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Seção : Arte e Livros - 20/11/2008 09:14
Larry Rohter lança livro de reportagens sobre o Brasil
Pivô de crise com o governo Lula, em 2004, jornalista do New York Times põe a política em segundo plano e defende a cultura brasileira
João Paulo - EM Cultura
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Casado com uma brasileira, Larry Rohter não pode ser acusado de não gostar do Brasil, embora não baixe a guarda. Para provar, ele lança o livro Deu no New York Times (Editora Objetiva, 416 páginas, R$ 39,90), reunião de reportagens publicadas entre 1999 e 2007. “Minha motivação foi falar a minha verdade, minha visão do Brasil, minha experiência pessoal. E, de certa maneira, rebater a propaganda que me pintava como bicho-papão”, afirma. Ele faz questão de explicar que não se trata de um livro sobre política. Rohter insiste que o melhor do Brasil é a cultura e a criatividade do povo em questões que vão da economia à tecnologia. O livro é dividido em cinco partes e apenas uma é dedicada a questões políticas. Larry Rohter prefere tratar de música, de hábitos da sociedade brasileira e da Amazônia. O resultado é um retrato crítico do país. Isso nada mais é que a tarefa básica de qualquer jornalismo, brasileiro ou norte-americano. Na entrevista a seguir, Larry Rohter fala de Brasil, de imprensa, cultura e dos desafios do governo do presidente eleito de seu país, Barack Obama. Que balanço você faz de mais de 30 anos de relacionamento com o Brasil? Pisei pela primeira vez no país em 1972. Faço um balanço positivo, ainda que todo mundo se lembre apenas do episódio de 2004, com o presidente Lula. Mas aquilo foi passageiro e já está resolvido. O caso teve, pelo menos para mim, um final feliz. O fato não mancha as experiências positivas que tenho vivido no país como jornalista e mesmo como residente. O que você aprendeu com o caso? Que lição acha que o governo tirou daquela situação? Não sou a pessoa ideal para falar pelo governo, mas tomara que ele tenha aprendido a evitar situações constrangedoras e não caia mais na mesma atitude. Da minha parte, aprendi várias coisas. Em primeiro lugar, que as instituições democráticas funcionam. Foi graças à Justiça e à imprensa que consegui ficar no país, por meio de uma liminar e das reclamações da imprensa sobre a atitude do governo. Ainda que muitos colegas tenham discrepado da matéria sobre Lula, a imprensa atuou em nome dos valores democráticos. Há também um ensinamento negativo, que aponta para certa hipocrisia, como se houvesse dois pesos e duas medidas. O brasileiro pode falar das mazelas do governo, mas o gringo não, ele não pode tocar nessa ferida. Não aceito isso, tenho o mesmo direito que o brasileiro de escrever e criticar. E um colega meu, brasileiro, deve ter o mesmo direito de criticar o Bush ou o Obama em meu país. Como você vê o jornalismo brasileiro? Ele tem mudado, dá sinais de evolução? Mudou sim, em alguns sentidos positivos e em outros nem tanto. Quando cheguei ao Brasil, durante a ditadura militar, ainda com pouca experiência profissional, fiquei muito impressionado com a resistência de alguns jornais e revistas. Com o fim da ditadura, chega uma época diferente, com outros valores. A imprensa aproveitou algumas oportunidades, mas não todas elas. A imprensa brasileira de hoje é um mar de mediocridade com ilhas de excelência. Sei que parte dos problemas não reside no jornalista. Ele quer trabalhar, quer fazer jornalismo investigativo. Às vezes, o problema é de orçamento, o relacionamento do dono do jornal com políticos locais ou nacionais. No passado, ser jornalista era algo mais que uma carreira, era vocação, pois o profissional sabia que não ia ganhar muito dinheiro e ia sofrer muitas pressões. Ele precisava ser um tipo especial de pessoa. Hoje é apenas mais uma carreira. Se você fosse correspondente de um jornal brasileiro nos EUA, que pergunta faria ao presidente Barack Obama? A questão fundamental seria sobre o etanol. Se Obama vai ou não revogar as barreiras e os subsídios aos produtores de etanol de milho dos EUA. Ele, na certa, iria tentar se esquivar da pergunta. É um abacaxi. Sou de Illinois, nasci em Chicago, sou primo de fazendeiros com plantações de soja, milho e trigo, conheço o problema. Os interesses em torno do etanol são poderosos. Obama vai ter de encontrar um caminho. Além disso, o novo presidente vai enfrentar problemas enormes, duas guerras – sendo uma delas completamente burra – e a economia quase em ruínas. Vai ter de priorizar problemas fundamentais: resolver a questão do Iraque e recuperar o crescimento econômico. Avaliando o trabalho dos correspondentes em seu país, o que o brasileiro não conhece dos EUA? Às vezes, acho que os correspondentes brasileiros nos EUA têm uma visão um pouco desatualizada. O país mudou muito. Voltei em março para fazer a cobertura da campanha e encontrei coisas que me surpreenderam. O correspondente estrangeiro chega com visão muito influenciada pelos filmes de Hollywood e pelos romances. A realidade é muito mais complexa. Para citar um exemplo: para alguns colegas brasileiros, o fato de o americano votar em um presidente negro era algo impensável. A vitória de Obama, a maneira como ele surgiu os pegou de surpresa. Ainda existe aquela idéia de que os EUA são um país racista. É claro, existem bolsões de racismo, mas o país tem mudado muito. A vitória de Obama é uma prova – não vou dizer que chegamos lá – de que estamos avançando. Gostaria de ver esses avanços referidos no trabalho da imprensa brasileira. Um dos temas que você destaca nas reportagens de seu livro é a Amazônia e a tendência a ver a região sempre a partir de uma certa teoria da conspiração, da cobiça internacional. A idéia principal é que nós, estrangeiros, não cobiçamos a Amazônia. Existem muitos grupos e governos bem-intencionados que querem ajudar o Brasil a proteger a Amazônia. É muito difícil controlar tudo que ocorre lá, é tudo muito grande, distante dos grandes centros. Toda ajuda precisa ser vista com bons olhos. É claro que há alguns elementos cuja visão, crítica e antipática, não contribui em nada. Não querem ajudar, mas apenas criticar o Brasil. O importante, hoje, é encontrar vias de trabalho em conjunto. Você se mostra um apaixonado pela cultura brasileira. O que mais o atrai nesse campo? Em primeiro lugar, como conto no livro, sou filho de músico, meu pai foi regente de orquestra de jazz e saxofonista. Percebo o mundo por meio da música. O Brasil, musicalmente, é uma superpotência. Não falo apenas da bossa nova, do samba, dos tropicalistas e da MPB, mas em todos os sentidos. O brasileiro é músico nato, tem a mais diversa forma de expressão musical que conheço. É uma delícia. Tenho vários amigos que se impressionam muito com a música brasileira e que, por isso, querem conhecer o país. E além da música? A cultura brasileira é sua glória, sua maior realização e melhor cartão de visita no mundo. Há uma safra de grandes diretores de cinema, uma nova geração de escritores com trajetória impressionante. Em setembro, a propósito do centenário de morte de Machado de Assis, fiz matéria sobre a crescente popularidade da obra do escritor no mundo de língua inglesa. E não é só Machado de Assis que chama a atenção: tem Guimarães Rosa, Clarice Lispector e, mais recentemente, Moacyr Scliar, de quem gosto muito. Atualmente estou lendo a tetralogia de Márcio de Souza sobre a Amazônia do século 19. Como você avalia a gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura? Muito positivamente. Ele conseguiu um orçamento maior, e isso é bom para o Brasil. Talvez nos EUA a cultura não precise de apoio do Estado, mas aqui ajuda muito. O principal no trabalho de Gil foi a aliança com o movimento digital. Isso é algo que já se podia prever em suas canções, não apenas nas atuais, mas desde os anos 1960. Gil tem pensado muito em tecnologia e fez alianças muito proveitosas para o Brasil. Além do artista e do ministro, acho a figura humana de Gilberto Gil extraordinária. Nos anos 1970, depois de sua prisão no Rio, quando se dirigia a Salvador para buscar suas coisas e partir para o exílio em Londres com Caetano, em pleno vôo, em meio à tristeza, ele compõe uma canção cheia de afeto e amor, Aquele abraço. É um sinal da generosidade de espírito do Gil. Como gostaria que seu livro fosse lido? Minha motivação foi falar a minha verdade, minha visão do Brasil, minha experiência pessoal. E, de certa maneira, rebater a propaganda que me pintava como bicho-papão. Não sou uma pessoa que odeia o Brasil. O livro tem uma visão equilibrada, falo das mazelas, mas falo também das conquistas na cultura, na economia, na ciência, na tecnologia, no progresso político. Não é um livro sobre Lula. Não é sobre política. São cinco capítulos e apenas um é sobre política. A política não pode ser a essência da cobertura jornalística de um país como o Brasil. Queria mostrar para o leitor americano a diversidade da experiência brasileira, a criatividade em todos os sentidos, da cultura à economia. Quero que o leitor entenda que o livro é abrangente, muito mais amplo que apenas política. DEU NO NEW YORK TIMES
De Larry Rohter Editora Objetiva, 416 páginas, R$ 39,90 |


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