Divirta-se Notícia - Começa nesta quinta o Forumdoc.bh

Divirta-se

Seção : Cinema - 18/11/2009 10:43

Começa nesta quinta o Forumdoc.bh

Festival do Filme Documentário e Etnográfico vai apresentar Corumbiara e cinema produzido na África

Marcello Castilho Avellar - EM Cultura
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Vincent Carelli/Forumdoc/ Divulgação

No Houaiss, documentário é “filme informativo e/ou didático feito sobre pessoa[s] (ger. de conhecimento público), animais, acontecimentos (históricos, políticos, culturais etc.) ou ainda sobre objetos, emoções, pensamentos, culturas diversas etc.”. Etnografia, por sua vez, é “estudo descritivo das diversas etnias, de suas características antropológicas, sociais etc.” ou “registro descritivo da cultura material de um determinado povo”. Fácil ver que as duas definições se aproximam – o documentário é um sistema de registro, a etnografia o próprio registro. Com essa proximidade, fica até difícil entender por que os dois campos são, frequentemente, apresentados em separado. Menos em Belo Horizonte, claro. Aqui, desde 1997, a Associação Filmes de Quintal, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais, realiza anualmente o Forumdoc.bh – Festival do Filme Documentário e Etnográfico. A versão 2009 do evento começa nesta quinta, no Cine Humberto Mauro, Palácio das Artes, com a apresentação de Corumbiara, de Vincent Carelli, uma investigação sobre os vestígios do massacre de índios da Gleba Corumbiara, em Rondônia, em 1985.

A tal proximidade entre os dois campos não implica, contudo, coincidência. O filme etnográfico pode ser uma obra de ficção, enquanto o documentário pode escolher objetos – ou relações – que fogem à etnografia. O público terá bons exemplos disso este ano. Júnia Torres, uma das curadoras do evento, menciona que um de seus pontos mais altos, a Mostra Cineastas Africanos (19 filmes de diversos países), é dominada pelas obras de ficção – todos ligados pelo fato de que aqueles realizadores tentam compreender as culturas em que vivem a partir de um olhar que se aproxima da antropologia.

Nos filmes inscritos para as mostras competitivas, por outro lado, houve a predominância de documentários “clássicos”, que elegem seu objetivo e sua forma de documentar sem ter necessariamente aquela preocupação com um olhar etnográfico. Para esses documentários, um dos critérios da seleção foi a busca de formatos que fogem do que se tornou a tônica no mercado do gênero, o filme feito para a televisão. A explicação é simples: as obras pensadas para a televisão têm seu canal de exibição natural, e o Forumdoc resolveu privilegiar os filmes de qualidade que, por sua própria linguagem, teriam mais dificuldade em chegar ao público por ser menos adequados àquele canal.

Vincent Carelli/Forumdoc/ Divulgação
O filme Corumbiara, de Vincent Carelli, vai em busca dos vestígios do massacre de índios em Rondônia, em meados da década de 1980
CÂMERA NA MÃO

Em sua trajetória de 12 anos, o Forumdoc acabou sendo, por si mesmo, um registro da transformação de nosso olhar coletivo sobre o cinema. Ao longo desse percurso foi crescendo, por exemplo, a autorrepresentação – filmes realizados por representantes dos próprios grupos sociais ou culturais que são retratados na obra, a câmera na mão de quem, até pouco tempo, seria apenas objeto do registro. A versão 2009 traz, espalhados pela programação, bons exemplos dessa tendência vindos do Brasil – onde membros de comunidades indígenas têm, cada vez mais, sido responsáveis pelo registro de suas próprias culturas.

Ao mesmo tempo, o Forumdoc segue tendências e as influencia, no sentido do reencontro com cineastas importantes. Este ano, o evento realiza uma significativa retrospectiva de um dos maiores e menos conhecidos cineastas brasileiros, Ozualdo Candeias (1928-2007). O Forumdoc não excluiu da mostra as obras ficcionais do realizador, criações rebeldes como A margem. Mas oferece ao público algumas preciosidades dirigidas por ele: documentários de curta-metragem que, apesar de realizados com objetivos institucionais, trazem um olhar personalíssimo, como a nos lembrar de que no cinema o que interessa não é o objetivo da produção, mas a singularidade da criação.

SIGNIFICADOS COMUNS


“Filme etnográfico é aquele pautado por determinada relação estabelecida entre quem filma e quem é filmado. É uma relação de aproximação, um compartilhamento de significados comuns, a busca do conhecimento do texto produzido por determinado sujeito. O filme etnográfico é resultado de pesquisa longa, que pressupõe convivência de quem filma com a pessoa ou o grupo filmado.”

FORUMDOC.BH.2009
Festival do Filme Documentário e Etnográfico.

Quinta-feira
19h30 – Sessão de abertura, com apresentação de Corumbiara, de Vincent Carelli, comentado pelo realizador.

Sexta-feira
15h – Competitiva nacional – Tsõ’rehipari, sangradouro, de Divino Tserewahu, Tiago Campos Torres e Amandine Goisbault, e O migrante, de Carlos Machado. 17h – A arquitetura do corpo, de Marcos Pimentel, Rio de mulheres, de Cristina Maure e Joana Oliveira, e Batatinha, poeta do samba, de Marcelo Rabelo. 19h – Mostra Ozualdo Candeias – Rodovias, Polícia feminina e A herança, de Osualdo Candeias. 21h – Cineastas africanos – La Noire D, de Ousmane Sembène (Senegal), Le retour d’un aventurier, de Moustapha Alassane (Níger), e Les cow-boys sont noirs. 23h – Mostra Subterrâneos – Alemanha no outono, de Rainer Werner Fassbinder (Alemanha). Cine Humberto Mauro (Palácio das Artes, Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro), até dia 29. Entrada franca.