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Seção : Críticas - 05/02/2010 07:00

O fim da escuridão - Retorno às origens

Mel Gibson mostra que suas virtudes chegaram à maturidade

Marcello Castilho Avellar - EM Cultura
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Macall B. Polay/Warner Bros./Divulgação
De volta à tela grande depois de oito anos, Mel Gibson é quem segura o suspense de Martin Campbell

Há oito anos Mel Gibson não estrelava um filme. Ao longo desse período, apareceu na TV e fez alguns poucos papéis coadjuvantes, mas ficou ocupado mesmo foi com sua carreira como diretor, realizando A paixão de Cristo e Apocalypto. Para seus fãs, portanto, O fim da escuridão tem um nítido sabor de reencontro. O filme, dirigido por Martin Campbell, sintetiza e atualiza o roteiro de uma minissérie que o próprio cineasta realizou para a TV inglesa em meados dos anos 1980, em que um homem, investigando a morte da filha, aproxima-se cada vez mais de uma incômoda verdade sobre os vínculos entre política, militarismo e riqueza. Só que pouco importam a atualidade do tema ou a eficiência do suspense do diretor: quem segura o filme nas costas é seu astro.

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Mel Gibson é uma personalidade polêmica. Suas posições radicais em relação à política e à religião (apoia alguns dos grupos e ideias mais conservadores da direita americana e da Igreja) lhe angariaram tanto inimigos quanto fãs menos preocupados com a qualidade de seu trabalho artístico que com a visibilidade que ele dá às causas que defende. Em relação à comunidade cinematográfica, contudo, a divisão é menos nítida: até mesmo pessoas que se opõem a ele nas questões políticas e religiosas elogiam seu desempenho como ator ou, eventualmente, como diretor de cinema. Em O fim da escuridão fica fácil ver as razões desse apreço.

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O filme é uma espécie de volta às origens. Embora tenha começado sua carreira em 1976, Mel Gibson conquistou o público em 1979, com Mad Max, de George Miller. Tinha, na época, 20 e poucos anos. Hoje, aos 54, atua em O fim da escuridão. E o obstinado policial Thomas Craven, herói do filme, que luta para descobrir a verdade por trás do assassinato da filha, é, talvez, a personagem mais parecida com Max que ele criou. Os dois partem do mesmo pressuposto: um homem é tão mais perigoso quanto menos tiver a perder – ou seja, o homem que já perdeu tudo é mais poderoso que qualquer outra pessoa na face da Terra. Ao longo das três décadas que separam Mad Max de O fim da escuridão, Mel Gibson interpretou papéis próximos, principalmente em filmes de ação – aparentemente, porque repletos de dureza ou violência, mas, na essência, distantes daquela condição de solidão e força. Max e Thomas são irmãos, possibilidades de um mesmo arquétipo em dois mundos diferentes: um posterior à destruição da civilização (Mad Max), outro contemporâneo das sórdidas alianças que levaram àquele colapso (O fim da escuridão).

Ao longo de sua carreira, Mel Gibson foi acusado de ser mau intérprete, ator de uma cara só, e por aí vai. As críticas sempre esbarraram na frequência como grandes cineastas, como Wim Wenders ou Peter Weir, confiaram em seu carisma e lhe deram bons papéis. O fim da escuridão vai servir, entre outras coisas, para mostrar como estavam errados aqueles críticos. É difícil não se emocionar com Thomas Craven, com a solidão que ele inicialmente não parece perceber, com a dor contida de seu luto, com a fúria que só permanece sob controle porque ele tem uma missão a cumprir. Qualquer intérprete melhora ao longo do tempo. Mas, com frequência, suas maiores virtudes, mesmo quando só se tornam visíveis posteriormente, estão presentes desde o início da carreira. As de Mel Gibson chegaram à maturidade neste filme.

O FIM DA ESCURIDÃO -


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