Divirta-se Notícia - A margem da linha - Documentário ou diálogo entre imagens?

Divirta-se

Seção : Críticas - 23/10/2009 07:00

A margem da linha - Documentário ou diálogo entre imagens?

Filme de Gisella Callas tem a arte contemporânea como personagem central

Marcello Castilho Avellar - EM Cultura
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Cinerama Filmes/ Divulgação

Se assistido apenas como documentário, A margem da linha, de Gisella Callas, vive uma contradição. Seu objeto é a arte contemporânea; a maneira encontrada para registrá-lo e discutir sobre ele se funda nas estratégias mais tradicionais do documentarismo. O público vai encontrar na tela aquela narrativa que alterna imagens do objeto e depoimentos a respeito dele – no caso, obras de arte e fragmentos de entrevistas com os artistas que as criaram ou outros profissionais conhecidos como especialistas no assunto. Ou seja, à primeira vista, A margem da linha, em si mesmo, é a própria negação de seu conteúdo.

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Não que faça muita diferença. Naquele formato convencional do documentário, três fatores são responsáveis pela qualidade: a relevância do objeto, a capacidade de comunicação dos entrevistados (que frequentemente traz implícita a capacidade do documentarista em entrevistá-los), a eficiência da edição. A margem da linha está acima da média nos três quesitos. Não há como negar relevância à arte contemporânea, e a ânsia do público em tentar entendê-la, por si, legitima qualquer obra que proponha caminhos para essa compreensão. Personalidades como os artistas plásticos Regina Silveira e Sérgio Sister garantem não apenas bons discursos sobre o assunto, mas têm carisma suficiente para que suas falas não sejam monótonas. E a maneira como a diretora joga com os depoimentos é exemplar de estratégias para impedir que bons depoimentos se tornem algo estático ou repetitivo.

Ela divide seu filme em blocos temáticos, algo comum no gênero. Só que, em vez de tentar construir o conhecimento do espectador pela acumulação de informações aparentemente coerentes, usa o processo oposto: trabalha quase sempre sobre contradições. No bloco que tenta responder à pergunta “para que serve a arte?”, por exemplo, um dos entrevistados responde, de cara, que “não serve para nada”. Rapidamente, A margem da linha corta para outra resposta, em que alguém fala de uma função da arte como responder a uma necessidade simbólica. No processo, o filme acaba constituindo uma representação adequada da perplexidade de artistas e especialistas frente à questão da arte contemporânea – que não é tão diferente da perplexidade do próprio público comum. E abre ao espectador a possibilidade de construir seu próprio caminho, de escolher quais daquelas opiniões ele considera de acordo com sua experiência pessoal e seu bom senso, quais são apenas curiosidades de intelectuais sem muito o que fazer no mundo.

Esquecendo o documentário, há outra maneira de assistir pelo menos a partes de A margem da linha, aquelas em que Gisella Callas nos propõe uma verdadeira overdose de imagens de obras de arte, as mais variadas, dos mais diversos ângulos, com ou sem a presença da figura humana interferindo nelas. São daqueles momentos em que somos lembrados que o cinema, antes de ser documentário ou ficção, antes sequer de ser narrativa, é cinema, articulação de imagens em movimento atingindo nossa visão. Usando referências que o leitor atual tem boas chances de conhecer, esses momentos de A margem da linha são mais aparentados ao videoclipe e à videoarte que às formas narrativas. Novamente, temos o acerto proporcionado pelo encontro entre objeto relevante e edição: o material é bom, a dinâmica com que a montagem o apresenta transforma-o numa delirante sinfonia de cores e formas. É nesses momentos que A margem da linha realmente se revela e, sutilmente, soluciona o paradoxo apresentado acima: teríamos, na verdade, não um documentário, mas um filme que, usando o documentário como pretexto, investiria no caminho mais delirante aberto ao cinema, o de arte nascida do diálogo entre imagens.

A MARGEM DA LINHA -

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