Divirta-se Notícia - Uma prova de amor - reflexãor e emoção

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Seção : Críticas - 11/09/2009 07:00

Uma prova de amor - reflexãor e emoção


Marcello Castilho Avellar - EM Cultura
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Warner Bros. Pictures/ Divulgação
Em Uma prova de amor, os fatos vão e voltam ao sabor da memória ou da livre associação de ideias das personagens
Nick Cassavetes começou a carreira de diretor há 13 anos, com um fardo pesado sobre os ombros: ser filho do mais importante realizador independente da história do cinema americano, John Cassavetes, e da musa dos “indies” Gena Rowlands, atriz de primeira e militante da linha de frente na busca do patrocínio para projetos fora dos grandes estúdios. Uma prova de amor, seu filme mais recente, mostra que o Cassavetes mais moço não dilapidou essa herança. O filme, sua obra mais amadurecida, recusa-se a seguir as formas libertárias que a criação de seu pai tomou, mas também se nega a aderir aos cânones da história bem contada ditados pelos grandes estúdios. É possível que John Cassavetes, que morreu antes de Nick se tornar diretor, sentisse orgulho dessa opção: defensor intransigente de uma obra pessoal e autoral, ele provavelmente se decepcionaria com um filho que simplesmente o imitasse, que não tivesse identidade própria; mas também não estaria satisfeito com um herdeiro que aderisse ao sistema de estrelas e estúdios que seu pai passara a vida combatendo.

Uma prova de amor traz, nesse sentido, o melhor dos dois mundos. Agrega, da narrativa tradicional do cinema americano, elementos preciosos, como as estratégias para produzir identificação entre personagens e espectadores, o jogo claro entre intérpretes e câmera – que permite que interpretação e diálogos caminhem lado a lado sem serem redundantes, o crescendo de peripécias e pontos de virada que conduz, inevitavelmente, à catarse. Em compensação, rompe com regras consagradas, permitindo-se uma edição não linear, em que os fatos vão e voltam ao sabor da memória ou da livre associação de ideias das personagens, trabalhando os intérpretes em condições que aceitam a improvisação e dão surpreendente frescor tanto aos momentos líricos quanto às passagens dramáticas, impondo uma história não acabada, frente à qual permaneceremos com algumas dúvidas, que produzirão nossa reflexão. Se apela para as lágrimas em muitos momentos (candidatos a espectadores, podem deixar os lenços a postos), tempera o melodrama com outras passagens, em que soluções narrativas inesperadas e bem-humoradas cortam completamente a pieguice.


Confira as imagens do filme

Ironicamente, o maior achado formal de Uma prova de amor lhe foi dado de presente pelo livro em que se baseou, escrito por Jodi Picoult: a multiplicidade de pontos de vista, em que cada uma das personagens é chamada a defender, nem que seja por instantes, seu olhar e sua convicção diante dos fatos. Mesmo em relação a isso, contudo, Cassavetes tem seu mérito: se, nas origens, esse efeito teria mais o objetivo de propor ao leitor uma abordagem supostamente imparcial dos acontecimentos, no filme ele se torna estrutura fundamental da própria narrativa, responsável por boa parte de sua dinâmica.

O melhor é que todo esse aparato está a serviço de um tema importante por sua polêmica e atualidade. Anna (Abigail Breslin) é uma menina de 11 anos. Nasceu de processos de reprodução assistida, com seus genes selecionados para poder servir como doadora para sua irmã Kate (Sofia Vassilieva, anotem o nome, pois a atuação é brilhante), vítima de uma forma devastadora de leucemia. Só que Anna, supostamente, cansou-se das internações constantes para ajudar a irmã, dos riscos decorrentes de sua missão, da maneira como seus pais Sara (Cameron Diaz) e Brian (Jason Patric) praticamente dedicam sua vida à doente, deixando de lado a filha mais nova e seu melancólico irmão Jesse (Evan Ellingson). Com ajuda do advogado Campbell Alexander (Alec Baldwin), a menina solicita à justiça o direito de decidir sobre seu próprio corpo – ou seja, o direito de decretar a morte de Kate.

Poderia ser um drama familiar comum, uma obra sensacionalista sobre os riscos éticos das novas tecnologias, ou até mesmo um singular filme de julgamento. Nick Cassavetes recusa esses caminhos e oferece, em troca, uma meditação sobre vida e morte, obstinação e renúncia, amor e desprendimento. Se a maior parte dos espectadores sairá do cinema com lágrimas nos olhos, não serão apenas lágrimas de tristeza: Uma prova de amor nos lembra que a qualidade de uma vida é mais importante que sua quantidade, e que uns poucos instantes são suficientes para legitimar toda uma existência.

UMA PROVA DE AMOR -

Confira o trailer do filme