Divirta-se Notícia - Juliana D'Agostini lança seu primeiro CD

Divirta-se

Seção : Música - 10/02/2010 10:06

Juliana D'Agostini lança seu primeiro CD

Com programa que traz peças de Chopin e Liszt. Para financiar estudos no exterior, a pianista trabalha como modelo para revistas de moda

Janaína Cunha Melo - EM Cultura
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Marcos Vilas Boas/Divulgação
Juliana D'Agostini vem sendo destacada por especialistas, como o maestro Júlio Medaglia, como uma das promessas da música erudita brasileira

Juliana D’Agostini é um dos promissores nomes da música erudita brasileira ao piano. Jovem, talentosa e bonita, ela concilia os estudos, no país e no exterior, com carreira de modelo, com a qual obteve recursos para ter acesso a prestigiados professores internacionais no início de sua formação. Entre os feitos de expressão, ela chegou às semifinais do programa Prelúdio, da TV Cultura, dirigido pelo maestro Júlio Medaglia. Pronta para realizar concerto importante nos Estados Unidos no fim do mês, ela acaba de lançar CD de estreia, com obras de dois mestres universais – Chopin e Liszt – e avalia que as mulheres têm muito mais dificuldades na já penosa carreira de concertista no país.

Durante um bom tempo fui desacreditada. Muitas vezes passei por situações constrangedoras, de preconceito de pessoas que pensavam que eu não poderia ser uma pianista qualificada porque atuava também como modelo”, afirma a concertista graduada pela Universidade de São Paulo, sob orientação do pianista Eduardo Monteiro. Ela também estudou interpretação pianística no New England Conservatory of Music, em Boston, orientada por Wha Kyung Byun e participou do Academies Internationales d’eté Du Grand Nancy, na França, além de frequentar cursos e master classes de aperfeiçoamento. O ambiente expressivamente masculino torna o desafio ainda maior. “Se é difícil para todos, é muito mais complicado para as mulheres, por causa do preconceito”, reforça.

Nem por isso a pianista desistiu de ter acesso à melhor formação, em busca de qualificação sólida, que não deixasse dúvidas de que ela realmente está disposta a romper paradigmas. Para Juliana, os ensaios fotográficos para editoriais de revistas de moda e divulgação de produtos de beleza representam a solução econômica para sobreviver no exterior, em condições que exigem alto poder aquisitivo. “A vida é muito cara na Europa e essa atividade não me toma mais tempo do que o necessário. Já fiz minha escolha e pretendo continuar estudando para conquistar meu espaço como concertista internacional”, planeja.

Participar do programa Prelúdio, ano passado, contemplou-a em outro objetivo, que é o de demonstrar como a música erudita tem sido cada vez mais apreciada pelos jovens brasileiros. “Este é um gênero para todas as idades e não apenas para os mais velhos, como se imagina. Quando a gente vai para a televisão e se expõe, é uma maneira de mostrar aos pais o quanto é importante incentivar os filhos a ingressar cedo neste ambiente”, diz.

ROMANTISMO O repertório do primeiro CD foi escolhido a partir desta lógica. A seleção de músicas teve como critério a popularidade das peças e as possibilidades de comunicação com o público, não apenas apreciadores da música de concerto. De Liszt ela interpreta Années de Pèlerinage – Suplemento Itália, Noturno nº 3 em lá bemol maior e Estudo de concerto nº 3 em ré bemol maior – Un sospiro. De Frédéric Chopin, Fantasia-Improviso opus 66, Polonaise em fá sustenido menor e Noturno em si bemol menor. Todas elas têm significado especial para a intérprete. “São obras importantes pra mim porque com elas venci concursos e conquistei a credibilidade das pessoas. Venho me dedicando a essas peças há muito tempo”, conta.

Os dois compositores, mestres do romantismo, são referências para a pianista pela determinação com que ambos levaram adiante suas criações. Estudar a biografia deles a auxilia no entendimento do contexto histórico e pessoal em que cada obra foi escrita. “Liszt enfrentou um dilema muito grande porque era religioso, embora não quisesse ser padre. Suas peças são exemplo de superação técnica e emocional. Ele adorava se apresentar e ser aplaudido. Chopin era um pouco mais contido neste aspecto, sua obra é muito expressiva. Ambos são intensos e me identifico com essa qualidade deles”.

Aos 23 anos, Juliana D’Agostini, que começou a estudar aos 5, motivada pelo irmão mais velho e pelos pais, deixa o Brasil nos próximos dias para estudar com o brasileiro Caio Pagano nos Estados Unidos. A pianista paulistana realiza concerto no fim do mês no estado do Arizona e retorna para cumprir agenda nacional. Estão confirmados 15 recitais nas principais salas de concerto do país. Depois dessa temporada, ela pretende se dedicar à gravação do próximo disco.

TALENTO INCOMUM

“Quando criei o Prelúdio, que é um programa de calouros para música clássica, pensei em estimular o surgimento de uma nova geração estudando música de concerto, em vários instrumentos. Minha grata surpresa foi ver que esta geração já existe. Juliana D’Agostini faz parte destes novos rebentos. Ela demonstra perfeito entrosamento com a técnica pianística, tem alto nível de interpretação e talento fora do comum. Com méritos, ela chegou à semifinal. Com certeza, ela tem condições de fazer uma carreira muito bonita se continuar se dedicando, adquirindo maturidade. Ela pode apresentar um nova interpretação para o piano brasileiro”.

Júlio Medaglia, maestro

GERAÇÃO ESPECIAL

“O carioca Eduardo Monteiro está operando uma pequena revolução no piano paulista, moldando uma geração muito especial de alunos. Ele não vê a técnica como um fim em si mesmo, e sim como a maneira de obter os recursos para atingir um determinado resultado musical. Assim sendo, seus pupilos não têm ‘apenas’ dedos ágeis, mas também (o que é mais difícil) ideias na cabeça. Não deixe o preconceito se levar pelo rosto de modelo, ou por sua fala franca e juvenil; de ‘loraburra’ ela não tem nada, como mostra o difícil programa de seu disco de estreia, que ela defende com empenho e convicção”.

Irineu Franco Perpétuo, crítico de música erudita

COM PERSONALIDADE

“Juliana é minha aluna há muitos anos e tem apresentado uma evolução grande. Ela sempre foi talentosa, mas só essa qualidade não é suficiente. O mérito dela está neste desenvolvimento progressivo que tem apresentado. Juliana combina inteligência, beleza e sensibilidade, três características importantes. Dedicada, ela tem bastante personalidade e o mais importante é que continue determinada. Esta é uma área difícil por natureza, em que é preciso muito empenho”.

Eduardo Monteiro, professor e pianista