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Seção : Críticas - 09/10/2009 07:00

Bastardos inglórios - Todos os filmes são fábulas

Novo filme de Quentin Tarantino coloca no mesmo plano as histórias que fingem e as que contam a verdade

Marcello Castilho Avellar - EM Cultura
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Paramount/Divulgação
A francesa Mélanie Laurent é uma das heroínas do filme
O título em inglês de Bastardos inglórios, novo filme de Quentin Tarantino (Pulp fiction), dá aos espectadores uma pista que a versão em português não oferece. Inglourious basterds é mau inglês do ponto da gramática normativa, duas palavras e dois erros de ortografia. Por um lado, ele reproduz a pronúncia sulista e interiorana de um de seus heróis, o tenente Aldo Raine (interpretado por Brad Pitt com incomum veia cômica). Por outro, transmite a seus espectadores que falam inglês, antes mesmo de começar a narrativa, a informação de que este não é um filme preocupado com as regras da “boa” gramática da linguagem cinematográfica, ou com a gramática usual da narrativa histórica.

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É o melhor filme de Tarantino em muito tempo. O diretor está inteiro lá – a sangueira e a violência debochadas, a ironia constante, os cortes abruptos que revelam a história ou a imaginação das personagens, a narrativa em capítulos. Mas – primeira piada depois do título – ele começa como se apresentasse obra de outro cineasta, quase realizando um drama convencional, e vai, aos poucos caminhando para os extremos a que estamos acostumados em seus filmes.

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A brincadeira chega ao extremo de nos levar a pensar, em alguns momentos, que estamos assistindo a um filme de guerra, com algum fundamento histórico. Besteira. Bastardos inglórios é fascinado por cinema e só fala de cinema. Coloca o cinema no próprio centro da trama, como espaço físico e conceitual – e não apenas como fonte de uma tradição narrativa. Se fala de guerra e de história, é porque essa referência permanente ao cinema tem como ocupação o filme de guerra e o filme histórico.

O mais divertido na brincadeira é que todo o enredo de Bastardos inglórios poderia ter ocorrido – exceto seu clímax, uma sequência com personagens históricas que a maioria de nós daria um braço para que houvesse sido verdadeira. Não importa se, infelizmente, as coisas não ocorreram, no mundo real, como na película: o filme é uma fábula, nos lembra o tempo todo desse fato, e também que todos os filmes são fábulas, dos que trabalham sobre a reconstituição histórica mesmo se seu enredo nunca ocorreu até os que fingem apresentar ao espectador fatos verídicos. Shakespeare apaixonado não é substancialmente diferente de Gandhi, lembra-nos Tarantino.

Nesse contexto do cinema como leitura ou fraude histórica, ambos os aspectos inseparáveis, chega a ser uma experiência curiosa comparar a maneira como Bastardos inglórios apresenta Adolf Hitler e seus asseclas com o que vimos em obras comprometidas com uma reconstituição, como A queda, de Oliver Hirschbiegel. No filme de Tarantino, eles são arquétipos, são construídos sobre uma ideia coletiva do que teriam sido o nazismo e os nazistas. As personagens de Hirschbiegel só fazem sentido numa tentativa de mergulho profundo na psicologia das mesmas personalidades históricas, e de suas relações com o mundo daquela época. Pelo mesmo processo, é possível debater uma questão cara aos teóricos da interpretação: em Tarantino, temos um trabalho ostensivamente naturalista, em que importa apenas a aparência de verdade – mesmo se em meio à farsa –, enquanto Hirschbiegel e seus intérpretes compuseram realismo da melhor qualidade, em que cada detalhe se encadeia logicamente com todos os outros, num fluxo contínuo de causas e efeitos.

Vale a pena lembrar ainda que, entre os elementos de Bastardos inglórios que são a cara de Quentin Tarantino está seu ritmo alucinante – algo incomum num filme com quase três horas de duração. A origem desse ritmo, como em outras obras do cineasta, está na pluralidade dos pontos de vista de onde ele conta sua história. É como se não fosse apenas a trama que seguisse em frente, mas o próprio espectador, transportado de ponto de vista para ponto de vista, sem um instante de repouso.

BASTARDOS INGLÓRIOS -


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