Divirta-se Notícia - Mania de Chico

Divirta-se

Seção : Música - 09/01/2010 09:14

Mania de Chico

O cantor Ricardo Nazar comemora seis anos de temporada ininterrupta dedicada ao repertório de Chico Buarque. Apelidado de "Genérico" pelo ídolo, ele é um fenômeno na noite da capital

Ailton Magioli - EM Cultura
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Jackson Romanelli/EM/D.A Press
Ricardo Nazar já levou sombrinha na cabeça por não cantar Yolanda
Hoje à noite, ao subir no pequeno e charmoso palco do Vinnil Cultura Bar, Ricardo Nazar estará comemorando um tento cada dia mais raro na capital mineira. Por seis anos consecutivos, ele canta única e exclusivamente Chico Buarque em temporada de shows realizada no último sábado de cada mês. Em janeiro, a apresentação foi antecipada por questões de agenda da casa. “A princípio, vim para apenas uma apresentação. O convite se renovou para o mês seguinte, depois para o outro, até que se firmou o compromisso”, recorda.

Mesmo chamado de “Genérico” pelo próprio homenageado, Ricardo Nazar não se considera cover: “O que faço é uma homenagem ao melhor músico e letrista do Brasil, além de grande cantor”. Os dois foram apresentados por Milton Nascimento, o primeiro a chamar a atenção do mineiro para o potencial de intérprete de Chico. Nazar, Bituca e Wilson Lopes compuseram A lágrima e o rio, gravada no disco Pietá, de Milton.

Encantado com a nobreza da arquitetura musical buarqueana, ainda na adolescência Nazar se envolveu com a obra do carioca, cujas canções apresentava em serenatas de Pitangui, sua terra natal. De lá para cá, Ricardo Nazar, de 45 anos, conquistou uma legião de fãs e cachê fixo (não revelado) na noite de Belo Horizonte, além de colecionar casos curiosos envolvendo os chicomaníacos.

Com o Vinnil reformulado – pintura, som e decoração acabam de passar por reformas a cargo do arquiteto Astrogildo Ferreira Neves –, o “Genérico” retoma a temporada na casa noturna, prometendo continuar a desvendar os mistérios que envolvem Chico e seus fãs, principalmente as mulheres, sabidamente apaixonadas pela obra do carioca. Detentor de repertório de pelo menos 100 das mais de 400 canções gravadas pelo mestre, Ricardo volta a se apresentar acompanhado de seu violão e de banda formada por experientes instrumentistas mineiros. Entre as canções mais pedidas pela plateia estão Construção, Quem te viu, quem te vê, Valsinha, João e Maria e O que será (À flor da pele).

TREJEITOS
Quase um metro e noventa, olhos castanhos, 84 quilos. Fisicamente, o médico legista Ricardo Nazar pouco lembra o compositor dos olhos de ardósia que faz sucesso entre as mulheres. No entanto, de tanto as pessoas falarem, o próprio cantor mineiro acabou convencido de que seus trejeitos lembram os de Chico. “Principalmente no palco”, diz, orgulhoso. Para se aproximar cada vez mais de seu objeto de admiração e trabalho, ele aprimora respiração, afinação e divisão melódica. O som nasal da voz é natural dele e acabou contribuindo para a surpreendente semelhança com Chico.

“Sempre que posso, ouço discos e vejo DVDs dele”, afirma Ricardo, cujo acervo fonográfico inclui até fitas cassete com entrevistas de Chico Buarque. Apesar dos pedidos, ele se nega a imitar o sotaque carioca do ídolo. Nazar se identifica mais com Chico nas canções ritmadas, nos sambas propriamente ditos. “Ele foi um herói nacional”, garante o mineiro, convicto de que, como compositor, o artista carioca está acima do bem e do mal.

“Além de bonito, ele é carismático, artística e pessoalmente”, revela. A influência chico-buarqueana, segundo alguns amigos de Nazar, ultrapassa a semelhança de timbre. Revela-se também na busca pela perfeição no trato com as palavras.

Depois da estreia fonográfica em 2005, em CD autoral batizado com o próprio nome, no ano passado Ricardo Nazar lançou Ofício, com repertório integralmente inédito. Em seus discos, ele se nega a gravar canções do carioca. Amigo e parceiro da nova safra de compositores mineiros (de Flávio Henrique a Chico Amaral), em seu mais recente álbum ele contou com a participação especial de Ana Buarque de Hollanda, irmã de Chico, em uma das faixas.

Como bom mineiro, Nazar reconhece: está se aproximando do compositor carioca pelas beiradas. Em uma das famosas peladas do time de Chico, o Politheama Futebol Clube, os dois se encontraram pela primeira vez, no Rio de Janeiro. Por meio de Milton Nascimento, teria recebido o seguinte recado do ídolo: “Diz para o ‘Genérico’ que é para ele também dar entrevistas e viajar em meu lugar, além de cantar”.

CHICOMANIACHICOMANIACHICOMANIA


• À exceção do show de hoje (ela está em Florianópolis, visitando uma filha), dona Julieta, de 81 anos, mãe de nove filhos, nunca perdeu uma apresentação de Ricardo Nazar. Chegou a desmarcar a festa de aniversário por causa do show. Ela pode ser encontrada dançando em meio à plateia. Segundo revelou ao “Genérico”, é mais fã dele que do próprio Chico.


• O rapaz pediu: ao cantar Todo sentimento (Chico Buarque-Cristóvão Bastos), Ricardo deveria parabenizar a namorada dele. Naquele momento, no meio da plateia, ela seria pedida em casamento.

• Uma fã do interior de Minas quis contratar show de Nazar. Durante a negociação do cachê, ao telefone, ela perguntou se, em vez de banda, ele não poderia levar apenas a equipe de dublagem para baratear os custos. “Não é dublagem?”, surpreendeu-se a moça, assustada com a voz de Ricardo Nazar, parecidíssima com a de Chico.
 
• Ao fim do show, saindo da casa de espetáculos, uma senhora, de cerca de 60 anos, bateu com a sombrinha na cabeça de Nazar. E explicou: o castigo era por ele não ter cantado Yolanda, canção do cubano Pablo Milanés que ganhou releitura especial de Chico. “Sangrou”, revela o “Genérico”.

• Certa vez, no Vinnil, Nazar bateu o próprio recorde de bis. “Foram seis naquela noite”, recorda-se ele, salientando que Chico já chegou a sete.

• Wilson das Neves e Jorge Helder (baterista e baixista da banda de Chico Buarque), Vander Lee, Túlio Mourão, Juca Chaves, Marina Machado e os irmãos Borges são alguns artistas que dividiram o palco com Ricardo Nazar no Vinnil. Milton Nascimento foi apenas assistir.

• Outra que também assistiu ao show, sem revelar sua presença, foi a cantora mato-grossense Vanessa da Mata. De acordo com Ricardo, ela chegou já no finalzinho da apresentação, acompanhada do percussionista Marco Lobo. “Não sabia, senão a teria anunciado”, afirma o cantor, lembrando-se dos elogios que recebeu da dupla no camarim.

RICARDO NAZAR & BANDA
Hoje, às 23h. Vinnil Cultura Bar, Rua Inconfidentes, 1.068, Savassi, (31) 3261-7057. Sucessos de Chico Buarque. R$ 20 (preço único).