Divirta-se Notícia - Biografia revisita a vida de Padre Cícero

Divirta-se

Seção : Arte e Livros - 23/11/2009 16:57

Biografia revisita a vida de Padre Cícero

O jornalista Lira Neto detalha a vida de um dos personagens mais controversos do país

Luisa Brasil - Portal Uai
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Credito Glauco Spindola/DP
Estátua de 27 metros do Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, mostra que sua imagem continua forte no Nordeste


Charlatão, maldito, santo, milagreiro, conservador, embusteiro. Ao longo dos anos, adjetivos não faltaram para descrever o caráter de Padre Cícero, um dos mais controversos e famosos personagens do Nordeste brasileiro. Rejeitado pela igreja e idolotrado por fiéis de todo o país, o Padim Ciço teve uma vida marcada por polêmicas, que foi revisitada pelo Jornalista Lira Neto na biografia “Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão”, lançada recentemente pela Companhia das Letras.

 

Não são poucos os títulos que se debruçam sobre a vida de Padre Cícero, entre livros e trabalhos acadêmicos. Mesmo sabendo disso, Lira Neto resolveu seguir adiante com seu projeto quando conseguiu um grande volume de informações sigilosas, com uma fonte no Vaticano, e cerca de 900 cartas do padre, que estavam sob guarda da Arquidiocese do Crato.

Lira afirma que não tentou dar um parecer sobre o caráter de Padre Cícero, e sim oferecer um relato isento e com o máximo de elementos para que cada um possa entender o personagem em toda sua complexidade. O livro veio em boa hora, já que, após mais de oitenta anos, a Igreja Católica abriu um processo para rever a reabilitação do religioso, um ato político que revela as tentativas da instituição de barrar o crescimento vertiginoso das religiões protestantes. Em tempos de perda de fiéis, pode ser realmente perigoso ignorar uma massa de cerca de dois milhões de fiéis que se reúnem anualmente em peregrinação a Juazeiro do Norte, para mostrar a devoção pelo padre.

A via crucis de Padre Cícero começou quando um suposto milagre aconteceu numa igrejinha do Juazeiro, em 1889. Uma beata afirmou que a hóstia oferecida pelo padre havia virado sangue em sua boca. Foi a partir daí que as opiniões à seu respeito se polarizaram. Para a massa de fiéis, Cícero era santo, para as autoridades eclesiásticas, um embusteiro, e por isso a Igreja decidiu excomungá-lo. Para Lira Neto, a decisão da Igreja veio revestida por um preconceito, um eurocentrismo comum na época,  já que a alta cúpula da Igreja não poderia admitir um milagre em uma região tão insignificante como o Cariri:

"A Igreja naquele momento nao podia admitir que um padre e uma beata, na periferia do mundo, ainda mais uma beata negra e analfabeta, pudessem ser protagonistas de um milagre. Existe até uma frase do reitor Chevalier em que ele diz que 'Jesus não vai sair da Europa pra fazer milagre no sertão do Brasil'", afirma o jornalista. 

No inquérito de 500 páginas ao qual Lira teve acesso, o povo nordestino é sempre descrito com adjetivos pejorativos, como fanático e ignorante.

 

Cícero e Virgulino

Credito Glauco Spindola/DP


Impedido de executar atividades sacerdotais, Padre Cícero ingressou na política, se envolvendo em mais polêmicas. Com um caráter conservador e nacionalista, ele se aliou às oligarquias locais e conseguiu permanecer no poder como prefeito de Juazeiro, chegando a ser eleito deputado federal. Foi durante essa época que ele teve um encontro com o 'cabra' mais procurado do Nordeste, o líder do cangaço, Lampião. O célebre encontro se deu a partir de uma proposta do governo federal, que lutava para conter o avanço da Coluna Prestes.

"Historicamente se atribuiu a responsabilidade deste encontro ao Padre Cícero e o Floro Bartolomeu, que conduzia sua carreira política. Mas os documentos deixam muito claro que essa ideia não partiu nem da cabeça de um nem de outro, e sim do Palácio do Catete."

Na cúpula do Catete, a ideia era de formar milícias para conter o avanço da Coluna no Nordeste, que poderiam ser integradas pelos cangaceiros. A reunião se deu na calada da noite, para que a oposição não crucificasse Padre Cícero. Lampião recebeu dele armas, dinheiro e a patente de capitão. O ataque a Prestes, no entanto, nunca aconteceu. Lampião viu que o documento lavrado na reunião não tinha validade oficial, e assim decidiu continuar como fora-da-lei. 


Amargura

 

Ao contrário do que diz a música de Tim Maia, Cícero não morreu cego, surdo e pobre. Segundo Lira, ele realmente morreu quase cego, acometido por uma catarata, mas ao longo da vida acumulou um vasto patrimônio em terras e fazendas, adquiridas principalmente através de donativos de fiéis, que eram usadas muitas vezes para acomodar retirantes prejudicados pela seca. 


A Igreja sempre condenou o enriquecimento de Padre Cícero, às custas dos fiéis, mas ironicamente,  foi a maior beneficiada depois de sua morte. Antes de sua morte, Cícero deixou em seu testamento várias terras para a ordens religiosas, incluindo o Bispado do Crato, e para padres Salesianos. Segundo Lira, essa foi uma última tentativa de aliviar uma amargura com a qual conviveu durante toda sua vida:

"Ele tinha a esperança de que esse último gesto significasse a sua reabilitação, sua reintrodução no seio da Igreja. Ele passou a vida inteira com essa marca, com esse estigma que o atormentava bastante. Ele queria morrer em paz com a Igreja, que se apossou da maior parte dos bens do padre, mas deixou que ele morresse proscrito."

 
Serviço:

 

Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão

Lira Neto
Companhia das Letras

A partir de R$ 49,00