Divirta-se Notícia - Menos arte no Centro

Divirta-se

Seção : Arte e Livros - 01/08/2009 10:57

Menos arte no Centro

Instituto Moreira Salles anuncia encerramento das atividades em BH. Espaço na Praça Sete mantinha, há mais de 10 anos, programação de ponta em artes plásticas e literatura

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Euler Júnior/EM/D. A Press
Prédio tombado na Avenida Afonso Pena tem seu destino incerto depois do fim das atividades do Instituto Moreira Salles
Belo Horizonte perde um centro cultural que parte da população pode até nem ter entrado, mas conhece bem: o Instituto Moreira Salles (IMS), que vai funcionar até dia 31, quando fecha definitivamente suas imponentes portas. Situado na Avenida Afonso Pena, 737, praticamente na Praça Sete, não há como deixar de ver as bandeiras anunciando exposições, penduradas na fachada de prédio, que também chama a atenção pela arquitetura. O IMS foi inaugurado em 29 de setembro de 1997, com exposição da Coleção Unibanco, em evento comemorativo ao centenário de Belo Horizonte. Ao longo das últimas duas décadas, ficou conhecido como espaço para exposições de artes visuais, além de ter desenvolvido também importante programação de literatura e música.

O triste anúncio de encerramento das atividades foi feito por Flávio Pinheiro, superintendente executivo do instituto. Ele conta que também se encerram as atividades da sede de Porto Alegre e que continuam funcionando as do Rio de Janeiro, São Paulo e Poços de Caldas. “A decisão deve-se a motivos puramente econômicos. O mundo mudou desde a eclosão da crise financeira e as despesas com a manutenção, apesar de não serem enormes, são consideráveis e acabaram limitando o funcionamento do instituto”, explica. “Prezamos Belo Horizonte, assim como Porto Alegre, e a nossa intenção é continuar, no futuro, ação cultural a partir de nossos acervos, mas em parceria com museus e instituições da cidade”, afirma.

Flávio Pinheiro explica que o fechamento das sedes mineira e gaúcha do IMS não se deve à fusão do Unibanco e Itaú. “O IMS vive de dotação integral da família Salles e não tem vínculos, além das boas relações, com o Unibanco”, explica. Ele observa que a união das empresas só consolidou “situação de completa independência” que já existia anteriormente. Segundo o executivo, ainda não foi definido o que será feito com o prédio do Moreira Salles de Belo Horizonte. É imóvel de 1925, tombado pelo patrimônio histórico municipal em 1994, construído para ser sede do Banco do Brasil e incorporado posteriormente pelo Banco Moreira Salles, hoje Unibanco, em 1953.

 Ao longo da última década, o espaço marcou presença na vida cultural de Belo Horizonte pela excelência de sua ação cultural. Realizou mostras antológicas de autores históricos da fotografia brasileira, como Marc Ferrez (1843-1923), além de exposições de artistas plásticos modernos e contemporâneos, como Portinari, Artur Piza, Mário Zavagli e José Alberto Nemer. Também de grande significado foi a programação de lançamento dos cadernos de literatura da instituição, dedicados a escritores como Guimarães Rosa, Adélia Prado, Jorge Amado, João Cabral de Mello Neto, Raduan Nassar e Lygia Fagundes Telles, entre outros.

Artistas lamentam a perda


“Para nós da fotografia é uma perda enorme. O IMS, desde que surgiu, realizou mostras de referência no setor, apresentadas com padrões de excelência em todos os aspectos”, afirma Eugênio Sávio, curador do projeto Foto em pauta, lembrando que a instituição é dona de uma das maiores coleções de fotografia “do Brasil e do mundo”. Seções preciosas do acervo foram apresentadas em Belo Horizonte com regularidade. Igualmente importante, observa, foram cursos de história da fotografia e de preservação de acervos fotográficos, com a presença de Sérgio Burgi, o coordenador da área de fotografia do instituto, reconhecida autoridade no assunto. “Foram contribuições para formação de novos fotógrafos e ações que definiram uma presença marcante do IMS em Belo Horizonte”, frisa.

Outro fato que faz o fechamento do IMS ser uma perda irreparável para Belo Horizonte, de acordo com Eugênio Sávio, é o fato de o imóvel estar no Centro da cidade, em área que estava se configurando como corredor cultural a partir da inauguração do Museus da Artes e Ofícios, anúncio de reabertura do Cine Brasil e processo de implantação de diversos espaços culturais. “Torço para que outras empresas adotem o prédio e façam dele um novo espaço cultural”, sugere.

 O artista plástico Mário Zavagli, que fez mostra no local, também ficou surpreso com a notícia e acha incompreensível a decisão. “Creditar o fato à crise mundial é injustificado, já que as despesas não são tão altas assim”, observa. “O local tem espaço amplo e projeto artístico muito interessante, que fazia a produção circular por grandes cidades brasileiras”, analisa. Zavagli conta que sempre achou estranho o adiamento de reformas anunciadas, como as que previam um segundo andar e auditório. Acha irônico que o fechamento ocorra paralelamente à fusão das duas grandes instituições financeiras (Itaú e Unibanco), “o que deveria significar ampliação e não encerramento de atividades”.

“É uma notícia muito ruim em todos os sentidos”, afirma Thaís Pimentel, presidente da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte. “É espaço que a cidade ganhou, pautado pela excelência das atividades, que garantiu ao cidadão acesso a exposições que talvez não tivessem outro lugar tão adequado para sua realização”, observa. Ela lembra que se trata de instituição de importância inquestionável no cenário nacional, pela capacidade de se articularem atividades culturais em cidades importantes. “Já há alguns anos está ocorrendo nova ocupação do Centro, restaurando a dignidade do lugar, e o Instituto Moreira Salles foi um dos pioneiros neste processo de entendimento da necessidade de requalificar nossas metrópoles”, completa.

Despedida

O último evento do Instituto Moreira Salles será a exposição do fotógrafo Alécio de Andrade (1938-2003), que vai ser aberta ao público terça-feira, às 19h. Trata-se de amplo painel da obra de fotojornalista brasileiro que integrou a equipe da Agência Magnum, além de ter realizado trabalhos para Manchete, Elle e Newsweek. Entre as atrações da mostra, série de retratos de personalidades: os artistas plásticos Salvador Dalí e David Hockney, o estilista Pierre Cardin, o diretor de teatro Peter Brook, o cineasta Glauber Rocha e os filósofos Simone Beauvoir e Jean-Paul Sartre. A mostra traz extensa lista de fotos de escritores, como Jean Genet, Ernesto Sábato, Susan Sontag, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, entre outros.