Seção : Arte e Livros - 12/01/2010 10:57
O Brasil representado pela cerâmica
Cerâmicas de Ulisses Mendes e de João Alves expressam a sabedoria popular do Vale do Jequitinhonha. Mostra da dupla vai ficar em cartaz até fevereiro na galeria do Sesc/MG
Walter Sebastião - EM Cultura
|
Ulisses Mendes tem 53 anos e trabalha há 30 com cerâmica. Aprendeu a técnica na comunidade formada por parentes, à beira do Rio Jequitinhonha, onde se sobrevivia da pesca, do artesanato e do garimpo. “Lá estava a melhor argila do Jequitinhonha”, observa. Suas primeiras peças – cristos camponeses e mulheres pensativas à beira do fogão – davam vazão à crítica política do artista à situação de sua região, “que, há 30 anos, era uma das mais pobres do Brasil”, explica Ulisses. Danças populares, lendas, violeiros e contadores de casos reafirmam a riqueza cultural daquelas localidades do Nordeste mineiro.
Galeria: conheça mais trabalhos de João Alves e Ulisses Mendes
João Alves tem 45 anos. Começou a fazer cerâmica brincando com barro na olaria do pai. Aos 16, já modelava presépios, mas essa tradição foi minguando, obrigando-o a buscar outros temas. Surgiram, então, as cenas do cotidiano da vida rural. A técnica criada por ele mistura papier mâché, algodão e barro. Memórias da infância – como defuntos carregados na rede – e cenas atuais, como mulheres tecendo rede ou assando biscoitos, compõem sua obra. Peças dele foram finalistas do Prêmio Unesco de Artesanato para América Latina e Caribe, em 2004. Outra artista do Jequitinhonha venceu o concurso: dona Isabel, conhecida pelas noivas de barro.
Ao comentar o trabalho de colegas que admira, Ulisses é só elogios para Zefa de Araçuaí. “Quando estou deprimido, vou conversar com ela e volto de alma limpa. Troco ideias com Zefa e aprendo muito. Veio dela a satisfação de ser artista, o gosto por viver de arte e sem ambição. Quem quer ficar rico não continua fazendo arte, porque ela não enriquece ninguém”, garante. Ele também admira Ulisses, de Icaraí: “Faz arte que parece ter 10 milhões de anos”. O melhor de ser artista? “Mostrar o sorriso do roceiro, que ninguém vê, e ter o meu salário sem precisar ficar perturbando político”, responde. A situação do Vale do Jequitinhonha melhorou, na opinião de Ulisses. Mas a dos artistas continua complicada. “Faltam exposições nas capitais, convites para participar de feiras, gente que divulgue o trabalho. Nós não temos mais espaço nas cidades grandes, vivemos de fama, de nome e de alguém que apareça por aqui e compre os trabalhos.” Ele já foi cantador, mas pendurou o violão. GESTOS João Alves aprecia a simplicidade dos gestos do pessoal da roça, como as mulheres cozinhando, ralando milho ou amamentando os filhos. Ele tem 100 modelos de cenas. Sua peça de maior sucesso mostra uma negra rezando no oratório. Atualmente, a produção é dividida com a esposa, Sônia Alves. “Meus dois filhos também estão começando na cerâmica”, avisa. “A vida no Vale do Jequitinhonha é difícil, mas feliz. Conformada com o simples”, observa. Sua atividade, fundamental para as despesas do cotidiano, torna-se complicada porque o escultor depende dos compradores que chegam de fora. Atualmente, afirma ele, os trabalhos feitos no Jequitinhonha estão mais conhecidos. Mas é caro viajar, transportar e vender as peças. João Alves recomenda às prefeituras liberar “um carro-baú para levar o artesão para expor fora”. Viagens de ônibus podem danificar e quebrar as cerâmicas, pondera. Admirador da obra de dona Isabel, ele também elogia Ulisses, da cidade de Icaraí, “que não é tão perfeito, mas tem criatividade diferente”. João já expôs no Museu Edson Carneiro e tem obras na coleção da Casa do Pontal – Museu de Arte Popular, ambos no Rio de Janeiro. ULISSES MENDES E JOÃO ALVES Galeria de Arte do Sesc/MG, Rua Tupinambás, 956, 1º andar, (31)3279-1462. De segunda a sexta-feira, das 12h30 às 18h30. Até 5 de fevereiro. |



Aguarde.....