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Seção : Críticas - 13/11/2009 07:00

Hotel Atlântico - Sabor incômodo

Suzana Amaral estreia road movie que revela, aos poucos, o desconforto do herói

Marcello Castilho Avellar - EM Cultura
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Espaço Filmes/Divulgação
O ator Júlio Andrade interpreta o Artista de Hotel Atlântico, em busca de algo que não conhece
A diretora Suzana Amaral estreou no longa-metragem em 1985, com uma obra-prima: A hora da estrela, baseado em Clarice Lispector. Quase um quarto de século se passou desde então, e ela nos presenteou com apenas dois outros filmes, Uma vida em segredo (2001) e Hotel Atlântico, que estreia hoje. É quase inevitável a afirmativa de que ambos são inferiores àquele filme de estreia. Mas é preciso reconhecer que, mesmo inferiores, são obras singulares, que fogem dos caminhos mais comuns na produção cinematográfica – o que lhes dá, no mínimo, um sabor especial.

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É um sabor estranho e incômodo, sem dúvida. A cineasta se especializou em vidas que parecem pequenas demais para o drama. A Macabéa de A hora da estrela, em Clarice Lispector ou no cinema, é demonstração perfeita de como cada vida humana, por mais insignificante que possa parecer aos outros, é um universo completo. A Biela de Uma vida em segredo vai pelo mesmo caminho – com o detalhe de que busca aquela insignificância quando poderia ter uma existência mais brilhante. O herói de Hotel Atlântico, interpretado por Júlio Andrade, vai além: é artista e já teve a tal existência mais brilhante, mas busca, voluntariamente, uma forma de se anular – deixa de ser Alberto para se tornar, para todos os seus novos conhecidos, o Artista.

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Espaço Filmes/Divulgação
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Na essência, Hotel Atlântico é um road movie, filme de estrada. Como em todas as obras do gênero, a viagem é em dois sentidos, geográfico e existencial. O Artista faz um mergulho profundo rumo ao Sul do Brasil e, ao mesmo tempo, vai fundo em sua personagem. É nesse segundo mergulho que se esconde parte do incômodo que Hotel Atlântico pode provocar. O desconforto do herói não é explícito. Vamos encontrá-lo na paulatina degradação física do personagem e na magnífica atuação de Júlio Andrade, e não nas ações, ou nos diálogos. Somos, assim, confrontados com os sentimentos e suas consequências, não com a palavra ou a realidade física que serviriam como mediadores deles e nos protegeriam de sua força.

Se mediação há, está na bizarra galeria de coadjuvantes que Suzana Amaral nos apresenta. Como é quase tradição nos road movies, são as personagens coadjuvantes que dão cor às cenas e a movem para frente. A cada lugar onde chega, o Artista encontra alguém estranho. Todos querem algum pedaço dele, alguns literalmente. Todas as relações que estabelecem com o herói são ambíguas em algum sentido. É dessa ambiguidade que surge outro traço de Hotel Atlântico que pode produzir desconforto no espectador: a maneira como sua realidade parece borrada, imprecisa, como a nos lembrar que não conhecemos nem a nós mesmos nem aos outros, que o mundo onde vivemos é muito mais instável do que gostaríamos.

HOTEL ATLÂNTICO -


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