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Divirta-se

Seção : Mundo Ela - Saúde - 03/02/2010 10:13

Vestido rosa

Por que uma paciente entraria no consultório vestida com roupa de festa?

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Por Dra. Meira

Recentemente, adentrou ao meu consultório às 8h da manhã uma mulher de 52 anos em traje de festa: um delicado vestido rosa adornado com um enfeite de flores, sandálias de salto alto e fino, maquiagem muito bem feita e o cabelo preso em um elegante coque. Minha primeira impressão foi que, após a consulta, ela iria a algum evento festivo, principalmente por se tratar de uma antiga paciente, que sempre vinha à consulta vestindo-se de forma muito básica, às vezes, até um um pouco displicente com a aparência.

Perguntei-lhe o que ela faria após a consulta. A resposta dela foi uma grata surpresa:

- Vesti-me assim para vir à consulta, eu fiz festa para você, vim aqui hoje só para agradecer-lhe, pois você me fez perceber que eu não era doente, apenas estava doente. Agora, sinto-me curada e quis te mostrar o melhor de mim.

Costumo dizer que o consultório nunca é uma rotina, vivo emoções diversas diariamente, mas confesso-lhes que algumas são muito marcantes. Emocionei-me neste dia, e quis dividir este sentimento com vocês. Sabia que não tratava de um mero elogio.

Quando esta paciente chegou em meu consultório, há um ano e meio, veio encaminhada de um médico ortopedista, queixava de muitas dores, e dizia que sua última alternativa era a Clínica de Dor, senão seria submetida a algumas cirurgias, como as queixas dolorosas envolviam coluna, ombro cotovelo e punho, ela tinha vários diagnósticos e várias solicitações de cirurgias.

Sempre parti do princípio: se há muitas articulações "dando defeito", existe algo por trás causando tudo isso. Intervir isoladamente em cada articulação, sem analisar o que está errado para causar a dor ou inflamação, só vai colaborar para que o paciente aumente o processo de adoecimento. Isso, principalmente, porque esse corpo que está adoecend está vivendo algum tipo de estresse. E, nesse caso, precisamos pensar que estresse não é só emocional. Qualquer situação que crie no corpo uma dificuldade de adaptação é considerado estresse.

Um exemplo muito real na clínica de dor é o estresse alimentar e o estresse da falta de condicionamento adequado, além do estresse emocional. Exemplificando, se o corpo não encontra no alimento os nutrientes necessários para ele realizar os seus processos metabólicos, isso gera uma compensação "adoecedora". Esse assunto daria um livro e não apenas um texto; mas voltemos à minha bela paciente de vestido rosa, que quando chegou trazia fraturas em vários pilares da saúde: o do pensamento, da postura, da respiração e da alimentação.

Pouco a pouco fomos cuidando (eu e ela) de cada pilar e o resultado, não foi apenas ausência de dor, e sim, um ganho de vitalidade e alegria. Eu penso que o trabalho médico é esse. Não é só realizar um procedimento, mas, sim, entender o processo de adoecimento e cuidar do indivíduo. Vivemos um modelo de medicina muito fragmentado. Essa forma de tratar acaba sendo a expectativa do paciente também. Exames, procedimentos,mais procedimentos...e por aí vai, analisando pedaços, sem conhecer o ser.

Deparar-me com a delicadeza desta paciente; que não só assimilou a idéia do tratamento, como investiu nele com mudanças de atitudes e hábitos, mas demonstrou a felicidade em reconquistar a saúde com tanta criatividade e veemência, foi muito gratificante para mim.

Isso reforça minhas convicções de que vale a pena investir no ser humano para termos um mundo mais saudável e sustentável, pois o modelo de saúde vigente focado em muitos procedimentos é muito oneroso e, estes gastos nem sempre se convertem em benefício de saúde para o paciente. E quase sempre lesam demais...

Deixo-os com a reflexão que saúde não é um evento, mas uma construção diária com cuidados simples.

*Dra. Meira Souza
Médica especialista em Tratamento da Dor
e Construção da Saúde.
CRM/MG 27345
www.clinicameira.med.br