Divirta-se Notícia - Samba enredo está numa encruzilhada, para autores de livro

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Seção : Arte e Livros - 27/01/2010 14:30

Samba enredo está numa encruzilhada, para autores de livro

Segundo Alberto Mussa, autor de Sambas de enredo - história e arte, o gênero pede intervenções para não ser esquecido

Luisa Brasil - Portal Uai
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Divulgação
Alberto Mussa: samba enredo atual empobreceu e perdeu seu caráter épico


No livro Sambas de enredo - história e arte, Alberto Mussa e Luiz Antônio Simas, dois apaixonados por samba, relembram os tempos áureos do samba enredo, mas demonstram uma preocupação: com o empobrecimento constante das letras e melodias apresentadas nos últimos anos, qual o futuro gênero? Confira um trecho da entrevista onde Alberto Mussa discorre sobre a crise que afeta o ''único gênero genuinamente épico do Brasil'', nas palavras do próprio autor:

Quando os sambas de enredo se tornaram símbolos do Carnaval brasileiro?

No fim da década de 60, o interesse pelos sambas de enredo era tão grande que os carnavalescos tiveram a idéia de gravá-los sistematicamente. Isso veio atender a uma demanda do público, que queria conhecer o samba antes dos desfiles. Acho que foi nessa época.

Hoje em dia o samba enredo não está na boca do povo como antigamente. Qual o lugar do samba enredo no Carnaval atual?


O samba de enredo passa por uma certa crise que tem a ver com vários fatores. Eles [os sambas] têm ficado muito parecidos em função da perda de qualidade e deixaram de representar seu assunto fundamental, pois o samba enredo sempre foi um gênero épico, e hoje em dia ele não tem tido mais esse caráter

É o Carnaval pelo Carnaval?

É, o carnaval da folia de rua, de blocos de sujos, de baile à fantasia. Hoje em dia parece que a mentalidade dominante é que o Carnaval precisa ser isso. O desfile da escola de samba sempre conviveu com Carnaval de rua, mas tinha um perfil completamente diferente, sempre foi uma coisa séria. O desfile não é lugar para a pessoa pular, sacudir, como se diz hoje até em muitas letras de samba, que estimulam as pessoas a pularem desvairadamente.

Outro motivo é a perda da importância do samba enredo dentro dos quesitos para se julgar o campeão. A forma de julgamento não é própria para você analisar uma obra de arte. Existe um manual que você tira pontos por detalhes que têm que ser cumpridos. Então a gente vê sambas ruins que ganham nota dez. Não é mais necessário investir em uma obra bonita porque qualquer porcaria pode cumprir a sua função e fazer a escola tirar uma pontuação boa. A escola depende muito mais dos quesitos que se diferenciam pelo investimento financeiro, como grandes carros alegóricos e fantasias de luxo.

Junto a isso, a crise do próprio mercado fonográfico pode ter ajudadao como fator secundário.

O prognóstico para o futuro então é pessimista?

Se não houver uma mudança, isso vai se tornar cada vez pior e acabar, virar folclore. Porque qualquer forma cultural precisa ter sua tradição sedimentada e reconhecida pra continuar produzindo. As pessoas avaliam as obras com base nos parâmetros de hoje. A sociedade está muito instantânea, não vivemos em uma época em que a história tenha muita importância. Nas escolas de samba mesmo, você não consegue escutar um samba antigo, eles só cantam sambas recentes. O próprio compositor jovem desconhece a tradição do gênero que ele pretende produzir. Também é preciso haver a diminuição do ritmo das baterias.

Ela é feita somente para empolgar o público?

Ela é feita para alucinar, essa visão de achar que tem que sacudir. A velocidade da bateria impede uma melodia rebuscada. Um exemplo é o samba da Vila Isabel feito para este ano. É muito bonito, feito pelo Martinho da Vila, mas na gravação ele tem uma aceleração tão grande que a beleza se descaracteriza, porque não dá pra você cantar com rebuscamento.

Como os compositores podem fazer bons sambas sem recorrer a temas épicos que já foram tratados no passado?

Existem muitos aspectos da história do Brasil que nunca foram explorados. Além do mais, você pode usar o mesmo tema com uma abordagem diferente. O Santos Dumont da década de 40 não é o mesmo de hoje. Na literatura isso também acontece. Chegou-se a dizer que não existem histórias novas para serem contadas. As histórias de amor são mais ou menos as mesmas, mas a abordagem é diferente. E você tem o mundo inteiro, não só o Brasil. Mas as escolas só fazem enredos internacionais com patrocínios. Se esquecessem essa questão, quantos países e personagens poderiam ser tratados? O que é importante é dar esse caráter épico ao desfile, e não tratar de uma bobagem como o frio ou o calor. Falar de grupos de informática, como tem samba falando este ano, é complicado.