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Seção : Cinema - 14/11/2009 11:12
E o sangue semeou a terra - Um faroeste menor
Cyro Siqueira - EM Cultura
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…E o sangue semeou a terra, como faroeste, volta à velha tradição do homem branco que rasteja como índio – tradição sobre a qual alguns escritores, o alemão Karl May entre eles, alicerçaram seu prestígio dentro da literatura especializada. Sua história tem início quando Glyn McLyntock (James Stewart) evita o linchamento de Emerson Cole (Arthur Kennedy), um facínora. Mais tarde, Cole por várias vezes salva a vida de McLyntock, pagando a dívida inicial e se preparando para uma felonia em grande estilo. Já então o espectador está confiante na figura legendária do vilão em potencial, que em todas as circunstâncias intervém providencialmente. Aí, o que vale no herói interpretado por Stewart é a sua valentia recessiva, truque velho empregado com êxito desde os filmes de John Ford e Henry Fonda, principalmente em A paixão dos fortes (My darling Clementine, 1946) e inclusive em Atire a primeira pedra (Destry rides again, 1949), com o mesmo Stewart. Essa valentia, estourando no final, causa o efeito esperado, levando de roldão a empáfia dos valentões e dos incautos bandidos, ceifados impiedosamente, em cores. Com exceção do personagem interpretado por James Stewart e, de certa maneira, o vivido por Arthur Kennedy – talvez um pouco gracioso –, os demais figurantes da trama são mais ou menos esquemáticos, reagindo menos por si mesmos e mais de acordo com padrões préestabelecidos, do que é modelo a figura sob cuja pele se coloca a atriz Julia Adams (Laura Baile). Lutando, todavia, com os defeitos originais do roteiro, o diretor Anthony Mann consegue se safar elogiavelmente da aventura, construindo um western até que aceitável, sem embargo do tremendo handicap contrário que era, a essa altura da história do cinema, a cor, a qual, nos filmes Universal-International do período, era ainda o mais primitiva possível, usada como nos cartazes de publicidade de refrigerantes. …E o sangue semeou a terra reúne, pela segunda vez, o mesmo trio de um outro faroeste de grande envergadura, Winchester 73 (1950): o diretor, Mann; o produtor, Aaron Rosenberg; e o ator, James Stewart. Se o resultado não foi tão bom, culpe-se, de começo, o technicolor tal como aqui foi usado e os roteiristas, por não terem separado o essencial do acessório, reunindo tudo num filme em que a dispersão de elementos de tensão chega a ser irrisória, como no caso da cidade que, do dia para a noite, se transforma num antro de barulho e encrencas depois da descoberta de ouro, e que desfila pela tela em duas ou três tomadas inexpressivas. O elenco é dominado pela figura de Arthur Kennedy, um grande ator do qual Hollywood custou a tomar conhecimento, depois de jogá-lo em produções de nenhuma significação. Kennedy – que à época apareceu em papéis importantes em Ninguém crê em mim (The window, 1949), de Ted Tetzlaff, O invencível (Champion, 1949) e Só resta a lembrança (Bright victory, 1951), ambos de Mark Robson – contracena com James Stewart, imperturbavelmente o mesmo de sempre. A heroína interpretada por Julia Adams é de absoluta insignificância, o mesmo ocorrendo com o então novo galã que o estúdio Universal queria (e conseguiu) impingir, Rock Hudson, na pele de Trey Wilson. EM DEFESA DA FÁBRICA DE CINEMA James Stewart também está no elenco de Dupla redenção (Carbine Williams, 1952), um filme que, contextualizado na época de sua produção, nos faz refletir sobre a velha Hollywood, onde, em certos estúdios, a padronização de determinados setores da indústria se tornou menos o imperativo de uma proclamada e explorada “comercialização” e mais um fruto da própria qualidade do entretenimento a que o cinema, pelo seu aspecto espetacular, se via reduzido. Dupla redenção é bem o exemplo da película realizada para atingir ao maior número possível de espectadores: tem uma história simples em suas linhas gerais, com o uso dos principais elementos de uma narrativa (ação física, intensificada no episódio do cerco da destilaria; romance; jogo de personagens para a reunião das atenções sobre um episódio central – no caso, a tentativa do herói de construir uma espingarda especial – etc.). Além disso, servindo à parte inconformista da humanidade, a fita exibe uma crítica aos métodos correcionais americanos, mostrados como sendo ainda bastante medievais. De tudo isso, resulta um filme que, se pelo seu método simplista repugna, por exemplo, ao racionalismo europeu (das elites bem pensantes, ressalte-se), consegue atingir uma expressão capaz de agradar à média da plateia, burguesa ou não. Foi nesse equilíbrio, aliás, que o estúdio Metro-Goldwyn-Mayer, que assina a produção, continuou pelos anos afora, sendo a mais identificável das companhias americanas no que tange ao chamado “comercialismo” de seus lançamentos. Acrescente-se a isso a habilidade com que se dá à narrativa de filmes assim a maior objetividade (cinematográfica) possível – coisa que torna, em sua grossa maioria, descabidas e injustas as condenações totais feitas no período pela crítica europeia, notadamente a francesa, ao cinema americano. Estabelecido isso, fica fácil a compreensão da feitura de películas como esta, que, não ultrapassando o plano vulgar da realização cinematográfica, consegue não ser uma fita muito desagradável. Para isso contribui também o alto nível de interpretação que caracterizava a média do ator americano daqueles tempos, dando ao público acentuada sensação de um “verismo” na realidade inexistente. A ação de Dupla redenção tem lugar no estado da Carolina do Norte, apontado como um dos mais retrógrados da União americana. Retirada de um acontecimento real, a história narra as desventuras de um sujeito altamente individualista que, negociando no fabrico clandestino de uísque, um dia é acusado de haver eliminado um agente federal. TODOS OS RECURSOS PARA FAZER CHORAR Recorde-se, a essa altura, que Dupla redenção, em várias passagens, procura mostrar os erros da famosa Lei Seca que, levada para o plano nacional, deu lugar à fase áurea do gangsterismo nos Estados Unidos. Esse ponto é importante porque situa a posição de Hollywood num momento em que certas forças – naturalmente das mais suspeitas – tentavam fazer ressuscitar a tal lei, a qual fez surgir Al Capone e os fabulosos “enterros” em Chicago e Nova York. Com razoáveis interpretações de James Stewart (Marsh Williams) e Jean Hagen (Maggie Williams), a grande atriz de Cantando na chuva e O segredo das joias, e direção de Richard Thorpe, Dupla redenção é, em resumo, um filme assistível, apesar do seu comercialismo. Quase na mesma época, Ainda há sol na minha vida (The blue veil, 1951) foi o tipo de filme que fazia estalar o coração das plateias – principalmente o público feminino. Principalmente pelo fato de, à frente do seu numeroso elenco, figurar o nome de Jane Wyman, que desde Belinda (Johnny Belinda/1948, de Jean Negulesco), se transformou numa das principais sofredoras do cinema de Hollywood. Mesmo sendo um espetáculo razoável, o filme é todavia, piegas, um arranca-lágrimas respeitável, que não recua diante dos mais fáceis recursos, contanto que despertem exclamações de comiseração. Desses, o mais afrontoso é, sem dúvida, o uso sistemático de crianças, vistas sob todos os imagináveis ângulos, provocando as habituais reações em um numeroso grupo de espectadores para os quais os infantes sempre são encantadores e graciosos. De qualquer forma, Ainda há sol na minha vida é antes uma saga do mundo das “Mulheres Formidáveis”. Por esse aspecto, o filme é encantador, com o desfile de um selecionado grupo de admiráveis senhores e senhoritas que tripudiam sobre o inexistente, humilhado e utilitário sexo masculino, representado, em primeiro lugar, por Fred K. Begley, indivíduo mais ou menos bom mas sem senso de responsabilidade, interpretado por Charles Laughton. Depois, além de um dono de loja um pouco amalucado, aparece outro exemplar da curiosa fauna, um conquistador irresponsável que se curva diante dos argumentos expostos em meio minuto por uma das “Mulheres Formidáveis” que enchem o filme. Depois de convencer a heroína a partir com ele para a Turquia, o rapaz se toma de arrependimento, trocando os pés pelas mãos, ou as mãos pelos pés, ainda no trem que iria levá-los a Nova York. O fato leva a jovem a novo e denodado sacrifício, triunfando a dedicação à Criança – a Terceira Força no universo do filme – sobre o pífio amor da mulher pelo homem. ESPETÁCULO COM EXCESSO ROMÂNTICO Depois de uma metade inicial quase sem nenhum interesse, Ainda há sol na minha vida adquire, a partir de certa altura, bastante dignidade, quando o mito do princípio é atenuado pelo respeito à velhice. No gênero, a cena em que miss Wyman (ou, mais apropriadamente, Louise Mason, a personagem) luta, diante do delegado, para conservar o menino que ela criara durante oito anos, é exemplar, o mesmo ocorrendo com o episódio da escola. Já o final é meio arranjado, como a corrida para o espetaculoso, somente conseguido por um artifício assim como de paginação, um tanto fracativo. No elenco, a figura respeitável de Jane Wyman exibe uma interpretação sentida e profunda, que domina todo o filme, o qual, na realiade, a ela pertence. As sobras caem, por tangente, a Charles Laughton e Joan Blondell (na pele de Annie Rawlins), principalmente. Natalie Wood, absolutamente cacete como Stephanie Rawlins, completa o quadro, ao lado de Alan Napier (professor George Carter) e outros. A fotografia, de bom padrão, é de Frank Planner, o mesmo de Carta de uma desconhecida (Letter from an unknown woman/1948, de Max Ophuls) e O invencível (Champion/1949, de Mark Robson). A música, abundantemente adocicada, é assinada por Franz Wazman. Em síntese, essa refilmagem de um tema francês é um espetáculo talvez excessivamente romântico sobre uma jovem que resolve criar filhos alheios, dirigida de maneira apenas habilidosa por Curtis Bernhardt. Alguém pode ter achado desrespeitoso o jeito como me referi a Natalie Wood algumas linhas atrás. Por isso, é bom lembrar que ela se tornaria uma das poucas atrizes mirins de Hollywood a fazer de maneira competente a transição rumo à idade adulta. Quando Ainda há sol na minha vida foi lançado, Natalie Wood tinha apenas 13 anos. Ainda tinha muito a viver e aprender antes de se tornar a estrela de obras como Juventude transviada, Clamor do sexo ou Amor, sublime amor. |


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