Divirta-se Notícia - Mozart Secundino acompanha jovens grupos de chorões da capital

Divirta-se

Seção : Música - 08/10/2009 10:52

Mozart Secundino acompanha jovens grupos de chorões da capital

A vida do músico e vendedor de doces aposentado de 86 anos vai virar filme com lançamento previsto para 2010

Eduardo Tristão Girão - EM Cultura
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Beto Magalhaes/EM/D.A Press
"Quase tudo que toco é improvisado, só conheço as notas" - Mozart Secundino, músico

Ele não é famoso, não compõe, não tem disco próprio, nem site. Mal se lembra das gravações de que participou. O violonista Mozart Secundino de Oliveira é um daqueles exemplos de como a vida de uma “pessoa comum” pode se tornar interessante aos olhos do observador sensível e atento. Um dos chorões mais antigos de Belo Horizonte, esbanja seus 86 anos de saúde no mínimo duas vezes por semana pelos palcos da cidade, quase sempre acompanhado por músicos que têm a idade de seus netos. Vendedor de doces aposentado desde 1986, dois filhos já criados e absolutamente realizado musicalmente, ele terá sua vida contada em documentário filmado por grupo de jovens realizadores da cidade.

Mozart nasceu em Bandeirinha, distrito de Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Chegou à capital mineira aos 11 anos com os três irmãos e o pai, que nunca teve profissão definida, e conseguiu emprego na construção do Bairro Renascença. “A infância foi difícil. Ajudei a assumir o sustento da casa logo que cheguei. Comecei entregando marmita em pensões e, depois, fui carregador de compras no Mercado Central. Também trabalhei num armazém do mercado, no antigo Bazar Americano, e fui sócio de táxi”, lembra. Em seu último emprego, no qual ficou por 20 anos, percorria mercearias vendendo doces.

Segundo filho mais velho, foi o último a se casar, aos 42 anos. Com a mulher, Wilma (ela morreu há 14 anos), teve dois filhos, Mozart e Alana Márcia. O dinheiro para manter a família vinha da venda dos doces, mas, como a música nunca deixou de estar presente em sua vida, contava com auxílio adicional dos cachês que recebia tocando na noite belo-horizontina. Os shows não demoraram a aparecer: pouco depois de estudar apenas três meses de violão com seu único professor, Bento de Oliveira, em 1964, conheceu Waldomiro Constant, que era diretor do regional da Rádio Guarani. “Quando faltava um dos dois violonistas do grupo, ele me chamava. Toquei muito com ele”, lembra. Apresentou-se em casas como Gamela, Adega do Bocage, Convés, Pau & Pedra, Pedacinhos do Céu e Beco do Choro.

Acostumado a acompanhar, parou de solar no violão. Mas não deixou de admirar chorões ousados. “Não é fácil tocar choro. Alguns são difíceis demais. Costumava ouvir o regional do Canhoto tocando na rádio carioca Mayrink Veiga. Queria conhecer esse conjunto. Um dia, fui ao Rio e parei num café em frente à rádio. Nisso, apareceu o Carlos Poyares, flautista do conjunto, e disse que estava indo ensaiar. Faltavam uns 40 minutos para pegar o ônibus, mas a oportunidade de conhecer o regional era aquela. Fui ao ensaio e o Poyares me apresentou a todo mundo. O Dino Sete Cordas estava lá e disse que tocaria para mim Cuidado, violão, segundo ele um choro difícil de acompanhar. Estar no meio daqueles ‘cobras’ tocando para mim foi uma das maiores emoções que já tive”, lembra.

JUVENTUDE

Mesmo inspirado em craques como Pixinguinha, Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim e Abel Ferreira, Mozart revela nunca ter lhe passado pela cabeça a ideia de gravar um disco. Sua maior fonte de satisfação são os jovens chorões com quem se apresenta constantemente. “Essa juventude que está aderindo ao choro também me aceita tocando com eles. Gosto dessa mistura. São jovens, mas de formação elevada. Têm cabeça de adulto. Eles me respeitam muito e me dão muita força. Fico muito feliz. É uma das coisas que me ajudam a viver”, afirma. Atualmente, Mozart toca nos bares A Casa (aos domingos), Bolão (quintas-feiras) e Dalva (ocasionalmente).

Entre seus companheiros frequentes de palco estão Siricotico, Corta Jaca, Piolho de Cobra e Pedacinhos do Céu, além do cavaquinista Waldir Silva. “Toco com quase todos os grupos de choro de Belo Horizonte. Todos me aceitam, felizmente”, comemora. No palco, as diferenças entre ele e os mais novos parecem desaparecer, à exceção de um detalhe: não lê partitura. “Quase tudo que toco é improvisado, só conheço as notas. Mas a turma quase toda toca lendo”, afirma. Isso faz falta, a esta altura? “Eles dizem que não”, diverte-se. Ao final do show, há sempre ânimo para uma cerveja gelada ou caipirinha. Afinal, no dia seguinte, acorda às cinco. “Cinco para meio-dia”, explica.

SALVO PELO PANDEIRO

A rotina de Mozart é tranquila e sem maiores restrições. Vai regularmente ao médico e o único remédio que toma é para controlar a pressão. Não precisa de óculos. Inclusive, renovou a carteira de motorista há pouco mais de um ano. Come e bebe de tudo, mas dificilmente janta: come no máximo até as 19h, para não ter pesadelos. O único episódio mais grave em sua saúde foi um aneurisma abdominal, na década de 1980, do qual se recuperou bem. Detalhe: só conseguiu sobreviver porque havia esquecido um pandeiro no carro de um amigo, que voltou para devolvê-lo, coincidentemente, no exato momento de socorrê-lo.