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Seção : Arte e Livros - 28/01/2010 11:05
Filme sobre Clarice Lispector une ficção e documentário
Filme sobre o trabalho de jornalista da autora de Perto do coração selvagem traça um retrato íntimo da escritora e de seus entrevistados para a revista Manchete
João Paulo - EM Cultura
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Feito diretamente para a televisão e para o mercado de DVDs, o trabalho reúne 15 entrevistas realizadas por Clarice Lispector com personalidades da cultura brasileira para a revista Manchete, entre 1968 e 1969. A seção se chamava “Diálogos possíveis”. A ideia da diretora foi convidar atrizes para interpretar a escritora e atores para dar vida aos entrevistados. Os que estão vivos (Ferreira Gullar, Tônica Carrero, Maria Bonomi, Nélida Piñon, Oscar Niemeyer e Elke Maravilha) foram convidados a responder às mesmas questões de Clarice, mas com liberdade para mudar as respostas anteriores. O resultado é um painel de época que é também um mergulho em algumas das possíveis Clarices que moravam dentro de Clarice Lispector. A costurar os vários quadros, passagens que trazem uma mulher solitária, interpretada por Aracy Balabanian. “O filme teria sido um documentário, se todos estivessem vivos, mas passou a ser uma ficção com pitadas de documentário”, explica Nicole. A primeira entrevista traz Beth Goulart na pela da escritora, em conversa com Nelson Rodrigues, interpretado por seu filho, Jofre Rodrigues. Elegante, com semelhança física impressionante, a atriz carrega nos erres, uma marca da pronúncia de Clarice, e faz perguntas ao mesmo tempo profundas e aparentemente ingênuas: “Você é de esquerda ou de direita?”; “Você se sente um homem só?”; “O que é o amor, Nelson?”. Profundamente distintos em termos de estética e visão de mundo, os dois parecem se encontrar exatamente na fuga dos temas mais conjunturais para se aprofundar no mistério da existência e da solidão. Outro momento forte do filme é o diálogo com Fernando Sabino. Louise Cardoso dá vida a uma Clarice mais solta e solar, talvez pelo fato de se encontrar com um grande amigo, com quem sempre se aconselhava e com quem trocou cartas reveladoras (mais tarde editadas no volume Cartas perto do coração). Curiosamente, o ator Fernando Eiras mostra um Sabino tímido, quase introspectivo, distante da imagem pública do escritor falante e seguro. A caracterização é forte e dá uma dimensão profunda aos questionamentos de Fernando Sabino sobre a morte e religião. Letícia Spiller interpreta Clarice em duas entrevistas, com Carybé (vivido por Paulo Vespúcio) e Jorge Amado (interpretado por Jayme Cunha). Criada no Nordeste, a bela imagem de Clarice andando pelas ruas de Salvador revela uma sensualidade que encanta quando comparada com a ideia de uma escritora cerebral e filosófica. Há um impulso para a alegria captado com sensibilidade. A escritora é interpretada ainda pelas atrizes Silvia Buarque (em entrevista com Hélio Pellegrino/Chico Diaz), Dora Pellegrino (que conversa com Djanira/Giovanna De Toni e Carlinhos Oliveira/Paulo Tiefenthaler) e Rita Elmor (em diálogo com João Saldanha/Karan Machado). Nesses casos, tanto o texto da atriz como o dos entrevistados seguem linha a linha o encontro original. As entrevistas realizadas com Niemeyer, Gullar, Tônia, Nélida, Bonomi e Elke têm as perguntas mantidas, dando liberdade aos entrevistados de responder com espontaneidade. Comparadas com o texto publicado no livro, percebe-se que há poucas mudanças. Com exceção da entrevista com Tônia Carrero, que transborda emoção. Para realizar essa parte do DVD, mais documental, o papel da Clarice entrevistadora foi entregue aos jornalistas Arnaldo Bloch, Deolinda Vilhena e Tânia Bernucci. A trilha sonora do DVD traz tema composto por Frejat, mas o destaque fica para a música inspirada em texto de Clarice Lispector retirado de Água viva, livro que Cazuza afirmava ter lido mais de 100 vezes. O poeta musicou as palavras da escritora, em canção interpretada no filme por Adriana Calcanhotto, com violão de Jards Macalé.
CADERNO DE TELEFONES Nicole lembra que o pequeno volume com as entrevistas a acompanhou, como se indicasse a possibilidade de se tornar algo importante em sua vida. “O livro sempre esteve por perto. Lembro que o peguei por causa do Tarcísio Meira: queria ler a entrevista que ele tinha dado para minha tia. Eu era muito fã dele por causa das novelas”, conta. Anos mais tarde, depois da morte da tia Elisa Lispector, “que era a arquivista da família”, a caderneta de telefones de Clarice passou para as mãos de Nicole. “Esse caderno de telefones foi a minha inspiração, porque lá estavam os nomes e telefones de muitos amigos da Clarice. Tinha o telefone do Ziembinski, da Bethânia, da Maria Bonomi, da Tônia Carrero e de muitos outros. Ele me acompanhou durante toda a produção do filme”, relata a diretora. Nicole Algranti destaca que sua empresa, a Taboca Filmes, não faz só cinema. Trabalha desde 1994 com populações indígenas do Acre, gravando discos de povos da floresta. A diretora ministra aulas de cinema para as populações da região e organiza com sua produtora projeto ligado à Universidade de Oxford, levando literatura, música e cinema brasileiro para a Inglaterra. Atualmente, está em fase de produção de espetáculo inédito de Ferreira Gullar, Romance nordestino, que fará parte das comemorações dos 80 anos do poeta. “O projeto nasceu exatamente no dia em que fomos entrevistar o Ferreira Gullar para o De corpo inteiro”, conta Nicole Algranti. Sobre a recente biografia de Clarice Lispector, de autoria do norte-americano Benjamin Moser, lançada no Brasil pela Editora Cosac & Naify, Nicole é diplomática: “O Benjamin fez um trabalho muito árduo, foi fundo na história dos judeus na Rússia, mas deu uns sustos na minha família também. Falou coisas que a gente nunca tinha ouvido e nem tudo eu concordo, mas deixo para os leitores a avaliação”, conclui. TRÊS PERGUNTAS PARA NICOLE ALGRANTI Por que a escolha pelas entrevistas e pelo trabalho jornalístico de Clarice Lispector, em vez de buscar algum texto mais confessional ou de ficção? Conhecei, numa tarde na Confeitaria Colombo, a doutora Claire Williams, da Universidade de Liverpool, que veio ao Brasil pesquisar as entrevistas inéditas da escritora, como a da Elke Maravilha. E ela organizou o livro Entrevistas, lançado pela Rocco. Com o livro nas mãos, enxerguei o roteiro na hora. Aí fui buscar a primeira edição do De corpo inteiro, que tinha ao lado do caderno de telefones. O filme já escorria pelas minhas mãos. Aí resolvi fazer dele imagem, som, música, cor, preto e branco, enfim, várias possibilidades que o livro me trouxe. Acho superconfessional, só que a Clarice fala de si mesma de forma homeopática. Em cada entrevista ela vai se revelando um pouquinho. Você é sobrinha-neta da escritora. Como a memória de Clarice habita sua vida e a de sua família? Clarice para mim faz parte da história da minha família, irmã da minha avô Tania – que foi a pessoa mais importante da minha vida –, irmã da minha tia Elisa, que me falou histórias tão importantes sobre a Rússia e da nossa família que vivia lá. Clarice faz parte da minha infância, do meu nascimento. Nasci antes do tempo, porque minha mãe foi ficar com Clarice no hospital. Ela havia se queimado e já estava na sétima operação, a anestesia nem fazia mais efeito, ela morria de dores. Mamãe estava de oito meses. Quando mamãe deixou o hospital, impressionada com as dores da tia Clarice, ela desmaiou na Rua Figueiredo de Magalhães e eu nasci no dia seguinte, antes do tempo. Que lições Clarice tem a oferecer para o jornalismo atual, muito marcado pela superficialidade? Clarice buscava respostas maiores do que o cotidiano das pessoas apresentava. Porque as respostas nem sempre estavam nos entrevistados, às vezes estava dentro da própria Clarice. Até os jornalistas hoje precisam buscar dentro de si mesmos as respostas que perguntam aos outros. As lições são de ser humano, não havia técnica, apenas Clarice mantinha uma verdadeira ternura para com seus entrevistados. DE CORPO INTEIRO – ENTREVISTAS Direção, roteiro e produção de Nicole Algranti Taboca Filmes, 67 minutos. Extras (18 minutos): Making of e curta-metragem O ovo, com narração de Maria Bethânia |



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