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Seção : Música - 24/06/2009 11:27
Zélia Duncan lança o álbum Pelo sabor do gesto
Cantora sela novas parcerias com Zeca Baleiro, Moska e Chico César. Cantora grava duas versões de músicas francesas do filme Canção de amor
Ailton Magioli - EM Cultura
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Autora de Catedral, a versão para Cathedral song, da britânica Tanita Tikaram, com a qual estourou, nacionalmente, Zélia volta a exercitar-se no gênero, desta vez na canção francesa, da qual verteu Boas razões, com a participação de Fernanda Takai, e a própria música-título do CD. As duas canções, de Alex Beaupain, são oriundas da trilha sonora do filme Canção de amor (Lês chansons d’amour), do diretor Christophe Honoré. Ela regravou Rita Lee (Ambição, com a letra original de 1978, feita para a trilha da novela O grito), os irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle (Os dentes brancos do mundo) e o gaúcho Nei Lisboa (Telhados de Paris). Nos dias 4 e 5 de julho, a cantora começa turnê nacional de lançamento do CD, no Teatro Municipal de Niterói, sua cidade natal. Confira, a seguir, trechos da entrevista de Zélia Duncan. Um dos diferenciais de Pelo sabor do gesto, além do ineditismo de parte do repertório, é o fato de você ter escolhido dois produtores – John Ulhoa, de Belo Horizonte, e Beto Villares, de São Paulo. Como se deu a escolha? Na verdade, desde 2000 venho abrindo o leque da minha vida, dos meus parceiros. Então, não me sinto mais uma só. Na verdade, sinto-me muitas e não é à toa que fiz um disco chamado Eu me transformo em outras e acabei sendo chamada para fazer participação em uma banda chamada Mutantes. Quer dizer, abri essa porteira na minha vida. Agora, na hora de fazer este disco, pensei: O Beto já é um cara muito importante para mim, que trabalha comigo há muito tempo. O John é meu amigo há vários anos. John e Fernandinha Takai. E depois que ele fez o disco dela em homenagem a Nara Leão (Onde brilhem os olhos seus), além de eu adorar o Pato Fu, o trabalho chegou para mim como um primor. Aí, pensei que estava na hora de a gente fazer alguma coisa juntos. Tive muita vontade de ter esta marca do John no meu trabalho. Você esteve em Belo Horizonte, gravando no estúdio de John Ulhoa? Exatamente. Corria ali, comprava uma pamonha e voltada para o estúdio. Adoro Belo Horizonte, fiquei aí 20 dias em janeiro e voltei em fevereiro.
No ano passado, quando convidei o John para trabalhar e ele aceitou, propus imediatamente para ele tentar fazer uma música. E mandei para ele a letra (Tudo sobre você), porque não sei trabalhar sobre encomenda. Vou escrevendo ao longo do tempo. Aí, olho o que tenho e começo meio que a distribuir, a pensar em quem vai fazer o quê. E achei que era a cara dele. E acho que acertei muito, porque ele fez rápido e é a música de trabalho do CD, que ficou muito redonda. O John é um cara muito sofisticado e inteligente, que tem um pouco da alma de criança, junto com a maturidade. E a gente percebe isso nas músicas, nos arranjos dele. A gente vê o humor que ele tem em suas produções. É sempre muito bom estar perto dele. A gente se deu muitíssimo bem, temos muitas afinidades. É também curiosa essa sua busca pela própria geração nas novas parcerias. De Chico César a Zeca Baleiro, passando por Moska, com o qual você já vinha trabalhando. Isso é importante para você? Nossa geração foi muito rechaçada. Nos anos 1990, as pessoas começaram a dizer que não tinha mais compositor. A gente sofreu muito, porque viemos depois de uma geração de ouro, que é Caetano, Gil, Edu Lobo, Chico, os homens que mudaram a música brasileira. A gente apareceu na hora em que o rock e a MPB se misturaram, finalmente, porque nos anos 1980 era muito time. Era assim: sertanejo, rock e MPB. E nos 90 tudo se misturou, a gente se sente muito misturado. Por isso a gente não achou lugar nos anos 1980. A própria Cássia Eller, querida, e o próprio Chico Science. Eles misturaram pra caramba. Os Raimundos eram o maior barato quando apareceram. O Rodolfo parecia um repentista. Acho que os anos 1990 propiciaram isso para o Brasil e foi importante para essa geração. Então, achei bonito fazer um retrato 3x4 dessa geração neste disco. Você tem entrado na discussão sobre o fim do disco. O que pensa a respeito do assunto? O negócio é que não é mais como era e acho que não é o que vai ser. A gente está exatamente no meio de alguma coisa, só que tenho a urgência de estar vivendo o hoje, por isso falo sobre o assunto. Já no outro disco, tive um pouco disso, de antes de entrar em estúdio parar e perguntar: “Cara, pra quem que estou fazendo isto mesmo?” E aí, depois de algumas angústias e perguntas, eu disse: “Ah, é pra mim”. Por quê? Porque é o único jeito que sei fazer, é o que escolhi fazer na vida, então não tenho como mudar isso agora. Mas você tem um feedback do seu trabalho? Tenho, mas esse feedback não se traduz, por exemplo, em vendagem. E como o que estou fazendo agora é um produto, por isso me questiono na hora de ele virar o objeto. É uma loucura, dois dias depois de o meu disco ter sido lançado aqui no Rio ele já estava na rede. Eu acho tão engraçado, que prazer estranho esse de o cara pegar a música e botar na rede. Acho que é coisa de geração. Não entendo esse prazer de comprar um disco, correr e botar na rede. É engraçado, no Brasil as pessoas acham que é mágica. Elas esquecem que alguém criou, que alguém produziu, que alguém pagou, que alguém viveu daquilo. Adoro a internet, acho um barato, mas o que questiono, quer dizer, o que me deixa triste, às vezes, é o fato de as pessoas acharem que simplesmente podem se apropriar de uma coisa. Acho isso muito louco. De onde vem sua relação com a canção francesa e a decisão de vertê-la para o português? O DJ Zé Pedro, que é meu amigão e com quem troco muitas informações musicais, também é louco por cinema. Foi ele quem me entregou o filme Canção de amor (Lês chansons d’amour), copiado. É o que a gente chama de pirataria do bem, já que não tinha onde achá-lo. Assisti aí em BH, foi na época do show com a Simone. Poxa, Canção de amor me tocou profundamente. Não é que seja um filme que vai mudar a vida de alguém, mas mudou a minha quando eu o vi. Então, fiquei com o filme na cabeça, mostrando para os amigos. Um dia, estava em casa e pensei em fazer uma versão da música do filme, só para ver como é que é. Porque gosto de fazer versão, mas raramente faço, porque as pessoas têm muito preconceito. Acho bonito você não só traduzir as palavras, mas traduzir um sentimento de uma outra língua para a sua. |





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