Divirta-se Notícia - Nuno Ramos se destaca na arte, literatura, cinema e música

Divirta-se

Seção : Arte e Livros - 24/11/2009 11:15

Nuno Ramos se destaca na arte, literatura, cinema e música

Artista plástico reconhecido internacionalmente vem a BH nesta quinta-feira debater a arte contemporânea

Walter Sebastião - EM Cultura
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Auremar de Castro/EM/D. A Press %u2013 21/2/08
Para Nuno Ramos, o artista precisa superar a tendência moderna à especialização, para revelar elementos poéticos no coração do real
Quem chega a Belo Horizonte para conversa com o público sobre sua obra, quinta-feira, às 19h30, na Casa Fiat, é o paulista Nuno Ramos, de 49 anos. Ele é, reconhecidamente, um dos mais importantes artistas plásticos brasileiros, já tendo mostrado seus trabalhos em importantes exposições internacionais. É autor que desliza com declarado prazer por diversas áreas, recebendo reverências dignas de nota. Com o livro O, o quarto publicado, por exemplo, acaba de ganhar o Prêmio Brasil Telecom de Literatura, um dos mais importantes do Brasil. Sozinho ou em parceria com outros artistas dirigiu quatro curtas-metragens. É, ainda, autor de canções já gravadas por Gal Costa, Rômulo Fróes e Mariana Aydar.

“Sou uma alma errante”, avisa Nuno Ramos. A diversidade responde por desejo de fazer arte de um modo mais livre. “Vivemos em época que os artistas viraram especialistas. Gostaria que meu trabalho fosse bater em outro lugar, fosse algo mais desgovernado”, acrescenta. E garante que não tem nada contra – e até admira – quem se dedica a mergulhar num único campo. E sonha com atividades que ainda não experimentou. Admira atores e quer fazer algo com eles. “Gosto muito de arquitetura. Com a quebra dos universais modernos, a imaginação voltou na área com força. Talvez a arquitetura esteja se reconciliando com as artes plásticas”, especula, lembrando processo histórico que separou drasticamente as duas práticas.

Passar sempre de uma linguagem para a outra é técnica para trabalhar com menos compromissos e pesos. “Acho rico trabalhar contra a especialização”, afirma, sem esconder incômodo com contexto onde tudo é explicação. Mania que tomou, inclusive, a cabeça dos artistas. “Arte é um buraco nessa discurseira absurda que o mundo se meteu e que é uma forma de controle. O desejo é que a arte seja potente para oferecer pontos poéticos, que mostrem que a vida pode ser diferente deste mundo claustrofobicamente ciente de si mesmo”, acrescenta.

O gosto pelo múltiplo vem acompanhado por uma ressalva: “Não dá para fazer literatura com a desculpa que se é artista plástico. Você tem que ouvir o chamado dela”, pondera. Não esconde que, muitas vezes, a sedução pelas diversas artes tem até aspecto dramático. Às vezes ele fica procurando “uma raiz poética” comum a tudo que faz. Em uma retrospectiva, teve medo das coisas ficarem incongruentes e já viu curador francês achar que a exposição individual era de dois artistas. O que não chega a ser um dilema, já que, observa, no mundo das artes há “magos da metamorfose”, como Picasso, que sempre trabalhou contra o que era campo conquistado. “Mas o bom é quando uma novidade cutuca as outras obras realizadas, retoma algo que é de outro trabalho”, explica.

AMADORISMO E LIBERDADE

Nuno Ramos vê em seu procedimento aspectos que aludem também ao contexto artístico brasileiro. “É lugar que, por um lado, tem traços amadores fortes. E, de outro, permite fazer arte com liberdade, bem solta – basicamente faço o que quero”, conta. “Mimetizo essa potência que existe em meio a tantos desastres. Fazer arte no Brasil é muito bom, a dificuldade é que o feito não se institucionaliza, não vira valor, acervo, museu. E se perde”, critica. Conteúdos? “Minha obra é um nasce e morre de sentidos. Vou testando o mundo onde vivo, experimentando sentimentos por vários meios”, responde a contragosto.

A figura dominante, explica Nuno Ramos, é de artista plástico – “meu dia a dia é ateliê, fazer propostas de exposição, enviar obras etc”. Mas, “persona forte”, é ofício de escritor, que vem desde que ele era menino, foi interrompido na adolescência e depois retomado. “Muitas obras existem na interseção de vários elementos. A canção e o cinema são linguagens que não me pertencem com a mesma intensidade. Adoro colocar letra em música, toco violão, mas sou pouco talentoso, não sei harmonizar. Mas me divirto muito”, conta. Os filmes, explica, são obras de artes plásticas que só podiam ser feitas com este meio.

Movendo tudo, observa Nuno Ramos, está o aprendizado que veio das artes plásticas: “Elas me ensinaram que tudo tem um corpo, uma matéria, que você tem de negociar o sentido com o mundo físico”. Experiência mais tênue quando diante das palavras. O artista plástico conta que o Prêmio Brasil Telecom mexeu com ele. “Fiquei espantado e orgulhoso. Me vejo entrando no mundo da literatura e estou chegando a ele muito feliz”, observa. “Foi um voto em mim”, completa. “Agora preciso arrumar mais tempo para ler, o que é essencial, e saber o que acontece a minha volta. Vou me esforçar”, completa.

CRIADOR SEM FRONTEIRAS

Instrumentos musicais encravados em blocos de pedra-sabão. Textos literários “impressos” nas paredes com vaselina. Uma estrutura de metal coberta com fina camada de gelo. Alegorias, físicas, do fazer artístico no que ele tem de atrito entre a forma e o informe, entre o ato e o tempo que a corrói. Imagens antológicas que Nuno Ramos apresentou, em Ouro Preto e Belo Horizonte, nas diversas ocasiões que esteve em Minas Gerais. O artista é escultor, pintor, desenhista, cenógrafo, ensaísta, cineasta e escritor, formado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

As atividades artísticas começaram em 1983, em meio à crise com a literatura. O ponto de partida foi o ateliê Casa 7, criado com Paulo Monteiro, Rodrigo Andrade, Carlito Carvalhosa e Fábio Miguez. O trabalho inicial foram pinturas. Depois vieram grandes relevos pictóricos, superfícies feitas a partir da aglomeração de diversos materiais. Mais recentemente, o artista tem proposto ambientes ou peças cujo diálogo entre materiais e referências leva a movimento pendular, sensorial, entre a criação e destruição de sentido.

Nuno Ramos já mostrou suas obras em alguns importantes museus no Brasil e no exterior (como o de Arte Moderna de Nova York ou o Ludwig, em Colônia, Alemanha). Participou das bienais de São Paulo, Veneza, Índia, Havana e da trienal de Nova Délhi. Esteve nas mostra Latin american artists of the twentieth century (apresentada em várias instituições europeias), Por que Duchamp? (Paço Imperial/RJ) e Ultrabaroque (Museu de Arte Contemporânea de San Diego, EUA). Tem publicado Cujo, O pão do corvo, Ensaio geral e O. Venceu concurso na Argentina para monumento em homenagem aos desaparecidos.

NUNO RAMOS
No projeto Arte em dez tempos. Quinta-feira, às 19h30, Casa Fiat de Cultura, Rua Jornalista Djalma de Andrade, 1.250, Belvedere, (31) 3261-1501. Entrada franca.