Divirta-se Notícia - Jovens cantoras se firmam no mercado da música

Divirta-se

Seção : Música - 28/12/2009 13:25

Jovens cantoras se firmam no mercado da música

Cenário empurrou a crise do disco para frente. U2 fez política sem perder o rebolado e Michael Jackson deixou legado de gênio

Ailton Magioli - EM Cultura Mariana Peixoto - EM Cultura
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Cristina Horta/EM/D.A Press
Roberto Carlos foi um cavalheiro e convidou as cantoras para comemorar com ele
No ano em que finalmente tiraram Wilson Simonal (1938-2000) e o seu irresistível suingue da tumba (documentário, biografia, CDs e DVD) e o próprio CD teve a morte adiada mais uma vez, a música popular brasileira saiu-se muito bem. Independentemente de ameaças como pirataria e download, além da concorrência estrangeira e do DVD. Com o mercado fonográfico em frangalhos, artistas de renome gravaram e venderam discos, naturalmente em cifras bem menores do que na época da bonança.

Verdade que Roberto Carlos não lançou o tão esperado disco de inéditas, em compensação o Rei vai continuar comemorando os 50 anos de carreira no decorrer de 2010, depois de lançar em disco (CD e DVD) o show Elas cantam Roberto Carlos, exibido em especial de TV, com cortes. Entre lançamentos simples e duplos – além de Tua e Encanteria, de Maria Bethânia, Ana Carolina também chega ao ano novo com N9ve e Ana Car9lina Um – os chamados medalhões brilharam na cena, com a eterna prevalência das mulheres.

As jovens intérpretes firmaram-se no mercado, com destaque para Céu, cujo incensado Vagarosa parece ter colocado seu nome definitivamente no show business. Este também foi o ano de Maria Gadú, que estreou em disco e que a Rede Globo, exageradamente, resolveu colocá-la em praticamente todas as trilhas de suas novelas. Roberta Sá (Ao vivo – Pra se ter alegria) e Aline Calixto (prêmio de melhor disco popular da Associação Paulista de Críticos de Arte pelo CD batizado com seu nome) também brilharam.

Os rapazes, por sua vez, foram representados por astros como João Bosco, que voltou em grande estilo com Não vou pro céu, mas já não vivo no chão, além de Ney Matogrosso, que fechou 2009 trocando as estripulias do roqueiro Inclassificáveis pelo sedutor e sereno Beijo bandido. Arnaldo Antunes deixou as cabecices de lado e se deu bem numa leitura super original da Jovem Guarda em Iê iê iê. E Otto, sumido há muito dos discos, realizou seu melhor trabalho em Certa manhã acordei de sonhos intranquilos.

Na seara internacional, também só deu elas. Os dois nomes mais comentados do ano – Lady Gaga e Susan Boyle – “aconteceram” por diferentes razões. A primeira, que não canta nada, virou notícia graças ao figurino bizarro e a músicas de um pop dançante que convida para a pista. Até Madonna apontou Lady Gaga como sua sucessora. Já o patinho feio que ganhou o público britânico (e do mundo inteiro graças à internet) com sua interpretação de I dreamed a dream no reality show Britain’s got talent fechou o ano com seu primeiro álbum, que não traz nada de novo, mas que já se tornou o mais vendido dos EUA.

Artistas veteranos lançaram bons trabalhos, caso de U2, Leonard Cohen, Morrissey, Bruce Springsteen, Sonic Youth, Bob Dylan, Kiss e Pearl Jam. Gerações mais novas não ficaram atrás: entre os destaques estão Tonight: Franz Ferdinand, Wolfgang Amadeus Phoenix (dos franceses do Phoenix), Music for men (do explosivo The Gossip) e It’s Blitz (do Yeah Yeah Yeahs, agora com menos guitarras e mais peso nos sintetizadores). Sob todos esses nomes, pairou apenas um, que esteve longe de lançar um novo álbum: Michael Jackson. A morte trágica do ídolo trouxe à tona o que de melhor (sua música, deixada de lado em anos mais recentes devido aos escândalos) e o que de pior (a forma como sua morte foi explorada) ele poderia suscitar.

MARIA GADÚ

A versão para o tango do clássico Ne me quite pas, da trilha de Cinquentinha, por si só já garantiria à intérprete Maria Gadú lugar de destaque na cena musical. O que a paulistaninha tem de melhor, no entanto, está na porção autoral que predomina em seu disco de estreia. Puxado por Shimbalaiê, que ela diz ter composto aos 10 anos, o disco surpreende pelas envolventes criações de Gadú. Por mais que o ecletismo dela lembre Marisa Monte em início de carreira, ela vai da canção (Bela flor) ao samba (Altar particular) com desenvoltura. Oito das 13 faixas do CD Maria Gadú (Dona Cila, Escudos, Laranja, Lounge e Encontro, entre outras) têm a assinatura dela, numa demonstração clara de que a moça não brinca em trabalho. Há muito não se via uma gravadora (Som Livre) investir tão alto em uma estreante.

ELAS CANTAM ROBERTO CARLOS

Por mais que soe uma espécie de “mais do mesmo” pelo desgastado repertório, o disco que marcou os 50 anos de carreira do Rei em 2009 vai ficar para a história pela reunião do elenco feminino estelar em torno da obra do maior compositor popular brasileiro. Se por um lado houve quem não entendesse a interpretação teatral de Marília Pêra (120, 150 200 km por hora )ou até estranhasse a presença da cantora lírica Celine Imbert (A distância), por outro houve quem captasse que Cláudia Leitte (Falando sério) finalmente foi capaz de ir além das bobagens que canta em cima de um trio elétrico, além de se emocionar com Hebe Camargo (Você não sabe). Alcione (Sua estupidez) e Fafá de Belém (Desabafo), estas sim, entendem de canto popular. No mais, o maestro Eduardo Lages cuidou de rearranjar os clássicos para as moças ora interpretarem, ora cantarem simplesmente.

NÃO VOU PRO CÉU, MAS JÁ NÃO VIVO NO CHÃO

A retomada da parceria com o genial Aldir Blanc (Navalha e Sonho de caramujo) e a concretização da dobradinha com o filho (Perfeição, Tanto jazz, Tanajura, Dosnortes e Alma barroca) já seriam suficientes para fazer de Não vou pro céu, mas já não vivo no chão, de João Bosco, um dos melhores discos do ano. O cantor e compositor de Ponte Nova, no entanto, foi além. Com a ajuda do filho, encontrou o tom ideal para os indefectíveis violão e voz e brindou os fãs com aquele que ele mesmo considera o seu disco mais mineiro dos últimos tempos. João ainda estreou parcerias com Nei Lopes (Jimbo no jazz) e Carlos Rennó (Pronto pra próxima e Pintura) e deu interpretação especial para o samba Ingenuidade, de Serafim Adriano. Primeiro de inéditas do artista desde 2003, Não vou pro céu já nasce um clássico, com direito a tudo (melodia, harmonia e ritmo) que o bom samba pode proporcionar a ouvintes mais exigentes.

NO LINE ON THE HORIZON

Um bom disco do U2, mesmo longe de clássicos como The Joshua tree, é sempre motivo de comemoração. No line on the horizon não é revolucionário, mas é um trabalho honesto da maior banda em atividade do mundo. Bono e companhia olharam para trás e reuniram de tudo um pouco do que fizeram em 30 anos de atividade. Get on your boots tem um quê da época de Achtung baby; Magnificent, do supracitado Joshua tree; I'll go crazy if i don't go crazy tonight vai na onda de How to dismantle an atomic bomb. O lado politizado da banda aparece em Stand up comedy, uma das melhores faixas do álbum. O U2 saiu em mais uma megaturnê pelo planeta. Apesar das críticas recebidas dos ambientalistas (o volume da emissão de CO2 acarretada pelos shows equivale a ida e volta a Marte), a banda deve trazer 360 ao país em 2010.

TONIGHT: FRANZ FERDINAND

O grupo escocês há muito deixou de ser visto como mais uma novidade indie. Uma das melhores bandas a despontar nesta década, o Franz Ferdinand, em seu terceiro disco (lançado em janeiro), conseguiu soar diferente mesmo sendo o mesmo. Fez seu álbum mais dançante, mas nem por isso menos roqueiro. A faixa Lucid dreams, com seus quase oito minutos (um pecado para o imediatista mundo pop), mostrou que o Franz Ferd sabe como lidar com a música eletrônica. O começo, com uma pitada dark, vai num crescendo até que a música vire uma grande rave. Psicodelia anos 2000. De quebra, a banda fez um show para poucos e bons em São Paulo, época que aproveitou para anunciar sua nova turnê no Brasil, em março.

THIS IS IT

A tranquilidade que Michael Jackson não teve em vida e nem quando de sua trágica morte ele encontrou alguns meses após o fatídico 25 de junho. O documentário This it it, lançado poucos meses depois, foi a homenagem post morten mais digna que ele poderia receber. O filme que nunca deveria ter existido mostrou um astro absurdamente profissional e totalmente ciente do que o retorno aos palcos (o filme costura imagens dos preparativos do show) iria significar para sua então combalida carreira. Não há melodrama no filme de Kenny Ortega, ao contrário dos especiais de TV exibidos à exaustão quando da morte de Jackson. Apenas uma busca incessante pelo melhor espetáculo que jamais existirá.