a ideia de dar subsídios para alguém trabalhar com corpos. Gostei daquele frescor, do lado orgânico em que o estúdio – que geralmente é uma coisa hospitalar – se transformou. Imbuído disso, me impus a fazer algo parecido em Labiata”.

Durante a gravação do novo disco, a cada noite ele esboçava uma canção – forma, estrutura e letra – trabalhando simultaneamente. “No dia seguinte, ia para o estúdio e gravava só com voz, violão e ritmo. Aí esquecia a canção, voltava para casa e fazia outra. Ao fim de 15 dias, comecei a produzir junto com Jr. Tostoi, co-produtor do disco, as canções que geraram Labiata. Assumidamente fiel aos parceiros – “Sofro de uma doença chamada alta fidelidade”, brinca – à exceção de Chico Sciense (Samba e leveza) de quem ele ganhou a letra da irmã Goretti para musicar, todos que dividem a autoria da maioria das 11 faixas de Labiata são constantes na vida de Lenine.

De Paulo César Pinheiro (Ciranda praieira) a Arnaldo Antunes (O céu é muito e Excesso exceto), passando por Ivan Santos (Magra), Lula Queiroga (A mancha), Bráulio Tavares (Lá vem a cidade), Carlos Rennó (É fogo) e Dudu Falcão (É o que me interessa). Sozinho, Lenine assina Martelo bigorna e Continuação. Todos são antigos parceiros que contribuíram para fazer de Labiata aquele que Lenine acredita ser o mais “enxuto” de sua carreira. “É um disco com menos informação. É um recorte da minha vida, hoje. Talvez o disco mais autoral que jamais tenha feito”, afirma, orgulhoso de ter contado com os filhos na faixa que encerra o disco, Continuação.

LENINE & BANDA EM LABIATA
Sexta, às 22h, no Chevrolet Hall, Avenida Nossa Senhora do Carmo, 230, Savassi, (31) 3209-8989. Ingressos: cadeiras numeradas/setor único: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia); pista/arquibancada: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada).


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