Todo beatlemaníaco sonha cruzar a Abbey Road, o que 16 artistas e bandas fizeram ao reinventar o som de John, Paul, George e Ringo
Lançado há 40 anos, Abbey Road foi o último álbum gravado oficialmente pelos Beatles. Apesar de Let it be ter chegado ao mercado fonográfico um ano depois, Abbey Road é realmente o canto de cisne da banda, a derradeira obra-prima – dividida conceitualmente em duas partes pelo produtor George Martin –, que viria a rivalizar, ao longo da história, com os igualmente míticos White album, Revolver e Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.
Das sugestões estupefacientes de Come together – composta em sua maior parte por John Lennon para a fracassada campanha eleitoral do guru ácido Timothy Leary, que, no final dos anos 1960, concorreu ao governo da Califórnia contra o ultrarreacionário Ronald Reagan – às intimações “heroinómanas” de I want you (She’s so heavy), sem esquecer o ingênuo escapismo de Octopus’s garden, da definitiva maturação de George Harrison como compositor (Something, Here comes the sun) e das exacerbações românticas de Oh darling, é um trabalho realmente superlativo na discografia dos Beatles. Marco indelével daquele encontro musical que reflete a última vez em que George, Ringo, John e Paul tentaram se mostrar ao mundo como entidade unida, ainda no auge de sua arte.
“Não gosto de pessoas que tentam explicar um álbum”, dizia Paul McCartney, em 1969. “O único jeito de explicar um álbum é ouvi-lo. O álbum se explica por si só, cabe ao ouvinte tirar dele aquilo que deseja. Não há um tema para Abbey Road. Na verdade, nunca houve um tema para nenhum dos nossos álbuns.” Não exatamente amistoso, o comentário, feito dias depois do lançamento daquele que viria a ser o 11º disco de estúdio dos Beatles, vem ressaltar o ambiente tenso que cercava o grupo naquele período.
Infelizmente, no apagar das luzes de 1969, os Fab Four já não existiam. Em seu lugar, restavam quatro sujeitos entediados com a vida, despidos de sua ingenuidade depois de quase uma década de trabalho duro, revezes e adulação global. Na verdade, não só Paul, mas os demais Beatles já tinham esgotado o jogo pop havia tempos. Talvez por isso mesmo eles provavelmente sabiam que Abbey Road se tornaria seu derradeiro manifesto coletivo, seu canto do cisne – especialmente, pelo fato de a gravação ter ocorrido logo depois das não exatamente inspiradas sessões que, em maio de 1970, dariam forma ao álbum Let it be.
Desse modo, como forma de celebrar o mais vendido disco dos Beatles de todos os tempos – e, obviamente, em sincronia com a reedição do catálogo do grupo, em remasterização digital –, a revista inglesa Mojo trouxe encartada na capa de sua última edição o CD Abbey Road now!. Lá, faixa a faixa, de acordo com a disposição original, encontraremos a íntegra de Abbey Road, segundo a ótica de nomes como Cornershop, Gomez, Robyn Hitchcock, The Low Anthem, Broken Records e outros valores da novíssima geração do rock. FAIXA A FAIXA COME TOGETHER – The Invisible Foi com uma sonâmbula versão eletrônica do protofunk-rock de John Lennon que o jovem trio londrino se saiu com a mais irreverente e genial desconstrução de Abbey Road now!. Batidas processadas, uma varredura de teclados diáfanos e vozes incorpóreas vindas do além. SOMETHING – The Leisure Society A canção mais amada de George Harrison ganhou desse septeto do interior da Inglaterra delicado arranjo barroco. Naipes de cordas, ukulele (uma espécie de cavaquinho havaiano), flauta e intrincadas harmonias vocais levam os Beatles para passear em bucólica paisagem rural. MAXWELL’S SILVER HAMMER – Let’s Wrestle Bem, se o próprio Ringo Starr um dia apontou Maxwell’s... como “a pior coisa que jamais gravamos”, não seria o Let’s Wrestle que iria operar um milagre. Ao clima vaudeville do original, esse trio londrino adicionou fartas doses de fuligem lo-fi, mas o melhor mesmo aqui é acionar o controle remoto e passar para a próxima faixa. OH! DARLING – Broken Records Ou como a chorosa balada urrada por Paul na solidão de uma madrugada se metamorfoseou em um funéreo exemplar de pop camerístico. A culpa recai sobre o sexteto Broken Records, espécie de resposta escocesa à musicalidade sorumbática do canadense Arcade Fire. OCTOPUS’S GARDEN – Jeffrey Lewis Nonsense beatle por excelência, essa lenda submarina imortalizada pela voz de Ringo Starr emergiu das profundezas do oceano e foi parar em um beco sujo de Nova York. Cortesia do cantor e guitarrista Jeffrey Lewis, um ícone não cantado da cena antifolk de Manhattan. I WANT YOU (SHE’S SO HEAVY) – Robyn Hitchcock Veterano das guerras ácidas travadas nas trincheiras do underground britânico, Robyn Hitchcock – também conhecido como “os Beatles em um homem só” – tocou todos os instrumentos (até o improvável teremim) e megadistorceu as nuances oníricas de I want you. Curiosidade beatlemaníaca: embora creditada a Lennon-McCartney, a autoria desse hipnótico hard-rock é de John Lennon, com ajuda substancial de Yoko Ono. HERE COMES THE SUN – Charlie Dore A mais ensolarada composição de George recebeu da cantora e compositora ianque Charlie Dore ritmos da tradicional dança hula-hula e guitarra havaiana. Aclimatação perfeita para um idílico pôr do sol, em alguma praia deserta da ilha de Maui. BECAUSE – Martin John Henry Líder da finada banda escocesa De Rosa (pensem nos Pixies em colisão de frente com o Mogwai), John Henry manteve os aspectos neoclássicos do tema dos Beatles – atribuídos pelo próprio John Lennon à Sonata ao luar, de Beethoven. A bela rendição acústica também ostenta aura lom-fi em sua mixagem. YOU NEVER GIVE ME YOUR MONEY – Glenn Tilbrook with Nine Below Zero Na época áurea do grupo pop Squeeze, seus mentores, Glenn Tilbrook e Chris Difford, foram chamados de Lennon & McCartney de sua geração. Sem perder tal referência, Tilbrook se juntou ao veterano grupo inglês Nine Below Zero para uma vigorosa releitura bluesy-rock do original. SUN KING – Gomez Banda inglesa que faz indie rock fundamentado no folk – imaginem Beck cruzado com The Band e terão uma boa ideia do som do grupo –, Gomez gerou um híbrido folktrônico de inspiração lisérgica para retomar Sun king. Curiosidade: as linhas de guitarra do original dos Beatles foram decalcadas do tema instrumental Albatross, do Fleetwood Mac de Peter Green.
MEAN MR. MUSTARD/POLYTHENE PAM – Cornershop Dado o notório envolvimento dos Beatles com a meditação transcendental e a filosofia oriental, nada mais justo que Mean Mr. Mustard (composta por Lennon quando de sua passagem pela Índia, em 1968) e sua irmã, Polythene Pam, fossem reelaboradas neste tributo pela indie band de descendentes hindus Cornershop. Aciduladas guitarras fuzz, percussão provida por tamboura e harmonias yeah-yeah-yeah. SHE CAME IN THROUGH THE BATHROOM WINDOW – Karima Francis Supostamente composta por Paul depois que uma fã invadiu sua casa pela janela do banheiro e roubou uma de suas calças (!), She same in through... ganhou da cantora revelação inglesa Karima Francis uma versão transbordante de melodrama. Piano, cordas rarefeitas e voz para rivalizar com a de Kate Bush em sua melhor forma. GOLDEN SLUMBERS – Blue Roses Derivada de uma canção de ninar composta pelo também teatrólogo inglês Thomas Dekker, Golden slumbers vê Paul McCartney apontando para uma era de magia e inocência perdidas. De acordo, a breve interpretação de Blue Roses – pseudônimo da cantora-compositora Laura Groves – evoca todo o lirismo da versão dos Beatles. CARRY THAT WEIGHT – Noah & The Whale Reflexão de Paul McCartney sobre o fardo que os Beatles tiveram que carregar depois da morte do empresário Brian Epstein, a letra de Carry that weight ainda alude à falência das relações entre os próprios membros do grupo. Valendo-se de recursos melódicos minimalistas, a banda folk rock Noah & The Whale emprestou um toque fantasmagórico ao original. THE END – The Loose Salute Concebido inicialmente como coda para Abbey Road, The end, esse power pop, mereceu de Paul McCartney um registro simplesmente eufórico. Na versão do quarteto inglês The Loose Salute, o arranjo ganhou inesperada formatação neo-gospel, elevando o tema literalmente aos céus.
HER MAJESTY – The Low Anthem Em 29 segundos (batendo, portanto, o original em seis segundos!), o trio The Low Anthem – atual sensação da cena musical indie dos Estados Unidos – revê com irreverência aquela que é a mais breve canção do repertório dos Beatles. Composta por Paul como parte do longo medley do disco, mas descartada pelo próprio, Her majesty acabou incluída – por engano do engenheiro assistente da gravação! – no final de Abbey Road.
Assista a um vídeo raro dos Beatles cantando a música Come Together, em 1969