Divirta-se Notícia - Livro conta a história de Kurt Cobain e do Nirvana

Divirta-se

Seção : Arte e Livros - 23/11/2009 10:36

Livro conta a história de Kurt Cobain e do Nirvana


Mariana Peixoto - EM Cultura
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Mark Seliger/Rolling Stones
Kurt Cobain se matou em abril de 1994, mas até hoje muita gente se pergunta o que realmente o levou a um ato tão extremo
Ainda que com muito atraso, o momento é adequado. Em 2009 completaram-se 20 anos do lançamento de Bleach, mais os 15 da morte de Kurt Cobain. E não custa nada lembrar que neste fim de década os primeiros passos para o revival dos anos 1990 começaram. Ou seja, o Nirvana continua na ordem do dia. É o que vem provar Cobain – Dos editores da Rolling Stone (Editora Spring, 142 páginas, R$ 49,90) que ganha edição brasileira uma década e meia depois de lançado no mercado norte-americano.

Banda que anunciou a chegada da década de 1990, desconcertou o meio fonográfico com sua ascensão fulminante e terminou cinco anos depois do primeiro disco de forma trágica, com o suicídio de Kurt Cobain, continua prolífica em produzir material. Tanto é que este é o terceiro livro sobre Cobain e sua banda a ter edição nacional – sem contar um livro produzido no país –, material muito superior ao de grupos com uma trajetória mais extensa.

A bem cuidada edição foge das biografias convencionais, ainda que conte toda a história do vocalista e guitarrista do princípio ao fim, por uma simples razão: o material foi compilado dos arquivos da revista Rolling Stone, a partir do momento que o nome do grupo passou a figurar na publicação. E o livro não economiza nas imagens, trazendo fotos históricas tanto de Cobain quanto do universo que o rodeava – incluindo aí os companheiros de banda Dave Grohl e Krist Novoselic; da mulher, Courtney Love, e da filha, Frances Bean; dos companheiros de geração (Pearl Jam, Mudhoney, Alice in Chains, Soundgarden, Hole etc.); da Aberdeen natal e da Seattle que se tornaria meca do rock produzido naqueles anos principalmente por causa do Nirvana.

Nos Estados Unidos, a edição nasceu com a morte de Cobain, que se matou com um tiro de espingarda no rosto, em abril de 1994, em sua casa em Seattle. Como é explicado na introdução, dada a importância de Cobain e a dimensão que sua morte tomou, a revista resolveu ir além de uma edição em sua homenagem. Depois da repercussão que a revista teve com a dita edição, acrescentaram outro material, como a última entrevista de Cobain e um ensaio publicado no New York Times, além de cronologia, discografia e lista de turnês. Entre os autores, estão nomes conhecidos dos leitores da revista, como Anthony De Curtis, David Fricke, Greil Marcus e Michael Azerrad, autor de biografia do Nirvana. Textos mais antigos trazem comentários e observações dos autores, que fazem inclusive correções no texto original.

REVISÃO

Um exemplo é a crítica de Nevermind. Divisor de águas não somente para o Nirvana, mas com sucesso comercial que levou o grunge ao chamado mainstream, o álbum foi visto primeiramente pela revista como um candidato ao fracasso. “Com exagerada frequência, as bandas underground desperdiçam sua vitalidade em discos que não estão preparadas para fazer e assim gastam sua energia e inspiração em viagens extenuantes”, escreveu Ira Robbins, em 1991. Em 1994, fez um mea culpa: “Meu prognóstico comercial falho deixou claro o motivo pelo qual certas pessoas não nasceram para trabalhar em gravadoras”.

Duas extensas entrevistas estão entre os pontos altos do livro. No fim de janeiro de 1994, dois meses e pouco antes do suicídio de Cobain, David Fricke encontrou-se com o músico. Descobriu uma pessoa ainda atormentada pelas consequências do sucesso e dos excessos, mas que estava tentando superar a fase difícil com algum otimismo. Na primeira vez que o viu para a entrevista, achou-o no camarim brincando com a filha, então com 1 ano, e bebendo água. O músico afirmou, naquela entrevista, que, por causa do problema crônico no estômago, estava tentando manter distância das drogas e buscando melhorar a dieta.

Também reveladora é uma entrevista concedida por Courtney Love à revista no fim de 1993. Foi uma longa negociação para que a então líder do Hole falasse, já que ela passou a evitar a imprensa desde o malfadado artigo da Vanity Fair, que, no ano anterior, a acusou de usar heroína durante a gravidez – e que quase fez com que o casal perdesse a guarda da filha. A autora da entrevista, Kim Neely, conversou com Love pelo celular durante uma viagem de ônibus de uma turnê em que ela acompanhava o Nirvana. O bate-papo, iniciado à noite, só terminou às 6 da manhã. “Quando fui me deitar naquela manhã, lembro de ter pensado que Courtney Love merecia muito mais crédito do que as pessoas pareciam lhe dar”, escreveu Nelly.

Menos musical, mas nem por isso menos revelador, o texto A estrada que vem do nada, de Mikal Gilmore, descreve Aberdeen, a miserável cidade no estado de Washington onde surgiu o Nirvana, em 1987. Conversou com antigos professores e colegas, bem como visitou lugares em que Kurt Cobain viveu. Chama a atenção o retrato que o autor fez da ponte North Aberdeen, onde Cobain viveu durante um período, no inverno de 1985. “Você pode aprender muitas coisas ruins quando é obrigado a dormir embaixo de uma ponte em sua terra natal, e algumas delas talvez fiquem dentro de você até o dia de sua morte.”

“Eu só saía com fracassados. Seja como for, é tipo o meu padrão. Então, foi uma grata surpresa o meu marido se tornar bem-sucedido, mas não era algo que eu esperava.” - Courtney Love, dezembro de 1993

“Sei que vamos lançar mais um disco, pelo menos tenho uma boa noção sobre o que ele será: meio etéreo, acústico, como o último álbum do REM. Se eu pudesse compor algumas músicas tão boas quanto as deles… Eles lidam com o sucesso como se fossem santos e continuam oferecendo música de alta qualidade.” - Kurt Cobain, janeiro de 1994


TAMBÉM EM PORTUGUÊS
. Come as you are: A história do Nirvana, de Michael Azerrad (Editora Madras, 2008)
. Mais pesado que o céu: Uma biografia de Kurt Cobain, de Charles R. Cross (Editora Globo, 2002)
. Kurt Cobain: Fragmentos de uma autobiografia, de Marcelo Orozco (Editora Conrad, 2002)

Vídeo raro mostra o Nirvana tocando Negative Creep ao vivo em 1989