Divirta-se Notícia - Pra tocar no rádio

Divirta-se

Seção : Música - 08/01/2010 09:18

Pra tocar no rádio

Marku Ribas grava em Belo Horizonte disco de canções inéditas. Feliz em voltar ao estúdio, o cantor e compositor promete surpresas, mas sem deixar de lado o suingue do samba-rock

Ailton Magioli - EM Cultura
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Maria Tereza Correia/EM/D. A Press
Marku Ribas (D) convidou o trio Ezequiel Lima. Fabinho Gonçalves e e Esdra Neném Ferreira para gravar seu novo disco
Se é samba-rock que eles querem, vão ter. O recado vai principalmente para os jovens, que o descobriram recentemente. Aos 62 anos, 47 dedicados à arte, Marku Ribas percebe certa sobriedade em sua produção. De acordo com o cantor e compositor, isso favorece a elegância. Traduzindo para a linguagem de mercado: a celebrada música de Marku finalmente poderá tocar no rádio.

Ao gravar o esperado disco de inéditas em Belo Horizonte, o rei da polirritmia anuncia: mesmo continuando a fazer canções calcadas na percussão, há um diferencial no repertório que vem sendo registrado no Ultraestudio ao lado dos veteranos Ezequiel Lima (baixo), de 61, e Esdra “Neném” Ferreira (bateria), de 55, além do calouro Fabinho Gonçalves (guitarra), de 34 anos.

Recém-chegado de uma série de apresentações nos principais festivais do país (Calango, Feira de Música do Recife, Música de Todos os Ouvidos, Conexão Vivo e Omelete Marginal), além de temporadas no brasiliense Feitiço Mineiro e na recifense Feira Música Brasil, nessas andanças Marku topou com o compositor e produtor americano Russ Titelman, vencedor de dois prêmios Grammy. Russ, que trabalhou com Eric Clapton, George Harrison, Bee Gees e James Taylor, manifestou interesse de levar o mineiro para Nova York, já na temporada de lançamento do novo CD.

O último disco de inéditas de Marku foi Autóctone, de 1991. Seis anos depois, ele gravou Cor da pele, mas, por falta de patrocínio, o álbum permanece inédito. Apesar de algumas canções do novo CD integrarem o repertório do DVD da série Toca Brasil, organizada pelo Itaú Cultural, Marku Ribas as considera inéditas por causa do alcance ainda limitado do formato.

De Belo Horizonte, onde permanece em estúdio até dia 29, ele vai seguir para Tiradentes, onde faz show na programação musical da 13ª Mostra de Cinema. Enquanto isso, Marku Ribas pode ser visto nos cinemas em “pontinha” marcante no polêmico filme Lula, o filho do Brasil, de Fábio Barreto, interpretando um sindicalista de oposição ao futuro presidente da República.

RENOVAÇÃO A volta às gravações é comemorada pelo cantor. “O estúdio eterniza as intenções artísticas”, afirma ele, destacando a oportunidade de evolução musical e de convivência no espaço que, em sua opinião, possibilita a renovação de ideias. Já o palco – de onde ele não tem saído nos últimos tempos – oferece energia diferente. “Ali, o que importa é o feedback do público, que nós temos de saber identificar para produzir de acordo com o que a plateia quer.”

Personalidade forte e cativante, Marku conquista os companheiros de jornada. “Além de criativa, a música dele é muito rítmica”, destaca o baterista Esdra “Neném” Ferreira. A parceria dos dois remonta a mais de 20 anos, com direito à gravação de disco e turnê internacional. Ezequiel Lima, o companheiro inseparável de Neném na mais famosa “cozinha instrumental” de Belo Horizonte, orgulha-se do privilégio de tocar e, mais recentemente, compor com Marku. “Já fizemos três canções”, anuncia o baixista.

O calouro Fabinho Gonçalves não esconde a admiração pelo trio: “Desde novo, quando ia a shows deles, ficava admirado de vê-los tocar. Poder gravar ao lado dos três é um sonho realizado”. No fim do mês, Marku vai para o Rio, onde receberá em estúdio os músicos João Donato (piano), Raul de Souza (trombone) e Maurício Einhorn (gaita), convidados especiais de seu novo disco, ainda sem nome.

Um samba instigante – que, segundo o autor, faz sentir saudades do lendário baterista Edison Machado – vai abrir o álbum. Trata-se de Aurora da revolução, uma elegia à mulher, que o compositor considera o centro do universo. Representante da polirritmia característica de Marku, em Aristoporindé ele volta a explorar a sonoridade onomatopaica na canção que é uma “verdadeira markuzada”, como diria Ed Motta. Homenagem ao parceiro Luizão Maia (tio do também baixista Arthur Maia), que morreu em 2005, em Altas horas Marku expressa a poesia dos que sabem viver a noite, em clima bossa nova.

O repertório é repleto de temas. No forró Sambatema, ele usa a expressão do cinema para falar de Iracema, atriz que está filmando no mar. O legítimo rock Beverly help faz alusão a outra atriz, amante de um primeiro-ministro inglês e de um agente da KGB. Expressão africana para designar as sublimes mulheres negras, Daomé, de acordo com o autor, é samba à la João Donato, com direito à voz do mestre do piano. A cantora Júlia Ribas, filha de Marku, participa da faixa.

Querobem, querobim é produto da parceria do barranqueiro Marku com o humorista Arnaud Rodrigues, em ritmo do beguine latino. “De um encontro nosso em São Paulo, em 1968, veio a inspiração para essa canção”, revela. Momento intimista do disco, Pas pour çar, cantada em francês, será voz e violão. O sobrinho Anoy Ribas toca marimba de vidro.

Canção beira-mar, Doce vida é homenagem do cantor de Pirapora a artistas como Dorival Caymmi – baiano que, na opinião de Marku, canta o mar com propriedade. “Como morei no Rio e no Caribe, tenho o mar próximo”, justifica. “Às vezes eu deixo de lado a canoa/ e fico à toa neste calor/ só para ficar na rede”, diz a letra do samba dolente. A expressão de cuidado das velhas mães – “o mar não tem cabelo que a gente possa agarrar” – batiza outra canção, que ele classifica como “um groove”.

Finalmente, o esperado samba-rock do disco: Embaixatriz é daquelas que o cantor costuma deixar para tocar nos bailes com o intuito de animar a pista. Além do trombone de vara de Raul de Souza, a faixa deverá contar com a harmônica de Maurício Einhorn.

CICLOS
A obra de Marku Ribas é reverenciada pela nova geração da MPB – do sofisticado Ed Motta ao rapper Marcelo D2. “Essa atenção é, indiscutivelmente, o reconhecimento de meu trabalho original e profissional de 47 anos no palco”, afirma ele, lembrando que a vida é feita de ciclos. “Para os mais jovens, costuma não haver ontem. Alguns até acham que tudo começa com eles. Outros, no entanto, procuram nos sebos e nos arquivos tudo o que foi alicerce para a arte ser plural e disponível a todos”, pondera. Atuante nas telas desde 1969, seu primeiro prêmio no cinema veio no ano passado, pela atuação no ainda inédito Nova bandeira para a nação, de Paulo Marcelo Tavares. O curta-metragem rendeu-lhe o troféu de melhor ator do 3º Festival de Cinema e Vídeo de Santa Maria das Palmeiras, em São Paulo. “Foi o primeiro”, comemora.