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Seção : Arte e Livros - 24/11/2008 09:36

Igreja em Mariana reúne obras de Francisco Vieira Servas

Comparado a Aleijadinho, o artista português ainda é pouco conhecido pelo público

Sérgio Rodrigo Reis - EM Cultura
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Eugênio Gurgel/divulgação
Detalhe do trabalho executado por Francisco Vieira Servas no altar da Igreja de Nossa Senhora do Rosário
O português Francisco Vieira Servas (1720-1811) encontrou na Minas colonial o ambiente propício para criar arte sacra de rara beleza. Em seus 91 anos, com produção cercada de peculiaridades, deixou sua expressiva marca em várias igrejas mineiras. “Ele veio para o Brasil como um artista barroco e se adaptou às novidades locais, integrando rapidamente o rebuscamento e o refinamento ao estilo rococó vigente, caracterizado pela leveza”, explica Adriano Ramos, integrante do Grupo Oficina de Restauro e autor do livro Francisco Vieira Servas e o ofício da escultura na capitania das Minas do ouro. Desconhecido do grande público, em breve o escultor ganhará museu de referência, em Mariana.

A escolha da cidade histórica foi estratégica. Dentro da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, instalada no topo de uma colina, Servas deixou obras-primas no altar-mor e em dois altares laterais. Sua obra reúne aspectos estilísticos que o distinguem de outros artífices, como a arbaleta, elemento de arremate em movimento sinuoso, altamente refinado. Na imaginária, chamam a atenção a largura idêntica dos lábios, nariz e olhos, além da terminação em “s” dos cabelos na testa das imagens.

Eugênio Gurgel/divulgação
Imagens refinadas, marca registrada do artista português
Além de contar com precioso acervo próprio, a igreja deverá abrigar no consistório, acima da sacristia, exposição de peças até então desconhecidas, pertencentes ao Museu Arquidiocesano de Mariana. As lacunas serão preenchidas por banco de dados virtuais.

O Museu Servas deverá ser concluído em etapas, nos próximos três anos. Atualmente, o projeto é analisado pelo Ministério da Cultura. Posteriormente, bens móveis serão restaurados, a exposição permanente organizada e a recuperação da parte arquitetônica da igreja executada. A iniciativa envolve a arquidiocese e a Prefeitura de Mariana e o Instituto Flávio Gutierrez (IFG), responsável pela edição do livro dedicado ao escultor.

“O projeto resgata a obra desse artista importante, propõe um contraponto ao Museu Aleijadinho, em Ouro Preto, e visa a diversos públicos – não só ao turista, mas também à comunidade da paróquia, que ajudou a manter o local em bom estado”, explica Célia Corsino, diretora de museologia do IFG.

Eugênio Gurgel/divulgação
Igreja de Mariana guarda acervo importante de arte sacra
A proposta não é nova. Em 1998, logo depois de assumir a administração da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, em Mariana, o padre Giovani Luís da Silva se impressionou com o acervo pertencente a templos sob sua responsabilidade. “Servas deixou na Igreja de Nossa Senhora do Rosário as obras mais primorosas. Sempre achei que ali poderia abrigar um museu. Nossa tentativa é de realizar um tributo ao artista por tudo que ele deixou em Minas”, afirma.

A suntuosidade e o refinamento dos trabalhos chamam a atenção. “É uma escultura que concorre em qualidade com as de Aleijadinho. O resgate é importante”, diz padre Giovani. A colecionadora Ângela Gutierrez concorda: “Temos artistas únicos em Minas e, entre eles, Servas é destaque, pois produziu obra de extrema erudição”. Há pouco tempo, o português passou a ser mais conhecido. “Antigamente, toda imagem que aparecia era de Aleijadinho. Agora, vira e mexe, surge novo trabalho que tentam atribuir ao Servas”, conta ela.

CONHEÇA O ARTISTA

Nascido em 1720 nas proximidades de Braga, Norte de Portugal, Francisco Vieira Servas deixou a Europa para trabalhar em Minas Gerais, a região que mais produzia ouro no mundo. A primeira notícia de sua atuação por aqui é de 1751, na Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Catas Altas do Mato Dentro. Na época, ele era oficial de outro grande escultor, Francisco de Faria Xavier. Com a morte do mestre, em 1769, ele assumiu o restante da decoração do templo.

Em 1790, o vereador do Senado da Câmara de Mariana Joaquim José da Silva relatou para a rainha de Portugal, dona Maria, a grande movimentação artística que ocorria em Minas. Ele destacou a atuação de Francisco Vieira Servas no entalhe e na execução de imagens.

Em 1770, o escultor português iniciou a construção dos altares da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Mariana, considerados obras-primas. Nos cinco anos seguintes, dedicou-se a esse trabalho. Também chama a atenção a atuação de Servas em igrejas de Ouro Preto, Congonhas e Sabará. A efervescência e a autonomia da Minas colonial foram fundamentais para que deixasse de lado influências barrocas portuguesas, aculturando-se em Minas. “Ele se adaptou às novidades e ao estilo rococó vigente”, explica Adriano Ramos.