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Seção : Críticas - 20/02/2009 07:00

Milk - A voz da igualdade - Última trincheira

Filme pode ser visto como drama biográfico ou manual do ativismo

Marcello Castilho Avellar - EM Cultura
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Paramount/Divulgação
Sean Penn interpreta Harvey Milk, o mais célebre mártir da causa gay nos Estados Unidos
Milk – A voz da igualdade, de Gus Van Sant, ficou pronto em meados do ano passado. Ao contrário do que geralmente ocorre com filmes de seu porte, seus produtores e artistas preferiram ser discretos no que se refere a pré-estreias, sessões para imprensa, entrevistas coletivas, participação em festivais. Estava viva na mente de todos a maneira como, em 2004, George W. Bush usara a disputa entre conservadores e liberais para se reeleger à presidência americana. Em 2008, no momento em que cresciam as perspectivas de que Barack Obama fosse eleito, a última coisa que a equipe de Milk queria é que um filme sobre o mais célebre mártir da causa gay nos Estados Unidos produzisse polêmica e atrapalhasse a possibilidade de afastar do governo a direita que persegue os homossexuais.

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Harvey Milk (1930-1978), o herói do filme, teria aprovado a decisão. A trajetória política do “Prefeito da Rua Castro”, como o apelidaram, foi uma seqüência de erros táticos e aprendizados estratégicos, que acabaram levando-o, depois de derrotas em diversas eleições, a ocupar um posto no conselho de supervisores da prefeitura de São Francisco, na Califórnia – o primeiro político abertamente homossexual a ocupar um cargo eletivo no mundo. Se Milk elimina alguns momentos mais polêmicos da trajetória de Harvey, mantém o essencial, tanto no retrato das contradições de seu tempo (o conservador Ronald Reagan, então governador da Califórnia, foi aliado dos homossexuais na luta para evitar a derrubada de uma das primeiras leis a proibir a discriminação por orientação sexual) quanto na percepção de uma ética para a política (a ação de Harvey sempre se apoiou mais nas bases que nas negociações de cúpula).

Confira os horários e onde está passando Milk - A voz da igualdade

Há duas perspectivas principais das quais Milk – A voz da igualdade pode ser abordado. Pode ser visto como um drama biográfico sobre a vida e a morte de um ativista – e para isso, conta com a melhor atuação da carreira de Sean Penn, e com uma excelente reconstituição dos anos 1970 . Pode ser encarado, também, como um filme político, uma espécie de manual do ativismo.

Isso faz de Milk mais um dos filmes que tentam conciliar, no ambiente realista que é o cinema americano, as vertentes dramática e épica da narrativa. Isso não é algo novo – Oliver Stone investigou o caminho em Nascido em 4 de julho; Martin Scorsese deu sua contribuição à pesquisa com Gangues de Nova York; o próprio Van Sant já nos ofereceu Garotos de programa. Milk – A voz da igualdade leva a proposta à frente. Assume integralmente Sean Penn e a identificação que produz no espectador, ao mesmo tempo em que emprega em alguns momentos estratégias de distanciamento ou a estrutura em saltos, para afirmar seu discurso político.

Van Sant é sempre um estranho no ninho da linguagem acadêmica do cinema americano – mas é sintomático que seus dois filmes estruturalmente mais arrojados, Milk e Garotos de programa, tratem diretamente a questão da homossexualidade. Ao mesmo tempo em que investe numa estrutura para o filme político americano, Van Sant investiga, também, os signos que seriam aptos a representar no cinema a causa homossexual: temos, por exemplo, o uso da ópera, como em Filadélfia, de Jonathan Demme, como se as questões da minoria gay só pudessem ser descritas através da intensidade emocional e linguística do melodrama.

Milk – A voz da igualdade está indicado ao Oscar em oito categorias. Não é a primeira vez que Hollywood presta homenagem ao Prefeito da Rua Castro. No passado, a Academia premiou como melhor documentário de 1984 o filme O tempo de Harvey Milk, de Rob Epstein e Richard Schmiechen. Na maré liberal cujo aspecto mais evidente foi a eleição de Obama, contudo, Harvey Milk pode se tornar um ícone dos novos tempos. Outro filme sobre ele, The mayor of Castro Street, está prestes a estrear, segundo o site IMDB. As filmagens de Milk em São Francisco se tornaram uma espécie de manifesto público, com milhares de pessoas se oferecendo para atuar de graça como figurantes – inclusive algumas das personagens retratadas pela obra.

A percepção geral é que a questão homossexual, talvez a última trincheira na disputa pelos direitos civis nos Estados Unidos, volta à ordem do dia, depois de quatro décadas de avanços e oito anos de tentativas conservadoras de impor retrocessos. Quem assistir a Milk pode concluir que já não era sem tempo.

MILK - A VOZ DA IGUALDADE

Indicações ao Oscar

Filme,  diretor (Gus Van Sant), ator (Sean Penn), ator coadjuvante (Josh Brolin), roteiro original (Dustin Lance Black), figurino (Danny Glicker), montagem (Elliot Graham), música original (Danny Elfman)

Assista ao trailer de Milk - A voz da igualdade