Divirta-se Notícia - Alex Fischer cria série com desenhos de bueiros do mundo

Divirta-se

Seção : Arte e Livros - 11/01/2010 09:59

Alex Fischer cria série com desenhos de bueiros do mundo

Alemão radicado na Holanda, artista está em Belo Horizonte para mostra que terá abertura nesta terça, no Espaço 104

Gracie Santos - EM Cultura
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Beto Magalhães/EM/D.A Press
Alex Fischer faz cópia de bueiro na Pampulha. O desenho integrará a exposição em Belo Horizonte
Rua Ministro Guilhermino de Oliveira, esquina de Avenida Otacílio Negrão de Lima, Pampulha, BH, Brasil, 16h34, 6/1/2010. A anotação no verso do papel (Fabriano, 200 gramas, com 100cm x 100cm) registra a obra criada pelo alemão residente em Amsterdã (Holanda), Alex Fischer, de 41 anos, para a exposição Decalque de Bueiros do Hipercentro de BH. A mostra, que terá abertura amanhã, às 19h30, no Espaço 104, integra projeto que o artista vem desenvolvendo há 10 anos, e engrossa a extensa linha do tempo criada por ele. Com técnica chamada rubbing (cópia de objeto em relevo feita por meio de fricção, no caso em papel, com grafite 9B), ele produz sua série de manhole covers ou bueiros – uma das 21 palavras em português que Alex aprendeu.

Veja fotos de Alex Fisher trabalhando em BH

A ideia do trabalho surgiu em Lisboa, Portugal, durante uma exposição que visitou, em 1999. “Fiquei muito impressionado com um bueiro feito especialmente para o evento. Não pude acreditar. Era a coisa mais bonita da mostra. Então, pensei, como posso levá-lo para casa? Eu realmente queria aquilo.” Surgiu assim o projeto da cópia. “Um objeto muito pesado (em média, 60 quilos) tornou-se muito leve (200 gramas de papel).” O processo é simples, não leva mais que 10 minutos. Alex chega ao local escolhido (só desenha bueiros redondos), limpa a tampa com uma escova de engraxar sapatos. Mede o chão e faz marcas que o ajudarão a centralizar o papel, cuidadosamente preso por fita crepe. Abre o estojo de grafite e começa a cópia.

A série mostrada em conjunto enriquece a proposta do artista. Ele gosta de exibir os desenhos em longa extensão, para valorizar o conjunto e permitir comparações. “O primeiro trabalho foi o de Lisboa. Levei-o para Amsterdã e fiz uma série na Holanda. Coloquei todos na parede e percebi como era interessante vê-los juntos. Só colocando-os lado a lado você pode ver a diferença. Depois disso, fui a Nova York (EUA), a Berlim (Alemanha); então pude ampliar o leque de comparações e isso foi muito interessante”, conta. E qual seria, por exemplo, a diferença entre as tampas de bueiros de Amsterdã e as de BH? “Em Amsterdã, são apenas duas companhias fazendo as tampas; há um monopólio. O design é sempre o mesmo, o que é muito cansativo. Em BH, há mais companhias e designs diferentes, gosto mais”, explica.

Transformação


Ver Alex Fischer copiar a tampa de um bueiro in loco, visitar sua exposição ou seu site (www.alexfischer.net) são experiências sem volta. Vai ser impossível passar outra vez por um bueiro (e olha que não são poucos) sem dar uma “olhadinha”. “É essa a ideia principal do meu trabalho, transformar o olhar das pessoas. Ninguém presta a atenção em bueiros – nem motoristas, nem transeuntes – , mas existem várias pessoas produzindo bueiros, criando seus designs. Pode-se dizer até que é um tipo de arte o que eles fazem. E ninguém percebe”, analisa. Para o artista, o melhor é que todo mundo pode fazer o que ele faz. Mas Alex parece ser o primeiro. “Penso que sim. Nunca encontrei ninguém que fizesse o mesmo. Já conheci quem faz fotos de bueiros”, revela. O próprio artista sempre registrou em imagens sua construção da linha do tempo. “Primeiro fotografava, agora filmo.”

Ele está editando o vídeo que exibirá durante a exposição em Belo Horizonte, na qual mostrará entre 16 e 18 cópias de bueiros da cidade. Não é a primeira vez que o alemão vem à capital mineira. Esteve aqui em 2007 e também em Ouro Preto e, claro, fez bueiros que integram sua linha do tempo. Já foi também a Esmeralda, Ituiutaba e expôs em Uberlândia, em 2006, cidade inclusive que tem o único bueiro colorido do site de Alex. “A mostra (o contato com o museu da Universidade Federal de Uberlândia foi feito por uma amiga) era em frente a uma escola de arte. Quis criar uma coisa diferente, para quebrar. Gosto disso. Mas o processo demorou muito e não ficou bom. Prefiro os desenhos em preto e branco; não é uma questão de cor, mas de material (grafite).”

Dez anos depois do início do projeto, Alex Fischer soma 240 desenhos. Além das citadas, esteve em uma infinidade de outras cidades, caso de Moscou, Jerusalém, Washington, Londres, Nairobi, Kampala, Nice, Mônaco, Madri, Genova, Milão, Paris, Rio de Janeiro, São Paulo, Tóquio… “No Japão existem tampas de bueiros coloridas, com flores pintadas, algumas têm espécies de mangás”, revela. Todas as cópias são catalogadas pelos locais, data e tempo de produção. As cidades, ele conta, são escolhidas aleatoriamente. Alex tem outros projetos, faz vídeos e esculturas em árvores (confira no site) e já participou de inúmeras mostras e festivais. Aproveita cada viagem para criar suas cópias de bueiros.

“A única viagem feita exclusivamente para o projeto foi no ano passado, à Índia. “Foi a realização de um sonho. Queria fazer meu próprio bueiro em metal. Escolhi Bombaim porque lá o processo é mais barato. A peça em metal pode custar até 6 mil euros, na Europa, no caso de você produzir apenas uma. O custo cai à medida que a produção é ampliada”, revela. O projeto, bancado financeiramente pelo próprio artista, não tem data para terminar. Tornou-se algo obsessivo. Ele se autointitula “uma máquina humana de copiar bueiros”. É bem mais que isso. Ele viaja o mundo transformando o olhar e desacelerando o ritmo das pessoas em meio ao caos urbano.

Decalque de Bueiros do Hipercentro de BH
Mostra de Alex Fischer, no Espaço 104, Praça Rui Barbosa, 104, Centro. Abertura terça-feira, às 19h30. De terça a sábado, das 10h às 21h; domingo, das 10h às 17h. Até dia 31