Divirta-se Notícia - O olhar para o mundo de João Moreira Salles

Divirta-se

Seção : Cinema - 24/11/2009 17:12

O olhar para o mundo de João Moreira Salles

Em entrevista, cineasta fala sobre seus documentários e afirma que as exposições do Instituto Moreira Salles continuarão a vir para Belo Horizonte

Silvia Dalben - Portal UAI
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Cale/Divulgação

Ao lado de Eduardo Coutinho, João Moreira Salles é um dos expoentes no cinema documentário brasileiro. Começou a carreira na década de 1980, incentivado pelo irmão Walter Salles, mas traçou um caminho diferente. Enquanto Walter escolheu a ficção, ele optou por retratar o mundo real.

João Moreira Salles concedeu esta entrevista no início de novembro, quando passava por Belo Horizonte para uma palestra sobre a revista Piauí. Além de falar de seus filmes, sobre a linguagem do documentário, ele também deu uma notícia ótima para Belo Horizonte. Como presidente do Instituto Moreira Salles, garantiu que as exposições continuarão vindo para a capital mineira, apesar do prédio ter sido fechado em outubro.


"Eu não tenho acompanhado as negociações, mas o que posso garantir é que as exposições do Instituto Moreira Salles, que no fim é o que conta, continuarão vindo para Belo Horizonte do mesmo modo, e provavelmente no mesmo edifício. O prédio será cedido em comodato para uma instituição, cujo nome não posso revelar, porque ainda não está sacramentado no papel. Essa instituição cuidará do espaço, e haverá um andar para as exposições do Instituto Moreira Salles. Então, a rigor, o IMS não foi embora, se você entender o IMS não a instituição, mas as exposições. Estas continuarão vindo do mesmo modo. Pra quem visita, não vai mudar nada."

Veja fotos dos filmes de João Moreira Salles

UAI - Em Notícias de uma guerra particular (1999), você retrata a relação entre policiais, traficantes de drogas e moradores no Morro Dona Marta, no Rio. Já em Entreatos (2004), você acompanha quarenta dias da campanha de Lula antes do primeiro mandato. Duas realidades que, após seus documentários, foram retratadas pelo cinema de ficção. Você acha que, de alguma forma, seus filmes influenciaram outros cineastas?

João Moreira Salles - Não, eu não acho que sou um visionário não (risos). É sempre mais fácil chegar antes com o documentário do que com a ficção. Por várias razões, mas uma razão principal é da maneira prática, concreta. Você quer fazer um documentário? Junte três amigos, um carro, uma câmera e pronto, você está apto a fazer um filme. Você não precisa captar, você não precisa ter elenco, não precisa ter produtor de elenco, cenógrafo, não precisa ter roteiro. Você não precisa ter nada disso, entende.

Quando tem um assunto no ar, é mais fácil chegar antes com uma equipe de documentário do que com a de ficção.

É evidente que o cinema da violência urbana e ficcional iria acontecer, independentemente do Notícias de uma guerra particular. O documentário pode ter indicado um caminho, uma maneira de abordar o tema, mas o cinema de ficção existiria, sem dúvida nenhuma.

A questão do Lula, talvez seja um pouco espantoso que o filme exista com ele ainda no poder, mas essa é uma outra questão. A trajetória de Lula, goste-se dele ou não, é extraordinária e é evidente que isso se tornaria um filme de ficção.

O meu é apenas um retrato de 40 dias de campanha. É sobre o Lula, claro, mas também sobre como se faz uma campanha no Brasil, e como foram especificamente aqueles quarenta dias. Não é biográfico, não traça a historia do Lula.. Se isso ocorre naturalmente nas conversas, está no filme, mas isso não ocorreu em nenhum momento. Portanto, isso não é dito no filme. Você não assiste Entreatos para saber de onde ele veio, onde ele nasceu, se ele foi para São Paulo ou não foi, com que idade.

UAI - E hoje, como você vê essas duas realidades, dez anos depois de Notícias de uma guerra particular e já caminhando para o último ano do mandato de Lula na presidência?

JMS - No caso de Notícias de uma guerra particular, as pessoas me perguntam se eu teria algum interesse em fazer um novo filme sobre este assunto. Eu não tenho o menor interesse em fazer um novo filme, em primeiro lugar porque não gosto de voltar para um lugar onde já estive, e em segundo porque o filme não seria diferente, porque realmente acho que nada mudou. O problema continua de pé e, essencialmente, mudou muito pouco.

No caso do Lula, é claro que mudou e é evidente que mudaria. Eu filmei o Lula antes do poder, e o poder muda. A realidade opera sobre a pessoa. Eu diria que os quarenta dias que antecederam a eleição de Lula eram os quarenta dias do princípio do prazer. Tudo uma imensa utopia, um imenso sonho. Eu vi comícios com 300 mil, 400 mil pessoas, que estavam ali diante do sonho. E é claro que o sonho jamais se realiza, e não se pode realizar. Não se pode cobrar isso.

Se você se lembra do filme, ele acaba com o Lula se afastando da câmera e sendo engolido pela imprensa. É a primeira vez que ele aparece publicamente, porque o filme optou por mostrá-lo apenas em situações privadas. Ele se afasta e é engolido pelo público, pela imprensa, e, para mim, essa é a imagem do "Bom, agora começa o princípio da realidade". Agora é a vida real com todos os seus obstáculos, seus impedimentos, suas impossibilidades, suas seduções. Tudo aquilo que no sonho não existe. O sonho pode tudo.

Leia a continuação da entrevista com João Moreira Salles