Divirta-se Notícia - Humberto Gessinger lança livro de memórias sobre sua trajetória

Divirta-se

Seção : Música - 16/01/2010 11:28

Humberto Gessinger lança livro de memórias sobre sua trajetória

Casos dos Engenheiros do Hawaii e da vida pessoal dele se misturam em Pra ser sincero

Walter Sebastião - EM Cultura
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Adriane Pitigliani/divulgação
Pra ser sincero, 123 variações sobre um mesmo tema (Belas-Letras), avisa o compositor, cantor e instrumentista Humberto Gessinger, de 46 anos, não traz a história da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii. “É livro sobre a minha trajetória, em tom pessoal e humano, para não cair nas armadilhas do heroísmo do pop-rock”, explica. Não procure lá os excessos que o marketing musical gosta de trombetear.

Quando me convidaram para fazer o livro, estava lendo a biografia do Slash. Em duas páginas, já tinha acontecido mais coisas com ele que em sete vidas minhas”, ironiza Humberto Gessinger, referindo-se ao ex-Guns n’ Roses.

O autor diz ter contado a história dos moleques que criaram uma banda que deu certo, permitindo-lhes continuar surfando na música. Lembra a importância da dedicação ao ofício, sobretudo nestes tempos em que se pode virar celebridade “sem esforço e sem fazer nada”. O texto tranquilo, cuidadoso e formal do compositor e cantor fala de música com identidade, em tom reflexivo e crítico. Foi isso, afinal de contas, que fez dos Engenheiros banda clássica dos anos 1980 e 90.

Criado em 1981 por estudantes de arquitetura (o nome ironiza os colegas da engenharia), o grupo surgiu durante greve universitária. Mas, afinal de contas, o Engenheiros do Hawaii acabou? “Pode voltar em pequenas turnês. Nostalgia é bonito. Mas não é mais a plataforma de lançamento das minhas canções. Sinto-me Pouca Vogal”, avisa Humberto, referindo-se ao duo formado por ele e por Duca Leindecker. A dupla acaba de lançar disco e DVD na praça. O vocalista define, laconicamente, como “briga sem brigar” a separação da banda, integrada também por Carlos Maltz e Augusto Licks. “Foi fadiga de sete anos intensos”, resume.

Humberto nasceu em Porto Alegre. Estudou em escolas de classe alta, porque o pai dava aula nessas instituições. Aos 15 anos, comprou guitarra e amplificador, mas se decepcionou: “Não era um instrumento introspectivo”. Adotou o violão, apaixonou-se pelo chorinho, acabou levado ao jazz e ao rock progressivo. “Ambos deixavam a impressão de que fazer música era algo para a elite, para poucos, um sonho. O que abriu a porta foi a atitude faça-você-mesmo dos punks”, conta.

Em quase duas centenas de canções de Gessinger está soma de rock clássico (dos anos 1960 e 1970), MPB e “MPG” – música popular gaúcha. O compositor não esconde a admiração pela criação elaborada, sensível e popular. E por bons instrumentistas. Tem declarada antipatia pela exigência de urbanidade, cosmopolitismo, figurinos definidos e videoclipes. “Quanto melhor o clipe, pior para a música. Você não consegue mais ouvir a música criando as suas imagens”, explica.

Drogas? “Não acho importante o que penso sobre drogas. Não quero dizer a ninguém o que fazer”, escreve Gessinger. Pop-rock: “A onda é vir, a cada ano, com uma outra banda. Sempre achei empobrecedor. Prefiro artistas que abrem poucas portas e se jogam na sala escura a artistas que abrem todas as portas só para dar uma espiadinha”.

Sexo? “Tenho o raríssimo dom da monogamia. Pelos meus cálculos, só 12,3% das pessoas deveriam se casar. E, dessas, 12,3% deveriam ter filhos – coisa para iniciados. Para mim, é um mistério as pessoas acharem que casar e ter filhos é o caminho normal”, garante.

O tom suave da narrativa revela o interesse dele pela leveza. “É só olharmos para o lado para saber que vivemos momento que pede humildade, falar mais baixo, olhar para dentro, o que leva à introspecção. A cultura ocidental está descobrindo a fragilidade da natureza”, afirma Humberto Gessinger. O gaúcho, vale avisar, continua a mil: no disco do Pouca Vogal, ele brilha sozinho (na faixa O voo do besouro), na canção de Duca Leindecker (Música inédita) e em Força do silêncio, parceria da dupla.

TRECHOS

Mãe – “Eram dela os livros mais bacanas da casa. Grandes, com capa dura e muito mais figura do que texto. Infelizmente, em vez de aprender geografia nesses livros, tomei gosto por gráficos e tabelas. Deve ser o que chamam de efeito colateral. Dona Casilda tem seus mistérios. Um motor que não faz barulho. E anda! Na próxima encarnação, quero ser neto dela.”

Pai – “Quando tinha 12 anos, meu pai adoeceu. Faleceu quando eu tinha 14. Tudo ficou em stand by nesse período, lá em casa. Acumulando poeira. Não deu tempo pra ele me ensinar a fazer a barba. Enquanto meus colegas brigavam com seus pais na saudável busca de identidade, à noite eu colocava os chinelos do meu pai para andar no escuro da casa. Fisicamente não nos parecíamos, mas o som dos chinelos caminhando era igual. Matava um pouco a saudade.”

Estreia – “A banda que montamos para durar uma única noite estava virando uma banda para durar algumas semanas. Tocávamos onde dava para tocar. Onde não dava, também tocávamos. O repertório ia mudando rapidamente, dando lugar a material mais pessoal, saído do velho caderno. Dos bares, começamos a andar pelo interior. Era algo que outras bandas menosprezavam. Ficavam umas tocando para as outras, no mesmo bar. Dizem as más línguas que são necessários 100 guitarristas gaúchos para gravar um solo (um para tocar e 99 para dizer que fariam melhor). Não é bem assim, mas é quase.”

Rebeldia – “Algumas atitudes reforçavam a mistura de teimosia e irresponsabilidade que fazia com que nossas impressões digitais sobrevivessem aos apertos de mãos. É natural que, ao conhecer um artista, a indústria, os críticos e os fãs se perguntem com quem ele se parece. Mas é preciso que o artista se pergunte o que só ele tem. (…) No Sul, éramos a trena pela qual se media o possível sucesso de outras bandas, o que gerava justificados ciúmes. Nunca quisemos ser porta-vozes de nada. Nossa viagem era extremamente pessoal. Mas, infelizmente, nos coube, no Sul, ser a banda que atravessou o Rio Mampituba (na fronteira gaúcha). Era muito pouco e era chato.”

PRA SER SINCERO – 123 VARIAÇÕES SOBRE UM MESMO TEMA
De Humberto Gessinger
Editora Belas-Letras, 288 páginas.
Preço recomendado: R$ 40
Informações: www.belasletras.com.br